O que devemos à Berta Ribeiro, a antropóloga que viu as civilizações da floresta?
- Redação

- há 8 horas
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Escritora e pesquisadora, destacaa importância da antropóloga Berta Ribeiro
Quando a menininha, Bianca Luiza, moradora de um subúrbio do Rio de Janeiro, disse à sua mãe que quando crescesse queria trabalhar em museu, parecia estar antevendo os passos que daria no sentido de viver e intervir, nessa atmosfera de conhecimento. Hoje é pesquisadora de pós-doutorado no Museu Nacional.
Mas ela é mais que isso. A escritora carioca, de 34 anos, Bianca Luiza Freire de Castro França é historiadora, Doutora em História, Política e Bens Culturais, Mestre em Preservação de Acervos de Ciência e Tecnologia, Especialista em Docência Básica e Socióloga.
Nos próximos dias lança o livro O que devemos à Berta Ribeiro? A antropóloga que viu as Civilizações da Floresta. Bianca é autora da tese de doutorado Uma Civilização Vegetal: A contribuição de Berta G. Ribeiro para a Antropologia brasileira no século XX. Dirigiu e produziu o documentário Para Berta, com amor, de 2023, indicado ao Festival Internacional DOCLUANDA (2024); também é diretora do premiado internacionalmente, Não tem clima! - There is no climate!, de 2025.
E como se fosse pouco, foi autora do enredo da G.R.E.S. Tubarão de Mesquita, Berta Ribeiro: Da Praça Onze ao Coração da Floresta, que desfilou na Série Prata do Carnaval de 2026, no Rio. O enredo recebeu nota 10, por unanimidade.
Bianca França é autora dos livros Mil Peças: Coleções Ticuna do Museu Nacional, de 2020 e Guerra dos Tamoios: Uma história da resistência indígena no Brasil, de 2025, publicados pela editora Juruá. O novo livro, uma publicação independente, O que devemos à Berta Ribeiro? será lançado já-já. E ela manda um recado:
- "Eu gostaria que as pessoas assistissem ao documentário Para Berta, com amor, no Youtube e lessem o livro, que logo será lançado. Berta é um grande exemplo. É preciso estimular as meninas, indígenas e não-indígenas, à se dedicarem aos estudos e à pesquisa para que novas Bertas, Lúcias, Reginas, Sônias, Lux, Heloísas, Iones, Joênias, Célias, Stellas, e outras grandes mulheres possam surgir, lutar por si e pelos seus, para um mundo mais justo para todos os povos, sejam negros, indígenas, judeus, palestinos, brancos, independente da raça, sexualidade ou crença. Gente é pra brilhar e não para morrer (seja de fome, de guerra, de doença ou pela omissão).
CRIATIVOS - A sua trajetória demonstra claramente ser você uma pessoa com inclinação definitiva para os estudos, para pesquisas. Isso vem de berço ou houve alguma influência na caminhada?
BIANCA FRANÇA - Eu tenho origem bastante humilde. Até os meus três anos eu fui criada em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e dos três anos em diante, morei a vida inteira na Zona Norte do Rio de Janeiro, em Parque Anchieta, que é um bairro pequeno, que faz divisa com Nilópolis, na Baixada. Minha mãe, hoje aposentada, fez até o terceiro período da faculdade de Ciências Contábeis e não conseguiu terminar. Meu pai terminou o Ensino Médio já mais velho, mas meu pai trabalhou de tudo (rsrsrs). Foi bancário, garçom, atendente de telemarketing, trabalhou em posto de gasolina. Foi do Sindicato dos Bancários e do Sindicato dos Petroleiros (esse até hoje filiado). Minhas avós eram analfabetas funcionais, minha irmã também fez faculdade e um MBA. Mas eu sou a primeira mulher da família a chegar a um doutorado.
Sempre gostei de pesquisa e de ler. Quando criança, cheguei a ler os 24 volumes da Enciclopédia Larousse Cultural de que meu pai fazia coleção. Achava interessantes os verbetes. Aos 13 anos já tinha lido de Shakespeare a Paulo Coelho (rsrsrs). Gostava das crônicas de Stanislaw Ponte Preta, achei um livro de crônicas embaixo do balcão do bar que minha avó alugava, peguei para ler e tomei gosto. O primeiro livro que comprei sozinha foi Noite na Taverna, do Álvares de Azevedo. Comprei numa lojinha de “Tudo por R$1,20” em São João de Meriti, numa visita à minha avó materna. Desde os meus 8 anos de idade, eu dizia para a minha mãe que iria fazer História e trabalhar em um museu. Eu pensava em trabalhar com múmias no Museu do Cairo, graças ao meu gosto pelo cinema e à quantidade de filmes de terror com múmias que eu gostava de ver (rsrsrs). Acho que também queria ser meio Indiana Jones, sabe?
CRIATIVOS - De onde veio essa paixão que levou à busca do reconhecimento e valorização dos nossos povos originários?
BIANCA FRANÇA - Bom, é preciso lembrar que eu só fui ter contato de fato com povos indígenas na faculdade. E isso se dá somente porque participei de um projeto de Extensão na Unirio, coordenado pela professora Drª. Márcia Chuva, e que tinha participação dos técnicos e do curador do Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional, na época, professor João Pacheco. Esse projeto era chamado “Conhecendo as coleções Ticuna do Museu Nacional”, e ele aconteceu durante todo o ano de 2013. Fomos eu e mais dois colegas de turma para o projeto, mas somente eu quis continuar depois, e aí fiz iniciação científica, sob orientação do professor João Pacheco de Oliveira; fui auxiliar de pesquisa durante o mestrado; continuo até hoje no Museu, na qualidade de pesquisadora pós-doutoral do Programa Institucional de Pós-doutorado do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. Inclusive, sou bolsista da FAPERJ. Ou seja, minha pesquisa é financiada pela FAPERJ (graças a Deus, rsrsrs).
Hoje, nas faculdades, a história e cultura indígena estão nos currículos e discussões, o que é uma conquista do Movimento indígena, mas é importante lembrar que há dez anos atrás, mesmo com a Lei 11.645/2008, não havia obrigação de abordar cultura indígena no currículo universitário. Aliás, a lei obriga a abordagem na educação básica, no ensino fundamental e médio. Mas nada fala sobre ensino superior. Na trajetória conheci outras pessoas indígenas, como o professor Tonico Benites, dos Guarani Kaiowá; a Glicéria Tupinambá; o Bartolomeu Pankararu; dentre muitos outros. Já tive o prazer de publicar com amigos indígenas artigos, e-books, biografias.
CRIATIVOS - Na sua opinião, o país tem ações ou políticas públicas à altura do que representam nossos indígenas?
BIANCA FRANÇA - Não temos plenamente, nunca houve antes e só teremos algo de fato no dia em que houver representação indígena em todas as esferas públicas possíveis, como forma de reparar os danos seculares causados pela colonização e pelo contato forçado. Estamos caminhando para isso? Eu quero muito acreditar que sim, afinal, temos pela primeira vez na história da Humanidade (porque não existe registro de nada parecido em lugar nenhum anteriormente) um ministério inteiro para indígenas, feito para e por indígenas, e isso é ótimo. Temos a FUNAI na administração de indígenas, o que também é ótimo. Temos leis que obrigam a tratar da cultura indígena em sala de aula (11.645/2008); agora, nesse mês de maio foi aprovada a criação da primeira Universidade Indígena no país, que deverá ser construída em Brasília. Temos indígenas na política. Tudo isso é fantástico. Existem problemas? Muitos! Todas essas ações atendem plenamente aos interesses e necessidades dos 391 povos indígenas do Brasil? Não! Mas o que temos agora ainda é melhor do que as políticas assimilacionistas e genocidas que foram construídas para os povos indígenas em cinco séculos de contato.
CRIATIVOS - É óbvio que a antropóloga Berta Ribeiro, é uma referência para você. Quem foi essa estudiosa e qual sua importância para a antropologia nacional, entre outras coisas?
BIANCA FRANÇA - Berta Gleizer Ribeiro, romena de nascimento, foi uma antropóloga, historiadora e geógrafa de formação, museóloga, pesquisadora, professora, escritora, produtora audiovisual e militante da causa indígena. De origem judaica, naturalizada brasileira, Berta dedicou sua vida e obra a estudar a cultura material, a arte visual e a tecnologia dos povos indígenas brasileiros.
Berta Ribeiro tem grande contribuição para a antropologia brasileira porque uniu pesquisa acadêmica, defesa dos povos indígenas, documentação cultural e divulgação científica de uma forma muito rara no Brasil do século XX. Ela possuía uma relação de colaboração com os povos indígenas, que não eram apenas informantes, mas colaboradores, coautores de suas pesquisas. Sua atuação ajudou a consolidar áreas fundamentais da antropologia indígena e da etnologia brasileira.
É importante lembrar de sua contribuição intelectual com Darcy Ribeiro. Embora muitas vezes lembrada ao lado de Darcy Ribeiro, ou à sombra dele, Berta contribuiu com a obra de Darcy pesquisando, organizando seus escritos, datilografando, fazendo traduções e trabalho editorial para o marido. Foi sua principal interlocutora antropológica nos 25 anos em que foram casados e depois do divórcio também.
CRIATIVOS - Logo sai o livro sobre Berta Ribeiro. Mas você também já fez um documentário sobre ela que foi premiado no exterior e pelas suas mãos, a antropóloga virou enredo em desfile de Escola de Samba. Fale dessas coisas.
BIANA FRANÇA - O documentário “Para Berta, com amor”, de 2023, é um média-metragem de 48 minutos, que está disponível no Youtube. Ele foi produzido a partir das entrevistas gravadas para a minha tese de doutorado, entrevistas essas que foram feitas com amigos, colegas de trabalho e ex-alunos da Berta. Essas entrevistas foram feitas por Zoom, durante a pandemia de Covid 19. Somente duas entrevistas, a da Maria Stella Amorim e do Cacique Carlos Tukano não foram por Zoom, porque foram gravadas em momentos em que já havia vacinação para o Covid e os casos estavam diminuindo. Ou seja, além de documentar sobre a vida de Berta, o filme documenta um período duro para a produção de pesquisas e de audiovisual.
A ideia era que o documentário fosse uma espécie de carta aberta dos amigos para homenageá-la perto de seu centenário em 2024, por isso o título “Para Berta, com amor”.
Através do documentário, da tese e dos eventos de homenagem para a Berta, eu fui parar na Série Prata do Carnaval carioca, levando para a avenida Intendente Magalhães o enredo da G.R.E.S. Tubarão de Mesquita “Berta Ribeiro: Da Praça Onze ao Coração da Floresta”. A escola entrou em contato comigo devido à indicação da equipe do Museu Casa Darcy Ribeiro, em Maricá, no Rio de Janeiro. Eles queriam homenagear Berta no carnaval em 2026, e me convidaram para escrever o enredo. Aceitei o desafio. Nunca tinha participado ativamente do carnaval, mas vivi todas as etapas: escrevi enredo, colei fantasia, trabalhei no barracão, varri chão de quadra, fui à todos os ensaios, maquiei as baianas, e desfilei, à convite do Presidente Paulo Sérgio, como Berta Ribeiro, no último carro, ‘Amazônia Urgente’ em alusão à exposição/livro que ela fez na década de 1990. Desfilei com uma réplica carnavalesca, cheia de brilhos e lantejoulas, do vestido da icônica foto dela entre os Kadiwéu em 1948.
Falar da Berta Ribeiro é falar de muitos aspectos do povo brasileiro: é falar da imigração judaica, da memória da Comunidade Judaica da Praça Onze, no Rio de Janeiro; é falar da participação feminina na construção das Ciências Sociais na América Latina, e honrar não só os povos indígenas brasileiros, mas também os homens e mulheres que se dedicaram a lutar pelos direitos desses povos.
CRIATIVOS - Quem escreve também lê. Você tem autores de cabeceira, fora livros técnicos ou de estudos?
BIANCA FRANÇA - Por incrível que pareça, eu não tenho autores de cabeceira (rsrsrs). Mas o que eu mais gosto de ler, desde muito novinha, é Machado de Assis. Eu adoro! Sempre gostei da forma dele escrever, porque você se envolve na escrita dele. Parece novela, né? (rsrsrs). Eu até hoje brigo defendendo a Capitu! Outro conto dele que me deixa completamente imersa é “O Alienista”. Aquilo ali é brilhante! Antes de Foucault ele já estava falando sobre a medicalização da vida! Gosto de crônicas também... Guimarães Rosa, o Stanislav Ponte Preta. Gosto de literatura russa! Amo “Crime e Castigo”! Na poesia eu vou nos clichês: Neruda, porque eu gosto dos poemas romântico dele. Gosto do Carlos Drummond de Andrade, porque acho lindo o jeito que ele descreve a vida cotidiana nos poemas. E eu gosto de uma poetisa americana chamada Amy Lowell, ela tem um poema chamado “Taxi” que eu gosto muito.
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