Racionalidade versus Polarização: agora é a hora

Racionalidade versus Polarização: Agora é a hora
Ronaldo Mota*
Na verdade, sempre é hora para a racionalidade. A polarização, em geral, contribui pouco para o entendimento mútuo e para o desenvolvimento sustentável de uma sociedade.
Temos diante de nós, ao que parece, mais uma janela de oportunidades. Para que não a desperdicemos, é relevante compreendermos a história pregressa, que pode iluminar caminhos futuros.
O século XX foi um período miraculoso para a civilização humana. Iniciamos esse ciclo com uma expectativa média de vida de 43 anos e o encerramos com incríveis 76 anos. O saneamento básico (incluindo o acesso à água potável), a penicilina, as vacinas e a diminuição significativa da miséria e da fome, entre vários outros avanços do conhecimento, contribuíram decisivamente para essas conquistas. O elemento que conecta todos esses progressos é o cultivo dos alicerces do Iluminismo e a consequente valorização da cultura, da ciência e da educação.
Ao longo do século XXI, paralelamente ao florescimento de uma sociedade digital onde a informação é instantânea, acessível e basicamente gratuita, deparamo-nos com elementos antes impensáveis e profundamente contraditórios: enxurradas de fake news, negacionismos da ciência e da razão, e uma abundância impressionante de teorias conspiratórias inconsistentes.
O fruto do caos instalado chega, por vezes, a colocar em xeque a premissa primordial de que a racionalidade é nossa bússola orientadora principal, ainda que não a única.
A racionalidade, que deveria ser um pressuposto, ganhou relevância especial como uma das ferramentas eletivas para evitarmos polarizações inconsequentes. No entanto, nos devaneios contemporâneos, ela própria frequentemente, sujeita a questionamentos.
O que caracteriza sobremaneira a racionalidade é o fato de ser fruto de uma comunidade de pensadores que submetem suas próprias crenças a exames rigorosos de falseamento, calcados no método científico.
O que define um cientista (e, de certa forma, qualquer pessoa racional) não é a defesa intransigente de uma suposta verdade absoluta, mas sim a sua inerente disposição para questionar as próprias convicções, explorando todas as possibilidades de falhas naquilo que assumia originalmente como crença preliminar. É essa postura que distingue o cientista ou o indivíduo racional do charlatão e do fanático.
Em outras palavras, a linha demarcatória entre a ciência e a pseudociência é marcada pelo compromisso deliberado da primeira em buscar evidências que possam refutar a hipótese original. A ciência só sustenta uma ideia se ela sobreviver a múltiplos testes de falseamento, gerando o que podemos chamar de crença justificada.
O dogmático, por sua vez, parte da própria fé e a ela sempre retorna, baseando-se em convicções a priori não sujeitas a questionamentos. Esse é o terreno fértil para os extremismos, os mitos e as falácias que, infelizmente, caracterizam parcela do ambiente que compartilhamos.
A gravidade das circunstâncias atuais demanda um conjunto de medidas saneadoras e preventivas, às quais incluem, obrigatoriamente, atitudes educacionais que tragam para a escola o compromisso de lidar com estes novos tempos.
A principal estratégia não deve ser convencer alguém de algo contra outrem, dado que este é o cerne do espírito extremista que queremos combater. Trata-se, antes, de cultivar a importância das lógicas (dedutiva, indutiva, formal e informal), dos raciocínios crítico e analítico, e da distinção essencial entre causalidade e correlação. Afinal, embora o galo cante ao raiar da manhã (dois eventos correlacionados), o sol surgiria mesmo na ausência do animal, atestando a falta de nexo causal.
Urge também ensinar os elementos básicos de estatística e probabilidades (conjuntivas, disjuntivas, condicionais, a priori e a posteriori) e todos os demais pilares do pensamento científico ancorados na racionalidade.
Vivenciamos uma encruzilhada civilizatória cujos desdobramentos não estão garantidos de forma inexorável. Ao contrário, há evidências de que a inação da escola, enquanto espaço de formação, favorece os antagonismos, os extremismos e a irracionalidade. Mesmo cientes de que uma formação acadêmica isolada não é garantia absoluta para sufocarmos intuições primitivas e perversas, restam poucas dúvidas de que a ausência do hábito de pensar racionalmente é território próspero para radicalismos. Esse vácuo transforma-se, rapidamente, em um gerador de ambientes que aceitam falácias desprovidas de fundamentos como verdades, moldando cidadãos dispostos a ações desamparadas de justificativas dialogáveis.
No caso do Brasil, penso que estamos temos a oportunidade de evitarmos o risco de aprofundar o que já é por si danoso: abandonarmos a racionalidade e, de forma fratricida, nos entregarmos aos extremismos, restando à escola o papel de observadora passiva, distante ou ausente desse processo. Espera-se que esse cenário de racionalidade se materialize.
*Titular da Cátedra em Inteligência Artificial e Metacognição no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CBAE/UFRJ)
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