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RESSENTIMENTO

 

O entregador tocou o interfone, mas o Irineu resolveu não abrir. Não lembrava de ter pedido nada e, claro, aquilo poderia ser um golpe! “Não se pode confiar em ninguém”, ele dizia. O 602 era sua fortaleza. Não confiava na portaria. “Aqueles porteiros vivem rindo pra todo mundo. Não inspiram qualquer segurança”, repetia para si mesmo. Sempre com a cara amarrada e a bengala, cujo “toc-toc” anunciava sua chegada, não havia dia em que não reclamasse de alguma coisa, fosse o clima, a limpeza do prédio ou o movimento da rua, importando pouco se era muito ou pouco. Chuva ou sol, seca ou enchente, pra cada coisa um resmungo. Não gostava de crianças nem de velhos, ainda que fosse, ele mesmo, passado dos setenta. Proprietário do apartamento, morava sozinho desde a fuga da esposa com o Edu, piloto de aviação aposentado que vivia no 502.

 

Pois foi exatamente para o 502 que vieram, naquela semana, após uma pequena reforma no amplo apartamento, o Zeca e a Norma, casal dos mais simpáticos de todos os tempos e lugares.

 

Zeca e Norma eram tão gente boa que amigos e amigas repetiam que topariam, sem ressalvas de gênero, casar com qualquer dos dois que – por uma fatalidade – enviuvasse.

 

Eram um casal bonito, saudável, bem-sucedido profissionalmente e absolutamente disponível para os amigos, o que atraía, além dos amigos históricos, de infância, da faculdade de design que cursaram juntos, diversos outros, mais recentes. Dentre esses, era notável a quantidade de gente com problemas de sociabilidade. A companhia do casal era o melhor dos refúgios, e eles não se negavam a acolher os “esquisitos”.

 

O Irineu não chegou a ser incomodado pela reforma. Como não houve quebradeira, ele mal notou o movimento no amaldiçoado apartamento 502. Procurava, inclusive, negar, no subconsciente, a existência do quinto andar. Subia sempre sozinho no elevador e, por alguma razão desconhecida, nunca tinha encontrado qualquer morador daquele pavimento depois do ocorrido.

 

O entregador tocou outra vez. O Irineu, com seu pavio curtíssimo, respondeu impropérios. O menino, que aparecia na câmera do interfone com uma grande mochila vermelha nas costas, perguntou se era do 502. O gatilho do Irineu foi ativado, e ele gritou ainda mais palavrões para o garoto. Ninguém viu, mas as veias inchadas no pescoço e a vermelhidão na face do Irineu faziam parecer que ele estava sofrendo de algum colapso cardiovascular. Conseguiu, apesar disso, falar com o porteiro, que informou sobre um defeito no botão do interfone, que acionava o apartamento imediatamente acima. Não conhecia nem queria conhecer quem quer que estivesse naquele momento no 502, mas, em sua cabeça, a encomenda de comida podia significar uma estadia provisória, o que soava como um alívio.

 

Mas outro entregador tocou o interfone. E mais quatro o fizeram antes que o Irineu descesse à portaria e até oferecesse um pagamento extra para que os porteiros evitassem tocar no aparelho. Ainda eram sete horas da noite, e aquilo era um mau presságio.

 

Depois dos entregadores vieram os convidados. E foram muitos!! Os porteiros se esforçaram para evitar o incômodo, mas dois ou três apertaram o interfone, entre as dezenas de pessoas que subiram.

 

Zeca e Norma, anfitriões queridos, recebiam a todos sem conhecer o drama que se desenrolava no apartamento acima. Tiveram o cuidado de convidar todos os vizinhos, tendo enviado um bilhete carinhoso e manuscrito, com a linda caligrafia da Norma, para cada apartamento, colocado cuidadosamente nas caixas postais individuais. Irineu abria a sua uma vez por mês, para retirar os boletos, todos com vencimento no dia 5. Em meados do mês, como era o caso, não tinha razão para passar pela caixa postal.

 

A música começou exatamente às 20h, conforme informado no convite não lido. Uma sequência inicial de Beatles, Joan Baez e clássicos do jazz foi a abertura inusitada para o grupo de choro que veio depois. Um clima de felicidade parecia invadir os corredores e as janelas do prédio. Conversas e risadas eram ouvidas em tom ameno. Tudo irritava o Irineu, mas bem menos do que ele mesmo esperava após os incidentes com entregadores, convidados e o interfone.

 

A festa continuava. O som que subia parecia agradar estranhamente ao Irineu, que jamais ouvia música em seu apartamento e que, em nenhuma hipótese, admitia perturbação externa de qualquer tipo.

 

E o que o desagradava agora era exatamente essa estranha sensação de estar cedendo. “O que houve comigo?”, se perguntava. Não sabia de quem se tratava, mas o 502 entrava na sua vida sem pedir licença pela segunda vez.

 

Tomou coragem, trocou o pijama por uma roupa discreta e desceu. Tocou a campainha ainda sem saber o que diria na porta. Tinha dúvida se reclamaria do som ou se pediria para entrar. Um cabeludo abriu a porta, envolto numa nuvem de fumaça. Irineu não identificava cheiros desde a epidemia de COVID, mas desconfiou que fosse maconha. Podia ser tabaco. Irineu era chato,  mas não tinha preconceitos. No fundo, a música dominava o ambiente. Identificou-se e foi convidado a entrar. A Norma, com uma bandeja na mão, ofereceu uma taça de vinho ao recém-chegado. Uma outra moça, num vestido esvoaçante, fez as honras da casa. O Irineu talvez não estivesse preparado para tanta simpatia. Fechou a cara novamente, mas seguiu a moça e foi apresentado, reagindo sempre friamente, a quase todos os convidados da festa, incluindo os músicos. Não se relacionava bem com os demais vizinhos do edifício e evitou o contato com eles.

 

Houve uma pausa na música, mas, quando ela recomeçou, novamente se deixou envolver pelo clima. Uma cantora presente iniciou uma música que fazia o Irineu lembrar particularmente da Isadora, sua ex-companheira, a mesma da fuga com o Edu.

 

Edu tinha sido um de seus únicos e melhores amigos, até que ele, Irineu, se tornou rabugento e difícil de conviver. A Isa, mais jovem e solar, buscava consolo, sem maldade, no Edu. O próprio Edu não alimentava outras intenções, mas acabou acontecendo, para desespero e ódio do Irineu. Agora, sem ter culpados para apontar, derramava seu ódio sobre tudo o que se relacionasse ao 502, aquele antro que existia sob seus pés e que visitava agora depois de alguns anos.

 

No entanto, aquela música e aquelas pessoas o tinham enfeitiçado de alguma maneira. Não sentia, ali, o ódio que tinha se programado para sentir. Nem conseguia manter a testa franzida diante daquela gente que irradiava uma felicidade que ele não conhecia mais e que por tanto tempo se negara a admitir que existia.

 

Quando deu por si, estava sentado diante dos músicos, taça na mão, cantando.

 

O tempo passou.

 

Não se tornou vizinho exemplar. Troca receitas culinárias com a Norma e com o Zeca, mas reclama quando tocam o interfone fora de hora. Ainda desconfia dos porteiros, apesar de dar bom dia quando passa. A moça de vestido esvoaçante, Lia, tem sido vista frequentemente no 602.

 

E um convite, com caligrafia caprichada, foi colocado em todas as caixas postais e assinado pelo Irineu. Mas o sarau tem hora para começar e para terminar.

 

O 502 nunca teve culpa de nada.

 

Rio de Janeiro, abril de 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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  • Meta Description: Uma análise sensível sobre o isolamento urbano e o poder transformador da cultura e da boa vizinhança. Como o afeto e a música romperam a fortaleza do apartamento 602.

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