Palavrão na telona só em inglês*
- Lais Amaral Jr

- há 1 dia
- 3 min de leitura

Desde muito cedo fui seduzido por imagens mentalmente instigadas. Influência do rádio, certamente. ‘As Estórias do Tio Janjão’ foram, a minha cachaça precoce. Influência também dos discos de histórias que meu pai nos deu e das sessões de leitura de livros infantis, que minha mãe boca-suja nos proporcionava com certa assiduidade.
Sem contar o quanto eram instigantes também, as expressões chulas desferidas por ela em razoável quantidade, quase que cotidianamente. Essas expressões sugeriam imagens geralmente bizarras e de difícil compreensão. Mas sempre estimulantes.
Desde cedo também fui seduzido pela magia do cinema. Um gosto que tinha raízes familiares. Meu avô, vocês já sabem, foi lanterninha do tal Cine Verde, em cuja bomboniere trabalhara meu tio Armindo. E como disse lá atrás, meu pai tinha uma especial atração pela sétima arte, lembram? Por uma dessas coincidências, ou não, um tio do meu pai veio a ser sócio do mesmo Cine Verde. Por tudo isso, acabei agraciado durante um bom tempo, com uma carteirinha que me franqueava a entrada. Cortesia desse meu tio em segundo grau.
Minha mãe também adorava cinema. Foram muitas as matinês que eu e minha irmã frequentamos com ela. Filmes que geralmente não nos diziam nada, mas confesso que uma de minhas primeiras paixões platônicas, nasceu na telona. Foi Celi Campelo, cantora que fazia sucesso com versões do emergente Rock and Roll. Recordo agora com graça, do ciúme e da raiva que nutria contra os personagens marmanjos que contracenavam com a cantora na trama. Tramas ingênuas certamente, mas que minha mãe curtia muito.
Naqueles tempos ouvia dos mais velhos - de minha mãe nem tanto - que filme nacional não prestava porque “só tem palavrão”. Cresci ouvindo isso, mas confesso que nunca levei muito a sério. Minha mãe mesmo era fã de carteirinha da Dercy Gonçalves, que então impressionava com suas pornográficas expressões faciais e seus palavrões implícitos, insinuados. Mais tarde fui estudar inglês e pude identificar nos filmes americanos um mar de palavrões. Como aquela minha gente era colonizada!
Se eles conhecessem o significado de motherfucker, fuckyou e congêneres, não teriam uma visão tão discriminatória do cinema nacional. Ou se conhecessem certa matéria da Variety, ficariam decepcionados. Segundo a revista, no filme Goodfellas, aqui chamado de ‘Os bons Companheiros’, foram contabilizados 300 palavrões.
Em outro filme, ‘Cassino’, de Martin Scorsese, os palavrões apareceram 422 vezes. O diretor Spike Lee entra na estatística com 435 referências de fucks e motherfuckers de seu ‘Summer of Sam’. Mas o recordista é do mesmo Scorsese, ‘O Lobo de Wall Street’. Os impropérios se alternaram 506 vezes em três horas de película. Taí o Google, novamente, que não me deixa mentir.
Minha mãe, mesmo não entendendo inglês, tinha lá sua percepção e não era de discriminar filmes nacionais por causa de palavrões. Até porque, se dominasse a língua de Shakespeare, aplaudiria todos os motherfucker gritados pelos personagens que meus tios consideravam pudicos e bem comportados. Mesmo quando em alguns casos esses personagens eram os bandidos da fita.
Minha mãe, menos preconceituosa com relação ao cinema nacional, nos apresentou, a mim e à minha irmã, às chanchadas da Atlântida, aos filmes carnavalescos, a Oscarito, a Grande Othelo e outros. Viva minha mãe boca-suja. E viva o cinema nacional.
* Do meu livro Os Tomates do Padre Inácio – Memórias domésticas do palavrão – All Print Editora - 2023
Estou ouvindo SINA DE PASSARINHO, de Evandro Lima e Lais Amaral Jr. Repertório ®CertCon, disponível para gravações na Cedro Rosa.
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