RETOMADA
- Leo Viana

- há 5 dias
- 4 min de leitura

A Dorinha saiu de casa com a intenção de aprontar.
Início de ano, vida nova, boas perspectivas e expectativas em alta.
Pulou ondinhas, usou branco e amarelo. Seria o seu ano!
A alma estava mexida pela separação recente, pelo emprego perdido e pelo afastamento dos amigos e amigas, justamente causados pelos ex (namorado e trabalho).. Pegou a canga mais bonita, o melhor biquíni, conferiu o corpo no espelho da sala do apartamento de Copacabana. Tudo em cima. As horas todas de academia, único luxo que a vida corporativa e a união quase estável permitiam, não foram em vão. Faltava um pouco mais de bronzeado e este problema ela iria resolver agora.
E aproveitaria pra aprontar!! Pretendia flertar deliberadamente com os caras interessantes que encontrasse na praia. Tinha ficado fora de forma nesse esporte, que praticara no passado. Era a hora de recomeçar. Os solavancos recentes pareciam ser um sinal. Não era acomodada, nunca tinha sido! Continuava tão bonita e atraente como antes, nos tempos da faculdade e do colégio, onde era a preferida dos meninos e causou muito problema. No tempo do nível médio, nem era intencional. Era bonita e simpática, só isso. Depois passou a tirar algum proveito, mas nada radical.
Agora, já uma mulher adulta e calejada pela vida, estava em ponto de recomeçar.
Conferiu os documentos e colocou na bolsa. Pedir pra guardar ou “dar uma olhadinha”na bolsa sempre foi um ótimo começo para um flerte na praia. Não tinha desaprendido.
Calçou as havaianas, pegou os óculos escuros, a garrafinha d’água e partiu.
Voltou pra conferir se tinha fechado as janelas. Passou a fechar todas desde que encontrou com um pombo na cozinha, ciscando em cima da mesa onde ela fazia as refeições.
Tudo conferido, desceu.
Morava a duas quadras da praia, exatamente do ponto que frequentava desde o tempo em que morava mais longe.
Já tinha cruzado a primeira rua quando passou em frente ao mercado e viu a promoção das frutas. Lembrou que estava quase sem frutas em casa e tinha muita dificuldade de viver sem elas. Sempre gostou de se alimentar bem, não tomava refrigerantes, não comia ultra processados e só abria exceção, na dieta saudável, para a cerveja e os drinks. Nos últimos tempos da relação, em meio aos desacertos que antecedem separações e demissões, tinha bebido até um pouco demais. Não sabia ao certo se por causa da relação ou do trabalho. Mas sabia que o homeoffice tinha piorado as coisas.
No meio dessas divagações, entrou no mercado decidida a garantir pelo menos uma meia dúzia de tangerinas e algumas maçãs. Caberiam na bolsa, poderiam ser comidas na praia e, numa excepcionalidade – quem sabe? – seriam tema pra uma conversa despretensiosa com algum interlocutor interessante. Fez isso. A bolsa de pano saiu gordinha do mercado e a Dorinha feliz, no rumo da praia.
Ia cruzar a segunda rua quando lembrou que tinha esquecido o filtro solar. Era cedo, antes das nove da manhã, mas o calor de janeiro no Rio de Janeiro não respeita o relógio. E a pele “amarelo-escritório” da Dorinha exigia cuidados, apesar da intenção declarada de voltar a ostentar o bronzeado orgulhoso de um passado relativamente recente.
Entrou na primeira farmácia que viu, dentre as centenas de opções existentes numa Copacabana infestada delas. Aliás, talvez nem tenha sido a primeira drogaria que viu, porque, em Copa, a cada olhada dizem que você vê duas ou três.
Foi direto aos filtros solares, que ficam numa prateleira trancada a chave. Escolheu o que queria e andou para o caixa. No caminho, viu seu sabonete preferido, marca antiga que usava desde criança, em oferta tentadora. Pensou na bolsa já cheia de frutas e imaginou a cena de chegar ao seu ponto na areia com as compras do mês. Riu sozinha, mas não resistiu aos sabonetes. Não seria razoável comprar apenas um, visto que a oferta dava 50% de desconto no pacote com seis unidades. Levou. A bolsa resistiu bravamente, mas dava sinais de esgotamento do espaço interno.
Seguiu célere em direção à praia, agora já na quadra final, quando encontrou com a Simone, amiga de longa data, responsável, em algum grau, pela entrada dela na empresa da qual tinha sido demitida há pouco, mas onde tinha sido bem feliz nos primeiros anos. Era muito grata a ela por isso. Se a amiga tinha algum defeito, era o fato de ser um pouco autorreferente demais. Aumentava sempre um pouco os seus próprios problemas, criando uma espécie de competição. Mas era uma boa amiga, sem duvida. Simone não sabia da separação. A conversa ganhou ares de sessão conjunta de terapia quando Simone revelou que também tinha se separado da Dolores, companheira de muitos anos.
Sentaram-se numa loja de sucos na esquina. A bolsa da Dorinha, pesada pra ficar no ombro e instável com as frutas no fundo pra ficar no chão, acabou tombando e espalhando tangerinas pela calçada suja. Um morador de rua catou duas e correu. As amigas riram, recolheram as outras frutas e pediram um suco, enquanto falavam – Simone um pouco mais, claro - das relações rompidas, do sofrimento recente, da vontade de retomar as vidas profissional e afetiva.
O suco de abacaxi ativou uma antiga alergia que a Dorinha acreditava estar controlada.Começou a sentir uma coceira chata no tronco e no pescoço exatamente quando um homem interessante, com pinta de professor universitário, fixou o olhar nela.
Olhava pra ele de soslaio enquanto falava com a amiga e a ouvia, mas a coceira foi ficando mais forte e a Simone, sem parar de contar sua história, alertou sobre a vermelhidão que começava a tomar a amiga, subindo do pescoço para o rosto.
Atabalhoada com a alergia, a amiga e o flerte, deixou a bolsa, que agora repousava no encosto da cadeira, cair novamente. Dessa vez a queda causou o estouro do frasco de protetor solar. Tinha agora tangerinas e maçãs protegidas de queimaduras de sol, a pele vermelha como a de um frango daqueles de pescoço pelado, o olhar assustado de um possível pretendente em sua direção e a amiga, que a alertava mas não parava de falar de suas próprias angústias.
Juntou novamente as frutas, tirou a canga da cintura e a colocou no pescoço, pagou a conta e tomou o caminho de volta pra casa acompanhada pela amiga.
O primeiro flerte da retomada vai ficar pra amanhã.
Se a alergia passar.
Rio de Janeiro, Janeiro de 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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