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Sentimentos conflitantes


 

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​​Após um inverno e primavera extremamente secos, com um índice pluviométrico assustadoramente baixo, enfrentamos agora um verão com suas tempestades​vespertinas que trazem água às enxurradas. Durante o dia vemos as nuvens escuras se juntarem na crista das montanhas, anunciando o dilúvio. Começa com um vento antecipando a cheia vindoura. Folhas e galhos secos são atirados na paisagem. Enchentes, além de quedas de barrancos, são esperados nesta época.


​​Saímos de uma seca pavorosa para alagamentos com quedas de árvores e estradas interrompidas. Cenário costumeiro e cada vez mais​dramático. Confesso que o verão – aqui na roça – não é para mim, a melhor época do ano. Sei que necessitamos da água para repor os mananciais, para regularizar as minas, para baixar a poeira advinda da secura de meses, para a rega, para o plantio florescer e para o planeta que tanto necessita de água. Mas, atualmente quando chega, se apresenta com muita raiva e destruição.


​​É época de retroescavadeiras limpando os caminhos. Mutirões para tapar valetas que a água abre na estrada, criando fendas e gretas profundas impedindo a passagem. Muita lama e dificuldades por todo o lado. Morar na roça é isso. É uma maravilha incomparável diante de tantos benefícios. Mas tem seu preço. 


​​O que mais dói, no entanto, é saber que isto que acontece não é natural. É uma reação da Natureza às agressões que estão lhe sendo impostas pelo homem. Aqui no sudeste sempre soubemos que a época mais seca é o outono e inverno. Por isso o dito popular, que não se deve fazer um monte de coisas nos meses sem a letra R. Estamos falando de maio, junho, julho e agosto. Pois é, isso já foi verdade. Com o passar do tempo, talvez também devido à uma mudança da inclinação da Terra, mas sobretudo com a poluição, o excesso de carbono na atmosfera com a queima de combustíveis fósseis, com a diminuição da camada de ozônio, a emergência climática que estamos atravessando, no mês de maio agora chove. Já foi o mês das noivas pois, justamente, podia-se marcar um casamento quase com a certeza de que não iria chover. Ao mesmo tempo, hoje em dia, setembro ainda traz consigo a seca do inverno. Temos tido incêndios florestais no início de outubro devido a seca.


​​É muito triste assistir e sentir na pele este descalabro. A Humanidade está inteiramente à mercê dos desvarios de homens poderosos que não percebem o planeta, apenas suas contas bancárias e o poder que advém deste acúmulo. Não acreditam que suas companhias, suas guerras comerciais, suas produções desenfreadas que alimentamo planeta cada vez mais com inutilidades práticas, destroem o meio-ambiente, matando animais até a extinção, dificultando cada vez mais a produção de alimentos, acabando com a água e poluindo o ar que respiramos.

​​Vim morar na roça para fugir justamente deste prognóstico aterrorizante que se anunciava décadas atrás. E hoje, percebo que esta situação só vem se agravando.


Não há nada que um homem comum possa fazer. Inventamos mil e uma maneiras de driblar esta calamidade que chega com fome do desmantelamento da civilização. Um desastre que fere a todos nós mas que não é produzido por nós.


​​Mas, por incrível que possa parecer, ainda acredito numa solução que permeia um futuro desconhecido. Acredito – apesar de tudo – no ser humano. Acho que a tecnologia nos trará soluções inimagináveis até agora. Vejo a natureza se reinventando. Vejo uma flor nascendo no asfalto. Vejo um bambu que brotou por debaixo de uma pedra, se contorcendo para chegar à luz do sol. Vejo um mourão de cerca florescendo. Vejo uma vaca alimentando um bezerro cuja mãe morreu. Divide seu leite do seu próprio filhote. Adiamos uma obra porque dentro da betoneira uma passarinha havia construído seu ninho e dentro, dois ovinhos aguardavam chocar. Vejo a esperança no ar e nos corações. Não estarei aqui para ver a mudança mas ela chegará,pois atingiremos um estágio onde o grau de urgência da necessidade de reação, será comum a todos os países.


E então recomeçaremos a vida no planeta de forma mais amena e habitável.

 

Luiz Inglês

Fevereiro 2026

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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