Releituras ou descaracterizações?
- José Luiz Alquéres

- há 11 minutos
- 3 min de leitura

"Traduttore, traditore". Traduzir uma obra literária já encerra, por maiores que sejam os esforços e a competência do tradutor, um inevitável ato de traição às sensibilidades do autor. Adaptar para o cinema uma obra literária constitui desafio ainda maior, sobretudo quando se trata de um dos mais antigos e influentes textos da literatura universal e, ao mesmo tempo, de uma de suas maiores realizações.
Há um destino triste reservado a muitas releituras de obras clássicas, sejam elas sob a forma de textos em prosa, poesias, audiovisuais ou películas cinematográficas. Quando artistas, por mais talentosos que sejam, decidem reinterpretar obras consagradas à luz dos valores, condicionantes e circunstâncias de sua própria época, precisam agir com extremo cuidado. A atualização de um clássico é um exercício legítimo da criação artística, mas não pode servir de pretexto para descaracterizar a essência da obra original.
Um exemplo bem-sucedido é Ulisses, de James Joyce. Embora inspirado na Odisseia, de Homero, o romance não pretende substituir nem reescrever o poema épico. Joyce criou uma obra profundamente original, que dialoga com o clássico sem lhe retirar a identidade. Por isso, conquistou reconhecimento universal e ocupa um lugar próprio na história da literatura.
O mesmo nem sempre ocorre com determinadas adaptações contemporâneas do cinema. Algumas delas procuram reinterpretar personagens e acontecimentos de tal maneira que acabam rompendo com os fundamentos que fizeram dessas narrativas obras universais. A intenção de aproximá-las da sensibilidade atual pode resultar justamente no efeito contrário: em vez de homenagear o original, produz-se uma versão que parece explorar apenas sua notoriedade.
Na Odisseia, a jornada de Ulisses é marcada pelo desejo incessante de retornar ao lar. As dificuldades, os perigos e as tentações que encontra pelo caminho apenas reforçam sua determinação em reencontrar Ítaca, sua família e seu destino. É essa trajetória que confere ao personagem sua grandeza humana e literária, à luz dos valores de uma civilização remota, anterior ao cristianismo e também às interpretações psicológicas modernas.
Toda releitura é bem-vinda quando acrescenta novas perspectivas sem destruir a identidade da obra que lhe deu origem. Quando, porém, a adaptação altera a essência dos personagens ou da narrativa apenas para acomodá-los às conveniências ideológicas ou culturais do presente, deixa de ser uma homenagem e passa a ser apenas uma apropriação indevida de um clássico.
Nietzsche afirmou que o grande objetivo do homem é "tornar-se aquilo que é". Também os personagens clássicos possuem uma identidade própria. Quando a identidade desaparece, resta apenas uma sucessão de personagens que conservam seus nomes, mas já não representam aquilo que os tornou universais.
Na atual versão cinematográfica, Odisseu já não é Odisseu. Helena deixou de ser Helena. Menelau tampouco conserva os traços que o caracterizam, e até Argos, o velho cão cuja fidelidade constitui uma das passagens mais comoventes da literatura universal, parece estranho à narrativa de Homero. Faltam consistência às paisagens, verossimilhança às situações representadas e autenticidade aos personagens.
O resultado é uma Odisseia transformada numa espécie de faroeste pelintra, apesar do enorme investimento em espetaculares recursos visuais, colocados a serviço de um conteúdo artisticamente pobre.
Ato fundante

Leia outros artigos de José Luiz Alquéres no portal CRIATIVOS!
Estou ouvindo a playlist Bossa Nova, outras bossas.
Repertório ®CertCon, disponível para downloads e licenciamento na Cedro Rosa.

CRIATIVOS, Pensar, Fazer! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
Chamada
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.
Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)
Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.
Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com (com o assunto: QUERO RADAR)
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


















Comentários