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Sessenta anos depois

José Luiz Alquéres, engenheiro e Vice-presidente do IHGB.
José Luiz Alquéres, engenheiro e Vice-presidente do IHGB.

 

A explosão do consumo de livros no século XIX deveu-se, em grande parte, à popularização das novelas em folhetins. Eram publicações, geralmente semanais, que reuniam artigos e capítulos sucessivos de romances, históricos ou ficcionais, mantendo os leitores na expectativa pela edição seguinte.

 

Na França, esse gênero alcançou extraordinário sucesso. Autores como Alexandre Dumas e Victor Hugo transformaram o folhetim em uma forma de arte e em um fenômeno editorial. Dumas, em especial, organizava um verdadeiro ateliê literário: concebia o enredo, discutia personagens com colaboradores que redigiam versões preliminares dos capítulos e, ao final, imprimia-lhes unidade de estilo, refinando sobretudo os diálogos, que até hoje revelam, com admirável fidelidade, a linguagem e os costumes de seu tempo.

 

Entre essas obras, poucas alcançaram a dimensão de Os Três Mosqueteiros, cuja popularidade atravessou gerações e inspirou inúmeras adaptações para o cinema. O sucesso foi tamanho que deu origem às continuações Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelonne. O mesmo ocorreu com A Rainha Margot, seguida por A Dama de Monsoreau e Os Quarenta e Cinco. São romances que, além de fascinarem pela narrativa, oferecem um retrato vivo da França dos Valois, de Catarina de Médici, de Henrique IV e, mais tarde, dos reinados de Luís XIII e Luís XIV.

 

Foi justamente o título Vinte Anos Depois que inspirou esta crônica. Chamei-a Sessenta Anos Depois, como se fosse mais um capítulo do longo folhetim da vida da turma da EPUC 66.

 

Há poucos dias voltamos a nos reunir. Desta vez, para um almoço. A idade já não recomenda aventuras noturnas, especialmente no Rio de Janeiro. Preferimos a luz do dia, as conversas demoradas e a oportunidade de celebrar aquilo que o tempo, curiosamente, fortaleceu: a amizade.

 

Faço parte dessa turma. Éramos mais de cento e cinquenta jovens quando atravessamos pela primeira vez os portões da PUC-Rio. Nos dois primeiros anos fomos distribuídos, por ordem alfabética, em três grandes salas. Foi ali que nos conhecemos.

 

Vínhamos de bairros diferentes, de famílias com histórias distintas, de diferentes níveis de renda, tradições culturais, religiões e origens. Éramos diversos em quase tudo, mas unidos por um mesmo projeto: dali a cinco anos sairíamos engenheiros. Naquele tempo, ser engenheiro significava participar da construção de um país que acreditava no futuro.

 

Havíamos sido aprovados no vestibular em 1961 e iniciamos o curso em 1962. Brasília ainda era uma novidade. No então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda promovia uma profunda transformação urbana e administrativa. Obras como o Aterro do Flamengo e o Sistema Guandu simbolizavam aquele momento, ao lado da modernização da administração pública por meio de instituições como a CEDAE, a SURSAN, a COMLURB reformulada, a RIOLUZ e tantas outras.

 

Aquele período acabaria se tornando o prólogo de um ciclo desenvolvimentista que marcaria as décadas seguintes. Grandes empresas estatais, criadas para expandir a infraestrutura de energia elétrica, telecomunicações, petróleo, siderurgia, transportes e portos, abriram oportunidades profissionais inéditas para nossa geração.

 

Os integrantes da EEPUC 66 espalharam-se pelo Brasil. Uns seguiram para empresas públicas; outros, para fabricantes de equipamentos, empreiteiras, consultorias e fornecedores da grande engenharia nacional. Enquanto nossas carreiras se desenvolviam, o país também se expandia.

 

Brasília consolidava-se como centro de atração populacional. O Centro-Oeste transformava-se em nova fronteira agrícola. Uma agricultura moderna substituía antigos modelos excessivamente dependentes de subsídios, impulsionada pelo crédito do BNDES e pelos financiamentos dos organismos multilaterais.

 

Durante os primeiros vinte ou trinta anos de nossa vida profissional, respiramos um ambiente de confiança. Parecia natural acreditar que o Brasil deixaria para trás, definitivamente, o rótulo de país subdesenvolvido. Não por acaso, passou-se a falar em “país em desenvolvimento”, expressão que traduzia muito mais uma esperança do que uma classificação econômica.

 

Essa trajetória, porém, sofreu uma inflexão após o segundo choque do petróleo. O forte endividamento externo e a enorme dependência brasileira das importações de petróleo interromperam aquele ciclo virtuoso. Vieram os anos difíceis do final da década de 1980 e do início dos anos 1990.

 

Mais tarde, novos investimentos em infraestrutura e o processo de redemocratização devolveram ao país parte do dinamismo e do otimismo perdidos. Parecia que uma nova etapa de crescimento estava prestes a começar.

 

Com o passar do tempo, entretanto, as prioridades das políticas públicas deslocaram-se para um modelo mais distributivo. Eram iniciativas indispensáveis para reduzir desigualdades sociais, mas que acabaram convivendo com menor estímulo às atividades diretamente produtoras de riqueza.


A indústria brasileira perdeu competitividade diante da abertura dos mercados e da concorrência internacional, especialmente da Ásia, enquanto o país reforçava suas vantagens na agricultura e na exploração de recursos minerais.

 

Nossa turma viveu todas essas fases. Compartilhamos o entusiasmo, as frustrações e as expectativas de um Brasil que, em muitos momentos, pareceu estar prestes a realizar plenamente seu potencial.

 

Quando nos formamos, imaginávamos que, ao chegar aos setenta ou oitenta anos, encontraríamos um país definitivamente integrado ao grupo das grandes nações desenvolvidas. A história seguiu outro ritmo. As mudanças tecnológicas — que hoje impulsionam praticamente todas as demais transformações — avançaram numa velocidade superior à nossa capacidade coletiva de adaptação.

 

Mesmo assim, o reencontro da semana passada deixou uma impressão diferente. Já não éramos cento e cinquenta. Reuníamo-nos cerca de cinquenta colegas, acompanhados por aproximadamente trinta esposas. Curiosamente, nossas conversas já não giravam em torno das próprias carreiras, mas da trajetória de filhos e netos.

 

Eles começam a ocupar espaços que sequer existiam quando recebemos nossos diplomas. Além das profissões tradicionais, destacam-se nas tecnologias da informação, na inteligência artificial, na biotecnologia, na ciência de dados, nas comunicações e em tantas outras áreas que definem o mundo contemporâneo.

 

Percebemos, então, que a esperança apenas mudou de geração. Talvez não sejamos mais aqueles que assistirão às maiores transformações do Brasil. Mas temos a alegria de ver nossos filhos e netos preparados para construir aquilo que sonhávamos quando éramos jovens estudantes.

 

Também é justo reconhecer o quanto o país mudou. Quando nos formamos, o Brasil possuía cerca de três mil megawatts de capacidade instalada de geração elétrica e pouco mais de dois milhões de linhas telefônicas. Hoje dispõe de aproximadamente duzentos e cinquenta mil megawatts, possui mais telefones do que habitantes, conta com mais de um boi e meio por brasileiro e produz mais de duas toneladas de grãos por habitante.

 

Não é o país que imaginávamos. Mas tampouco é o país que deixamos para trás.Sessenta anos depois, podemos dizer que travamos o bom combate. Conservamos nossos princípios, preservamos nossas amizades e mantivemos vivo o respeito pelos companheiros de jornada e por suas famílias, especialmente pelas esposas, parceiras silenciosas dessa longa caminhada, que ajudaram a transmitir às novas gerações os valores da educação, do trabalho e da esperança.

 

O folhetim da EPUC 66 continuará a ser escrito. Cada vez menos por seus personagens originais, mas cada vez mais pela lembrança de uma geração que teve o privilégio de participar de uma das grandes fases da construção do Brasil moderno e de entregar esse legado àqueles que agora escreverão os próximos capítulos

Estou ouvindo MEU SARAVÁ, com Clarice Magalhães. Um hino de amor ao Rio de Janeiro.

Música de Tuninho Galante e Marceu Vieira. Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e download na Cedro Rosa.


 

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