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RANCOR

Leo Viana
Leo Viana

Uma das certezas — talvez a principal delas — que Dona Nair alimentava dizia respeito ao caráter do Quinzinho. Ele era sambista demais. Não faltava aos ensaios da escola, escrevia samba-enredo (disputava frequentemente as finais e já tinha levado dois ou três sambas pra avenida), tocava cavaquinho e era bom versador nas rodas de partido alto. Na cabeça de Dona Nair, não havia a menor possibilidade de que fosse boa gente.


Todo sambista — e especialmente os instrumentistas — tinha uma terrível fama de boêmio, mulherengo e toda uma sorte de adjetivos que depreciavam quem quer que fosse ligado à arte do samba, sem exceção.


Não tinha sido sempre assim. Dona Nair fora, no passado, uma bela e desejada passista. Apesar da recorrente opinião depreciativa que homens e mulheres tinham do ofício de dançarina de samba, Nair fez uma brilhante carreira paralela como professora, sem abandonar os desfiles, os tamancos-plataforma e os adereços de cabeça que, em companhia de fantasias pequenas, adornavam as passistas. Foram quase vinte anos de uma trajetória linda, que teve seu ápice quando ela foi escolhida pela comunidade para ser a rainha da bateria.


Foi aí que ela, que já era muito desejada pelos companheiros de escola, entrou na mira de sambistas de outras escolas, artistas e visitantes. Deixou de ser apenas mais uma bela passista e passou a ser a maior de todas — a que aparecia mais, a que era focalizada pela televisão, a preferida dos fotógrafos. Não era um projeto de vida, mas as coisas foram acontecendo.


Ao mesmo tempo em que se dedicava à faculdade de educação física, tentando fugir do estereótipo de “bonita e burra” com o qual rotulavam as passistas, precisava conviver com o insuportável assédio dos homens — e mulheres — que a circundavam naquele universo. Resistiu muito. Mas houve um momento em que cedeu.


Um ritmista de uma escola concorrente, também passista e atleta, ganhou o coração da Nair. A paixão foi avassaladora e deixou marcas em ambos. Nair ameaçou fugir de casa com o Amâncio — era esse o nome do eleito. Sua mãe só cedeu diante da ameaça. Ato contínuo, convenceu o pai a autorizar o namoro para que não perdessem a filha.


Amâncio era quase um clichê ambulante. Sapato bicolor, terno de linho branco — num tempo em que essa roupa já era démodé mesmo no samba. Escriturário de banco, não andava sem gravata e sem chapéu. Parecia saído de um filme de época, acompanhado de Oscarito e Grande Otelo. Era bom de conversa e de credenciais, conhecido nas escolas de samba e em toda parte — um pouco pela figura exótica, mas muito pela competência que demonstrava no que se propunha a fazer.


Nair não resistiu e se entregou de corpo e alma. Foram três meses de amor infinito até o desaparecimento do Amâncio. Nunca se soube o que houve com ele, mas Nair nunca o perdoou. O ódio aumentava quando ouvia, sem certeza, que ele havia sido visto em outros lugares. Ninguém jamais trouxe uma prova, uma foto, uma notícia concreta — mas havia quem jurasse que era ele mesmo.


Nair passou muitos anos maldizendo o dia em que conheceu Amâncio e a sua própria fraqueza por ter se apaixonado loucamente por ele.


Por fim, casou-se com um homem “sério”, a seu ver. O Manuel era tudo o que o Amâncio não era. Português dono de padaria, viu na mulata o sonho dourado. Ela demorou a ceder, mas acabou se resignando. Da união nasceu Mariane, desde criança moça linda, bem cuidada, inteligente.


Mas dos 17 para os 18 anos, surgiu o Quinzinho.


Nair se negava a aceitar ver ruir seu “investimento” na filha. Sambista? Não! Ele vai te abandonar! Eles não têm coração! Seduzem e acabam com a gente!


A Mariane fez ouvidos moucos. Entregou-se à paixão pelo poeta, quase um sucessor do Amâncio. Não conhecia a história da mãe com a antiga paixão e creditava o ódio dela aos sambistas à sua frequência — não muito dedicada — a igrejas evangélicas pentecostais. Nair, em momentos de muita raiva e desequilíbrio, procurava refúgio nos templos que prometiam felicidade eterna em troca de módicas contribuições, e nunca abandonou o hábito, apesar de não se comprometer em definitivo com religião alguma. O Manuel achava tranquila essa prática.


“Mulher bonita é melhor que frequente a igreja que os bailes”, dizia ele, não sem alguma desconfiança, nas rodas da colônia portuguesa que se reunia aos sábados para o almoço no Cadeg.


A Mariane não rezava na mesma cartilha da mãe. Era boa filha, tranquila, estudiosa, mas gostava de festa e boemia desde cedo, como que num permanente desafio às certezas da Nair. Conheceu o Quinzinho numa roda de samba que frequentava com as colegas do colégio, nas quartas depois das aulas. Tinha ainda 15 anos quando notou pela primeira vez o cara do cavaquinho. Era jeitoso, cantava bem, mas além de ser mais velho — tinha já uns 23 anos —, estava sempre acompanhado e parecia meio convencido, orgulhoso e vaidoso do próprio talento. E isso era mesmo verdade: o Quinzinho podia ser tudo, menos modesto.


Aquele primeiro contato valeu, mas passou. Foram muitas idas à mesma roda até que, nos 17 anos dela, Mariane e Quinzinho tiveram um primeiro flerte, sem maiores consequências. Na festa dos 18, lá estava também o Quinzinho — mas agora sozinho, cantando bem como sempre e comemorando, também ele, sua formatura na faculdade de Letras. A troca de olhares foi fulminante, e a estratégica ausência da Nair — que se recusou a ir ao samba festejar com a filha — garantiu o sucesso. Era como se estivessem esperando por aquele momento há tempos. E provavelmente estavam. Grudaram-se como se não houvesse mais nada nem ninguém no mundo.


O sofrimento e a forte oposição da Nair se manifestaram da pior maneira. Quando ela não estava chorando e lamentando a opção da filha, estava tentando separar os dois — e para isso usava os piores meios. Mentiu, criou situações constrangedoras. Chegou a apresentar uma mulher que teria sido molestada pelo Quinzinho, que negou veementemente a acusação e precisou dar queixa na polícia contra a farsante.


A Mariane, em nome da relação com a mãe, aguentou mais do que deveria — ou pelo menos mais do que a maioria aguentaria —, antes de decidir sair de casa em definitivo para viver com o Quinzinho.


A razão profunda daquela obsessão só veio à tona aos poucos, quando Mariane, mesmo contra a vontade inicial da mãe, a levou para uma série de sessões com um psicólogo de família. Ela precisava — e queria — se reaproximar dela.


Nair odiava mesmo era o fato de ser incapaz de amar o Manuel, o bonachão português. O que queria — como uma tentação bíblica — era entregar-se a cada sambista que passava. Isso a levava aos templos religiosos, na esperança de que alguma magia ou bênção vinda do céu a libertasse daquele encosto que a tornava amarga e irascível. Também era por isso que assistia, excitada e escondida, aos DVDs dos desfiles e shows que a filha guardava.


Ao ver a filha com o Quinzinho, entrou em colapso: ali estava, de carne e osso, tudo o que ela sempre quis e nunca mais se permitiu ter.


O Manuel não notou nada demais. A filha tenta ajudar. O Quinzinho segue sambista e, agora sabedor da história da sogra, morre de medo dela.


Nair, dizem, foi vista de óculos escuros num ensaio da escola, sozinha num canto da quadra, observando tudo.

Os pés e os quadris, tensos, resistiam ao som da bateria.

 

Rio de Janeiro, maio de 2026.



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