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Saudade, Pedras, Arte e Espinhela Caída


Uma querida amiga escreveu que saudade cura espinhela caída. Nunca soube disso. Mas não duvido, tantas são as coisas que não sabemos. Também as outras, sabidas, que acabamos por esquecer. Fora aquelas que mudam, amoldam-se aos formatos dos tempos que chegam e se vão. Trocam de posição e significado. Já não as reconhecemos.


Da pintura Naif, e de alguns artistas pós-modernos, aprendi a reconhecer o valor – e a desconfiar – da simplicidade na obra artística. Nada tão difícil para se alcançar um bom resultado artístico do que a simplicidade. Porque o complexo pode acrescentar camadas e camadas de erudição e técnica, a esconder o brilho original da criação. Ou a falta dele.


"No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho." Trecho do poema No Meio do Caminho de Carlos Drummond de Andrade. Um poema dos mais conhecidos no Brasil que demonstra o poder da simplicidade. Também a ilusão de que seja fácil alcançá-la. Simples em arte, sendo original e poderoso, é aquilo em que o autor trabalhou arduamente, aplicou toneladas de conhecimento acumulado (seu e/ou da tradição). Para além disso, limou, ajeitou, cortou e recortou. De forma a esconder o próprio esforço. Sob estratos de talento, luta, agonia, apresenta a obra pronta; um objeto ou um processo límpido. Simples, para o olhar ingênuo.


Tal qual a bailarina em seus levíssimos movimentos que não demonstram a dor e a disciplina dos anos de preparo. Ou o artilheiro com seu gol perfeito, que eventualmente define a partida. Fácil – dizem os incautos. Vá fazer!


A pedra de Drummond, Guernica de Picasso, Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, Tabacaria de Pessoa, O Homem Amarelo de Anita Malfatti, O Ciúme de Caetano, os vários azulejos de Adriana Varejão.


Vá fazer! Vá não. Já foram feitos. Podem até ser copiados. São irredutíveis e irrepetíveis como obras de arte.


A saudade cura (até) espinhela caída. Queria que curasse pedras na vesícula. "Tinha uma pedra no meio do caminho". As pedras que às vezes carregamos na alma. Nos rins. No coração? As pesadas rochas do passado. A possível poeira pétrea do futuro.

A vida não é uma sucessão de obras de arte (ou é?). Mas, em todo caso, precisa delas.


Jorge Cardozo

julho de 2026


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