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QUEM TEM MEDO DO ETANOL?

José Luiz Alquéres, conselheiro do Clube de Engenharia
José Luiz Alquéres, conselheiro do Clube de Engenharia

 


 

Nas décadas de 50 e 60, era bem conhecido o uso do metanol e, eventualmente, do etanol na adição à gasolina para aumentar sua octanagem, ou seja, sua capacidade de ser comprimida sem explodir autonomamente. Com isso, os motores melhoravam seu desempenho.


Para os aficionados do aeromodelismo — em que pequenos motores proporcionavam condições de voo para engenhocas mais pesadas que o ar — e também para aqueles que praticavam kart, o uso do metanol era obrigatório, e os resultados eram superiores aos dos motores à gasolina.

 

Na década de 80, o Pró-Álcool, visando a diminuição do consumo de gasolina no país — derivada do petróleo em grande parte importado —, em conjunto com a indústria automobilística, foi responsável pela enorme conversão da frota de automóveis de passeio e veículos leves para a utilização do etanol em substituição à gasolina. Foi um programa muito bem-sucedido, embora descontinuado anos depois, quando o país aumentou sua capacidade de produção de petróleo e deixou de necessitar gastar divisas com a importação de combustíveis.

 

Embora já fossem conhecidas, à época, as possibilidades de uma utilização mais eficiente do etanol nos veículos automotores, as fábricas desses veículos — cujos laboratórios de inovação se situavam no exterior — não demonstraram interesse em desenvolver motores para o uso exclusivo do álcool, o que tecnicamente já era recomendável como rota promissora. Ao contrário, desenvolveram o motor flex, que funcionasse tanto com gasolina quanto com álcool. Confirmou-se assim a secular parceria entre a indústria automobilística e a indústria petrolífera.

 

Nos anos recentes, a crescente preocupação com o meio ambiente tem levado a indústria de motores a buscar um produto que, utilizando exclusivamente o etanol, possa competir com os motores movidos a derivados de petróleo — gasolina e diesel — que operam segundo os conhecidos ciclos Otto e Diesel. Hoje, podemos afirmar que já possuímos motores movidos exclusivamente a etanol, com performances de potência e economicidade iguais às daqueles movidos a derivados de petróleo, podendo substituí-los em veículos leves e pesados.

 

É uma notícia alvissareira, porque o etanol de cana, milho, soja ou beterraba resulta do plantio de vegetais que, em seu crescimento, absorvem grandes quantidades de CO₂ da atmosfera. Isso faz com que, na sua produção, sejam capturadas as emissões que seu uso futuro irá provocar. Essa produção de combustível líquido autossustentável é uma das maiores contribuições para um futuro de emissões de carbono zeradas — justamente aquelas mais desafiantes, pois correspondem aos usos móveis (automóveis, lanchas, caminhões, embarcações, e até navios e aviões).

 

Países da América do Sul, como o Brasil, e da África, com vastas extensões de pastagens degradadas, têm muito mais a ganhar com a produção desses combustíveis nobres, não poluentes, do que com a continuidade de novas explorações de petróleo, que só agravam o problema ambiental do planeta. Por que isso não é implementado? Porque não é interessante para os atuais players do setor energético: os países grandes produtores de petróleo e poderosas empresas petroleiras. Isto exigiria custos de adaptação da indústria automobilística para uma nova geração de motores e, eventualmente, veículos híbridos, além de Agências Reguladoras cônscias do seu papel normativo.

 

Na época do Pró-Álcool, o país soube enfrentar a crise mundial derivada do aumento do preço dos derivados do petróleo com uma solução própria e inteligente. Hoje, com a faca e o queijo na mão, hesita — ou mesmo está paralisado — diante da enorme pressão dos lobbies que atuam no setor de energia. Não é mais tolerável que continuemos seguindo a marcha insensata rumo a um futuro insustentável para o nosso planeta, ainda mais desperdiçando a oportunidade de fazer ganhar escala mundial tecnologias que já desenvolvemos, em benefício de toda a cadeia — desde a produção de combustíveis até sua utilização sustentável. Isso nos traria mais renda, mais tecnologia e menos poluição. Governo e indústria precisam acordar para as novas realidades.



José Luiz Alquéres é um polimata com notória atuação nos setores de energia e gestão pública. Foi presidente da Eletrobras e da Light, é conselheiro sênior do CEBRI e diretor da Casa FIRJAN.

 

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