Os amigos que a vida nos dá

Entre despedidas, distâncias e reencontros, algumas amizades permanecem como presentes que o tempo não consegue levar.
Por David Gertner, Ph.D.
A vida é feita de encontros, mas também de passagens. Pessoas chegam em diferentes momentos, caminham conosco por algum tempo e, de uma forma ou de outra, participam daquilo que nos tornamos. Algumas partem para sempre, deixando uma ausência que o tempo não apaga.
Outras se afastam porque a vida as conduz por caminhos diferentes. Há relações que se desfazem sem conflito, quando os interesses deixam de se encontrar; e há afastamentos que se tornam necessários para proteger a paz e a saúde. Nem toda despedida é uma ruptura. Às vezes, é apenas o reconhecimento de que já não podemos seguir juntos.
Isso não torna falso o que houve. Uma amizade pode ter sido verdadeira, mesmo que não tenha durado a vida inteira. Há pessoas que pertencem a uma época, a uma conversa, a uma versão de nós que já mudou. Permanecem na memória, não como promessas interrompidas, mas como parte da história que nos trouxe até aqui. Algumas relações cumprem seu tempo sem perder o valor do que ofereceram.
Entre tantas presenças que se tornam lembrança, há amizades que não se deixam converter em passado. Não precisam da proximidade constante nem de provas repetidas. A distância pode interromper os encontros, mas não necessariamente o vínculo. Os anos transformam os lugares, as rotinas e as pessoas; ainda assim, certos laços conservam algo essencial, uma intimidade que não depende de estarmos lado a lado.
Talvez seja esse um dos presentes mais raros da vida: encontrar pessoas que continuam conosco mesmo quando estão longe. Às vezes, basta uma palavra, uma lembrança compartilhada ou uma notícia inesperada para que a amizade volte a se fazer presente. Não como se o tempo não tivesse passado, mas como se ele não tivesse conseguido levar aquilo que nos une.
A amizade que permanece não exige que sejamos os mesmos de antes. Ela acompanha a mudança, reconhece quem nos tornamos e guarda com ternura alguma coisa de quem fomos. Pode passar longos intervalos em silêncio e, ainda assim, conservar a confiança de que o afeto não se mede pela frequência das conversas. Há amigos que não ocupam todos os dias, mas encontram lugar em todos eles.
A vida não nos promete que as pessoas queridas estarão sempre perto. Algumas seguirão outros rumos; outras partirão para sempre. Mas, de vez em quando, oferece amizades que a distância não enfraquece e o tempo não encerra. São presentes que não precisam estar diante dos olhos para continuarem fazendo parte de nós.
A distância mede o caminho entre dois lugares; não mede o espaço entre duas vidas.
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com
Estou ouvindo a playlist Natureza e meio ambiente.
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