Ressuscitando Flores
- Eleonora Duvivier

- 22 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

No livro “O Apanhador num Campo de Centeio”, me lembro do narrador, ‘Holden’, responder à sua irmã Phoebe, depois que ela lhe pergunta o que gostaria de fazer na vida. Holden diz que quer apanhar as crianças que estiverem correndo sem olhar pra onde estão indo, antes que elas caiam no despenhadeiro.
“...Eu tenho que aparecer de algum lugar e pegá-las. É só isso que eu faria o dia todo. Eu seria o apanhador no campo de centeio.”
Tal confissão, interpretada como metáfora da crença do narrador na pureza incorrupta da juventude, expressa também seu ideal de a preservar ao impedir que caiam no despenhadeiro, (nas hipocrisias da idade adulta). Foi frequentemente criticada como ideal que representa uma visão ingênua do mundo, ou a extrema desconexão entre Holden e a realidade; um ideal sem qualquer praticidade. Não vou aqui justificar Salinger porque acho bastante obvio a validez de sua visão, que de ingenuidade não tem nada, mas de liberdade tem tudo. Só quero contar o momento em que me lembrei dela e a que me levou.
Alguém tinha trazido um dos girassóis que plantamos na frente da casa e o colocado dentro de um vaso chines antigo que tenho. A composição ficou linda. Afora o calor daquela flor lembrar Van Gogh, a mistura da sua forma de raios de sol com os padrões do vaso transmitiam a harmonia de se pertencerem a tal ponto que parecia transcendentalmente planejada. Apreciei o girassol dentro do vaso durante longos momentos.
Mas no dia seguinte, a cabeça dele estava caída, suas pétalas emaranhadas e suas folhas totalmente murchas. Coitada da flor, durava tão pouco fora do sol? Olhando dentro do vaso, vi que não tinha um pingo de água; assim ela foi posta ali dentro.
Lembrei de uma vez em que consegui ressuscitar uma rosa que estava dentro d’agua, mas se encontrava naquelas condições. Tirei ela do vaso e antes de descartá-la, deixei que descansasse um pouco no parapeito da janela da cozinha. Assim fazia Lucio Costa. Há que se respeitar uma rosa. Um pouco mais tarde, sob o pequeno raio de sol que chegava até ali, aquela me pareceu um pouco mais viva. Na dúvida, enchi outro vaso com água limpa e a botei dentro dele.
Dali a algumas horas, quando voltei `a cozinha, a rosa estava de cabeça erguida! Difícil acreditar, mas suas pétalas, que antes pareciam papel crepe, estavam lisas, frondosas, e mais que isso, a relativa transparência de uma delas se sobrepondo `a outra contra a luz do sol formava um coração perfeito. Tirei várias fotos dela e de seu coração. Viveu muitos dias dentro daquele vaso, e a cada manhã, permitia que eu mesma me agradecesse. “Ressuscitei uma rosa!”, anunciei pra minha família.
Rosas são bem individuais. Algumas se abrem aos poucos e duram muito, outras se abrem rápido, mas ficam no meio do caminho. E tem umas que nem chegam a se abrir. Sempre senti a maior aflição quando elas são simplesmente usadas como adornos fora de qualquer vaso e logo esquecidas ou jogadas fora. Isso me faz pensar no trágico conto de Wilde, ‘O Rouxinol e a Rosa.’ No conto, foi o sangue do rouxinol que criou a rosa, e ele se sacrificou pra isso. Mas na realidade, a despeito da ciência que pensa explicar tudo, sabe-se lá o que está por trás da intensidade de um ser tão perfeito e de perfume paradisíaco? O que esta por trás de todas as explicações?
Quanto ao girassol, decidi tentar, mas imaginei que no ponto em que estava, ainda por cima que aqui é inverno, seria difícil. Enchi o vaso com água fresca, cortei um pedaço do caule comprido que ele tinha, tendo aprendido com um plantador de rosas que fazer isso logo antes de imergir a flor facilita a sua absorção de água. E com caule mais curto, o girassol também teria mais apoio da beirada do vaso para voltar a erguer a cabeça. Dito e feito. Dali a um tempo, as suas pétalas amarelas já estavam menos enroscadas e suas folhas verdes também. Um pouco mais tarde, a cabeça do girassol apareceu ereta, feliz e vibrante, refletindo o sol dentro da minha casa.
“Parabéns, flor, você ficou linda!”, não pude deixar de lhe dizer.
Foi então que me lembrei de Salinger. O valor de querer ser um apanhador no campo de centeio é independente de qualquer pragmatismo. Aliás, assim acontece com os gestos que têm valor real; valor em si. Esses não são escravos da sua finalidade, são livres. Sua liberdade é pra Deus.
Pensei então que da próxima vez que me perguntarem o que eu faço na vida, direi com o maior orgulho: “Ressuscito flores”.
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