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Uma sexta-feira em 2050 (*)

Lais Amaral Jr
Lais Amaral Jr

 

O despertador sensorial subcutâneo me acorda às 8 horas. Pelo comando de voz, programo a ducha: água morna, sabão líquido, loção, água fria. Não gelada. Aciono o ar quente do secador corporal. Pronto. Visto a roupa e calço meu tênis novo, cor âmbar, que acabara de imprimir na minha super 3-D.


Na copa mastigo algumas cápsulas de neomorning com um copo de suco orgânico de pera. A geladeira avisa que encomendou leite, queijo natural e frutas pela Internet. Pego dois tabletes de café e sigo para o meu box. Entro. Logo estou na minha sala de trabalho no alto do edifício. A mesa-agenda acende com as tarefas do dia. Confirmo uma recomendação de monitoramento para a produção de vídeos. 


Em seguida, já sentado, acesso o monitor do meu wall computer, brinquedinho de nove metros quadrados de led ultra vitro, 2 zettabytes e em 3D. Além da tela principal, há cinco janelas laterais sobrepostas, à direita, que me conectam a empresa e ao mundo exterior. Mesmo sendo um modelo ultrapassado, é dos mais práticos e bem acabados do mercado. Em uma das janelas, rola o documentário padrão em exibição circular, mostrando a história recente do mundo nos últimos dez anos. Com um piscar de olhos faço a transferência para a tela principal. Gosto de rever a produção independente elaborada pela Inteligência Artificial. Não tem contaminação humana nas edições. Começa o filme:

 

Admirável mundo novo

O documentário se inicia e é como se estivéssemos à janela de uma aeronave se aproximando da Terra. Os continentes vão ganhando corpo, os contornos ficam mais nítidos. Então, atravessamos as nuvens, estamos próximos e... surgem, majestosas, as muralhas da China. A imagem começa a percorrer campos plantados e uma voz masculina, grave, inicia o texto em off. O fundo musical é uma melodia instrumental. Também deve ter sido composta pela Inteligência Artificial. Uma fragrância amadeirada se espalha no ar. É agradável.

 

Locutor em off:    

      “O Oriente se sobrepôs ao Ocidente que se enfraquecera vitimado por suas próprias e gananciosas ações. Mas, independentemente de todas as circunstâncias favoráveis, os chineses chegaram a descobertas científicas que fizeram a diferença. A mais impactante, e certamente a maior de todas as descobertas da humanidade, foi o domínio das viagens interdimensionais. Isso foi determinante para que os orientais chegassem ao topo do mundo. O domínio tecnológico supremo que coincidiu com a comprovação da teoria do tempo plano e infinito e que, realmente, as versões humanas se replicam em outras dimensões. Existem cópias nossas perfeitas, vivendo vidas diferentes em outras dimensões. É o multiverso”.


      O documentário mostra que os CAWs (Cleaning Agents Worldwides) com suas armas phasers, que não são mais peças de filmes de ficção científica, viajaram pelas dimensões desintegrando pessoas estrategicamente importantes das potências do Ocidente, em uma verdadeira guerra silenciosa. Uma guerra sem sangue, que mudou os rumos da humanidade. O que teria sido classificado em outras épocas como um genocídio, algo inaceitável, era encarado agora apenas como estratégico. E foi, pois minou toda a estrutura de comando militar e econômico do Ocidente. Todas as grandes nações que ainda não estavam alinhadas com o Consórcio Eurasiano ficaram acéfalas. Líderes de organizações mundiais poderosas e responsáveis por alianças e tratados de mútua defesa, líderes de blocos econômicos e militares, lideranças políticas, empresariais, religiosas, a cúpula do Pentágono, todo o Estado Maior e as esferas de inteligência, todas elas foram dizimadas e em muito pouco tempo. Centenas de milhares de pessoas. E não havia corpos como provas de crimes. Sem corpos, sem crimes. Não haveria mais guerras. Soldados e população civil não seriam mais vítimas de conflitos com fins meramente comerciais e imperialistas.   

    

Foi como se jogassem um poderoso inseticida num cômodo repleto de baratas. Um caos de ninguém se entender. E as pessoas simplesmente foram desaparecendo. O presidente da então nação mais poderosa do Ocidente, como se costumava dizer, desaparecera diante dos olhos da população que assistia seu pronunciamento à nação, transmitido ao vivo pelas redes sociais e de televisão. O homem simplesmente sumiu. Seu terno escuro esvaziou-se e caiu sobre os sapatos. Imaginem o pânico que se abateu sobre o país. E não adiantou nada o corre-corre de centenas de agentes de segurança, FBI, CIA e outros órgãos, saírem à caça de neo-terroristas, de bioterroristas, de tecno-terroristas ou de cyber-terroristas. Não encontraram nada. Nenhum vestígio. Seu clone, em outra dimensão, fora identificado e alvejado por um CAW e, automaticamente, transportado para outro universo. Como seu clone, o original também mudou de universo. O presidente teve o mesmo destino de tantos outros figurões.

 

(*) Trecho da novela ‘Crônica da Meia Noite

Editora Garcia - 2019


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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