top of page
criativos 2022.png

O que é “ser brasileiro”?

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Ser brasileiro não é um traço fixo, nem uma essência imutável. É uma experiência em movimento. Um modo de habitar contradições sem nunca resolvê-las por completo.


É viver entre a esperança e a frustração. Entre o riso fácil e a indignação recorrente. Entre a capacidade admirável de adaptação e a tendência perigosa à acomodação. O brasileiro aprende cedo a improvisar — não apenas por criatividade, mas por necessidade. A improvisação vira virtude, mas também armadilha: resolve o agora e adia o estrutural.


Ser brasileiro é carregar uma identidade plural, muitas vezes fragmentada. Somos resultado de encontros forçados e encontros férteis: povos originários, africanos escravizados, europeus deslocados, imigrantes de todos os cantos. Essa mistura não produziu apenas diversidade cultural — produziu ambiguidades profundas sobre pertencimento, desigualdade e reconhecimento.


É falar de alegria em um país marcado por ausências. Celebrar enquanto muitos faltam. Cantar enquanto outros calam. A cultura brasileira é exuberante, mas frequentemente funciona como anestesia coletiva: transforma dor em festa, indignação em ironia, revolta em meme. Isso não é trivial nem superficial — é um mecanismo de sobrevivência. Mas não pode ser o único.


Ser brasileiro é conviver com a desigualdade como paisagem. Não como exceção, mas como normalidade. É saber que o país é rico — e aceitar, às vezes com resignação excessiva, que essa riqueza não se converte em justiça. É indignar-se, mas também esquecer rápido. Protestar hoje e adaptar-se amanhã.


É desconfiar das instituições e, ao mesmo tempo, personalizar a política. Esperar salvadores enquanto se desconfia do sistema. Oscilar entre o cinismo e a fé. Entre o “não vai dar em nada” e o “agora vai”.


Mas ser brasileiro também é uma capacidade rara de convivência. De escuta informal. De contato humano direto. É saber rir de si mesmo — quando isso não vira autoindulgência. É criar laços onde o Estado falha. É transformar precariedade em solidariedade concreta.


Talvez ser brasileiro seja justamente isso: viver em permanente tensão entre potência e desperdício. Entre o país que poderia ser e o país que insiste em não se tornar. Entre a memória curta e a criatividade longa.


Não é uma identidade pronta.

É uma pergunta aberta.

E, talvez, uma responsabilidade ainda não assumida por inteiro.



Bio

David Gertner, Ph.D., é escritor e professor aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, viveu por mais de três décadas nos Estados Unidos, onde construiu carreira acadêmica. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e dedica-se hoje à escrita de ensaios e livros sobre identidade, memória, ética, silêncio, tempo e a condição humana.



Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade





Escute essa playlist com músicas que falam do Rio de Janeiro, na Spotify / Cedro Rosa




1 comentário


Sonali Maria
Sonali Maria
há 5 horas

Concordo muito. Fico ha muito me perguntando se sou brasileira contemporanea. Acho que a busca dos Modernistas se perdeu, como a seriedade e tambem a serenidade e melancolia do olhar de Prestes. Patriota nao sou mais. E tambem estah claro pra mim, para meu grande alivio, que nao sou, nunca fui e nem quero ser carioca muito embora viva no Rio ha um bom tempo. " No samba há um bocado de tristeza", alerta Vinicius de Morais no Samba da Bençao. Essa tristeza que nao se assume no Brasil, a indignacao que aparece e se dilui em incontaveis memes.


Curtir

+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page