O Primeiro Dia do Ano É Mesmo Diferente?
- David Gertner

- 6 de jan.
- 3 min de leitura

O primeiro dia do ano amanhece como todos os outros. O sol não nasce mais cedo. O tempo não pede licença. O corpo acorda com os mesmos hábitos, as mesmas dores, os mesmos pensamentos inacabados da noite anterior. Em termos práticos, nada muda. E, ainda assim, insistimos em tratá-lo como se fosse outro tipo de dia.
Talvez porque não seja um dia do calendário, mas um dia da imaginação.
Não há nada de especial no 1º de janeiro — exceto o que projetamos sobre ele. É um marco simbólico, um intervalo artificial entre o que foi e o que ainda não aconteceu. Um silêncio breve entre duas frases longas. O mundo segue, mas nós pausamos. E, nesse gesto de pausa, algo se diferencia.
Nos outros dias, seguimos vivendo sem pensar muito no fluxo do tempo. No primeiro dia do ano, o tempo nos olha de volta. Pergunta — sem palavras — o que fizemos com ele e o que pretendemos fazer agora. Não cobra resultados. Apenas convida à consciência.
É por isso que ele parece diferente.
Não porque o passado tenha sido apagado, mas porque, por um instante, acreditamos que ele pode ser reorganizado. Revisamos erros com a gentileza que não tivemos quando eles aconteceram. Perdoamos a nós mesmos com mais facilidade. Prometemos mudanças não porque sabemos como realizá-las, mas porque sentimos que ainda há espaço para tentar.
Há quem critique essa ilusão. Diga que nada muda de um dia para o outro, que promessas se dissolvem antes do carnaval, que o calendário não transforma ninguém. Tudo isso é verdade. Mas não invalida o gesto simbólico. Rituais não mudam o mundo diretamente — mudam a forma como olhamos para ele.
O primeiro dia do ano é um desses rituais.
Ele não inaugura uma vida nova, mas permite uma pequena revisão de rota. Não apaga falhas, mas cria uma margem de esperança. Não garante futuros melhores, mas nos lembra que o futuro ainda não está escrito.
Talvez sua diferença esteja exatamente aí: ele nos oferece uma pergunta antes de nos cobrar uma resposta.
Nos dias comuns, reagimos. No primeiro dia do ano, refletimos. Nos dias comuns, repetimos. No primeiro, imaginamos. Nos dias comuns, seguimos. No primeiro, escolhemos — ainda que a escolha seja apenas tentar de novo.
E isso não é pouco.
Quando o ano começa, não começamos do zero. Começamos do que somos. Com nossas contradições, limitações e desejos ainda mal formulados. Mas, por algumas horas, temos a chance rara de nos escutar sem pressa, de fazer um balanço sem planilhas, de olhar para frente sem a urgência do relógio.
Depois, o dia termina. O ano avança. A vida volta ao seu ritmo imperfeito.
Mas algo fica.
Talvez não uma resolução clara. Talvez não uma mudança visível. Mas a lembrança de que o tempo não é apenas algo que passa — é algo com o qual dialogamos.
E, se o primeiro dia do ano é igual aos outros, ele também é diferente.
Igual na forma.
Diferente no sentido.
E isso, para quem cria, para quem pensa, para quem tenta viver com um pouco mais de consciência, já é motivo suficiente para tratá-lo com respeito.
David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, livro que reflete sobre identidade, ética e escuta em tempos de tecnologia e aceleração.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
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