POR ONDE ANDA A PAZ?
- Aercio Barbosa de Oliveira

- há 13 minutos
- 4 min de leitura

Faz tempo que desejava registrar ideias a respeito da guerra. Uma questão modorrenta que ocupava minha cabeça desde quando li a troca de cartas entre Freud e Einstein. Ao ler o texto de Jorge Cardozo, “Pirro, Roma e os dois Satãs”, na página eletrônica da Criativos, essa questão despertou.
No texto, Jorge trata da sanha do atual presidente dos E.U.A., que utiliza I.A., bombas, retóricas e plataformas digitais para ampliar a área de influência do seu país, fazer negócios para si, para os seus, agora e no futuro. Jorge aproveita a batalha do rei Pirro de Épiro contra os romanos (Pirro obteve uma vitória que não foi digna de júbilo) para estabelecer um paralelo com o que acontece no Golfo Pérsico. Ali, se o “rei” do país sem nome, um ajuntamento de 50 estados, ganhar, terá uma vitória pírrica.
Seguindo a senda de Jorge Cardozo, não quero tratar dos efeitos da guerra na geopolítica, nem do seu impacto no custo de vida em nossa economia, muito menos do quanto pode favorecer ou desfavorecer candidaturas na disputa eleitoral de 2026 no Brasil. Opto por tratar da seguinte questão: é possível um mundo sem guerra?
A bem da verdade (algo tão deflacionado neste século!), as cartas entre as duas autoridades de áreas do conhecimento distintas, Einstein e Freud — este procurava desvendar os mistérios da mente humana e aquele, os mistérios do universo — posicionavam-se a partir da pergunta feita pela Liga das Nações, em 1931: “Por que a guerra?”.
É comum abordarmos essa questão identificando justificativas para atos tão violentos que transcendem o tempo. A violência aparece quando grupos sociais desejam obter fontes vitais para a sua existência (uma fonte de água, uma terra mais adequada para determinado cultivo, o acesso a bens úteis para se proteger das forças incontroláveis da natureza etc.). Essa é uma explicação bastante racional, e quem se animar a encarar o calhamaço “Da Guerra”, de Carl von Clausewitz, produzido e publicado no início do século XIX, verá que essa racionalidade é só uma parte da história.
E é a dimensão não racional que Sigmund Freud passa a investigar. Ao olhar para a história humana e impactado pelos efeitos da carnificina que foi a 1ª Guerra Mundial, Freud escreve o texto “O mal-estar na civilização”, um texto que gerou controvérsias dentro do círculo psicanalítico. Muitos de seus pares acharam o texto demasiadamente especulativo. Era mais uma teoria que ajudaria a soprar vento nas velas daqueles que propagandeavam que a psicanálise não era ciência, que não passava de charlatanismo.
As controvérsias e desconfianças não inibiram Freud. “O mal-estar...” está entre os relevantes textos de psicologia social, em que a ideia central é a de que cada exemplar da nossa espécie carrega dentro de si o instinto de autopreservação e o de destruição. Este só não é maior por causa dos feitos da cultura. Entretanto, segundo Freud, nosso poder destrutivo nunca consegue ser contido de maneira absoluta. A dialética de Eros e Tânatos (nosso leitor da alma humana, sempre que possível, recorria à mitologia greco-romana) é o nosso combustível. E o que é talvez mais desalentador: há uma interdependência entre esses dois instintos.
A carta em resposta a Albert Einstein carrega, em formato sintético, as ideias do texto publicado em 1930. Ressalta-se a coexistência desses dois instintos — o que busca unir e o que procura destruir. Ele recorre à vida biológica, ao evolucionismo, em que vida e morte são faces da mesma moeda. Na carta, ao mesmo tempo que duvida da possibilidade de abolir as tendências agressivas do ser humano, como um pacifista, espera que o trabalho da cultura possa “desviar a nossa agressividade a ponto de não ter de se manifestar na guerra”.
Infelizmente, vivemos num tempo que joga contra a possibilidade de se estabelecerem culturas que desloquem o nosso instinto destrutivo. É fato que nunca tivemos um mundo sem guerra, sem algum tipo de violência física. O século XIX, por exemplo, antes da 1ª Grande Guerra, foi extremamente violento. Basta dar atenção ao que alguns países da Europa fizeram nos continentes africano e asiático. Mesmo nos chamados “anos gloriosos”, após a 2ª Guerra Mundial, poucos se beneficiaram da Pax Americana. Extensas populações dos países do Sul Global que o digam. No entanto, a realidade parece criar uma inversão que, ao menos em tese, estava engavetada desde a “Paz de Vestfália”, em 1648: a violência ganha mais valor do que a mansidão.
Há um estímulo à cultura da violência.
O cheiro da belicosidade parece exalar em cada esquina: nas redes sociais, nas novas tecnologias (a Inteligência Artificial tem sido determinante para a guerra que se desenrola no Golfo Pérsico). Não é à toa que influenciadores e coaches de sucesso usam como referência, para um comportamento que leve ao “topo da pirâmide” social, o mundo animal. “Todo mundo tem uma fera dentro de si. Todo mundo pode se tornar um leão.”
Gosto dessa troca epistolar entre Freud e Einstein. Ela me mantém atento à ideia de que a guerra não é motivada somente por cálculos econômicos e políticos, por medidas racionais, organizadas e desenvolvidas numa “sala de situação”. Há algo mais nessa história que Freud pode não ter explicado satisfatoriamente, mas sua “conjectura” continua a nos rondar, a nos assombrar.
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