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PRETENSÃO…

 

Os amigos e parentes já tinham naturalizado, ou “normalizado”, como se diz hoje em dia, as estranhezas do Dico. Ele era exótico, pra dizer o mínimo. Tinha ideias mirabolantes, planos absolutamente espetaculares pra enriquecer, viajar o mundo, falar idiomas orientais, fazer safaris fotográficos no Ártico, na Ásia. Na África, só se sobrasse tempo. Os safaris africanos já eram excessivamente documentados, e ele queria mesmo era novidade. Mas não contava pra quase ninguém. Tinha poucos amigos, família pequena. A grandiosidade do que pensava e planejava pra si guardava uma relação muito desproporcional com a realidade.


Tinha sido aluno medíocre, daqueles que passavam sempre raspando, sem destaque nenhum em qualquer disciplina, mas também apático no relacionamento interpessoal e desinteressante como personagem, exatamente naquela fase da vida em que é preciso ser razoavelmente interessante pra se enturmar fácil. Com esse cabedal, passou pelo ensino fundamental e pelo nível médio sem nem ser notado. Era ainda um daqueles que, nas fotos, todos perguntam quem é ou de quem não se sente falta quando ausente.


Foi na universidade, onde entrou por obra e graça da baixa concorrência para o curso de Ciências Atuariais, que seus devaneios grandiloquentes pareceram efetivamente se manifestar. Nunca entendera, ao certo, o que faria com o curso em que estava matriculado, mas resolveu colocar em prática, do alto de sua imaginação anabolizada, o primeiro de seus grandes planos: escreveria um livro!


Os mais próximos, quando informados do projeto, manifestaram um misto de surpresa e conformismo. Surpresa pela possibilidade, enfim, de que algo saísse do campo das ideias para algum nível de concretude; e conformismo porque, claro, isso provavelmente era apenas mais um plano infalível do Dico, sem possibilidade objetiva de concretização. Aliás, dadas as características do personagem em foco, a possibilidade de não ser nada seria até um alívio. Pra começar, não havia tema sobre o qual o Dico tivesse suficiente domínio para escrever mais de três laudas, acreditavam.


Mas o Dico, com autoestima e confiança surpreendentes, decidiu que escreveria um “Manual de Facilitação da Compreensão do Mundo”, inclusive com esse nome pomposo, que poderia, dizia ele, ser apenas o primeiro de uma série destinada ao sucesso, capaz de simplificar a vida das gerações posteriores.


Contrariando qualquer expectativa razoável, o neoescritor se lançou numa epopeia de produção literária, misturando temas sem afinidade, lembranças e informações absolutamente desnecessárias e fúteis para compor um livro que ele julgava absolutamente fundamental.


Constavam do manual explicações sobre, por exemplo, a evolução. Não custa trazer aqui o fato de que o Dico era um zero à esquerda em biologia. Mas não perdeu a chance de tentar explicar para o mundo que os pássaros sem asas da Nova Zelândia evoluíram assim pela falta de predadores terrestres e se extinguiram quando da chegada do homem. Entre outras informações disponíveis em profundidade maior em publicações especializadas, o Dico, que parecia ter algum tipo de fixação na Oceania, também explicava que a grande quantidade de espécies marsupiais na Austrália se devia ao fato de a evolução não ter se completado depois da separação dos continentes. Enquanto os bichos da África tornaram-se mamíferos bem resolvidos, muitos australianos nascem cedo demais e precisam da bolsa da mãe pra completar, fora do útero, o que os outros fazem lá dentro ainda.


Em um outro capítulo, aparentemente destinado a trivialidades, o autor explicava o funcionamento das torneiras mais simples, coisa que, efetivamente, foge à compreensão de muita gente e, como um guru, explicava a sensação de bem-estar produzida pela luz mais amarela, mais quente, das lâmpadas, em contraste com a luz fria de outras, que tornam os ambientes menos acolhedores e, dizem alguns especialistas, pode levar a problemas de ordem psicológica no caso de exposição prolongada.


No campo das atualidades e ainda da geografia, disse coisas sem nexo sobre a Groenlândia e o Canadá, aparentando mais um desarranjo mental do que propriamente algum alinhamento ideológico estranho, como os temas poderiam supor.


Tentou ainda explicar num capítulo específico sobre a comunicação entre os povos por que o latim gerou essa quantidade de línguas que guardam semelhanças entre si, mas são absolutamente diferentes, o que impede a comunicação instantânea entre elas, apesar da origem comum.

O fato é que, entre trancos e barrancos, tropeços históricos e superficialidades não corrigidas, o livro avançou.


Lembremos, a esta altura, que o Dico era apenas um estudante das empolgantes Ciências Atuariais. Pois foi como estudante que conseguiu um estágio relativamente bem remunerado em um banco digital. O escritório do banco não comportava o staff, de modo que, no recesso de fim de ano da universidade, e tendo que ir ao banco apenas uma vez por semana, o Dico tinha tempo de sobra para escrever seus vaticínios simplificadores.


Há quem diga, no entanto, que a cabeça vazia é a oficina dos demônios. Se o ditado nem sempre se faz verdade, tendo sido a capacidade de formular e a vontade de dizer coisas ao mundo exatamente o motor de descobertas fascinantes, a mente imodesta do Dico não era o campo mais fértil do mundo. Ou ao menos não se prestava, exatamente, para o tipo de empreendimento em que ele havia se metido.


Estimulado pela evolução dos escritos, o Dico resolveu se aventurar mais. Mergulhou nas redes sociais com a intenção de se fazer conhecido antes do lançamento de seu manual, que ainda estava em progresso.


Intelectualmente limitado e, conforme sabemos, mais pretensioso que embasado, seguiu os conselhos de quem “bombava” nas redes. Em pouco tempo, estava íntimo de ícones da extrema direita e de sua desenvoltura no submundo da internet. E passou a dar conselhos pontuais, posar com celebridades da política baseada em fake news, pastores influencers, coaches, deputados moralistas envolvidos em falcatruas e crimes diversos.


Os poucos amigos e a família se desesperaram.


A mãe, que acompanhava os progressos do “Manual” como uma possibilidade de remissão da mediocridade do filho, ainda que fosse lançado mais como um livro de humor do que com alguma finalidade prática, confiscou o computador, temendo que as novas companhias do filho influenciassem a publicação.


Era tarde demais.

Ele já tinha escrito que Deus jamais prejudicaria um evento promovido por aqueles que “querem corrigir os rumos do Brasil”.

Coitada.


Teve que viajar para Brasília correndo. Tinha acabado de descobrir um boné vermelho de apoio ao governo Trump no armário do Dico quando recebeu a notícia de que o filho querido, cheio de sonhos, tinha sido atingido por um raio durante uma caminhada em Brasília em favor da libertação de criminosos que atentaram contra a democracia.


Sempre foi contra a violência e não sabe o estado de saúde do Dico, mas levou um cinto de couro enrolado na mala. Se ele não estiver muito mal e tentar justificar suas atitudes, talvez use o cinto pra tentar, a seu modo, fazer que ele volte à realidade. Se ele estiver mal, talvez dê só umas chineladas com as havaianas.


Mas vai corrigir esse garoto.

Ah, se vai.


Rio de Janeiro, fevereiro de 2026.

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1 comentário


Sonali Maria
Sonali Maria
há um dia

Muito bom Leo Viana!

Se eu pudesse daria umas chineladas de havaiana no Dico.

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