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SUICÍDIO DE UM DITADOR MODERADO (1954), Elizabeth Bishop, tradução Jorge Pontual



Suicídio de um Ditador Moderado

(Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1954)



Hoje é um dia em que verdades virão à tona, talvez;

vazarão dos telefones dependurados,

minando a força dos painéis coloridos das telefonistas;

cairão das janelas, voarão das sacadas,

— vagos, levemente banais conteúdos

de cinzeiros esvaziados; sujarão nossos dedos

como a tinta de jornais ainda não lidos,

borrando como as fotos fora de foco

de caras tortas que mancham

nossos casacos,

nossos casacos tropicais, como mariposas esmagadas.


Hoje é um dia em que aqueles que trabalham

ficam à-toa.

Aqueles que folgaram têm que trabalhar

e depressa, pra dar conta do recado

com pouco ou nenhum cuidado.


Os jornais estão vendidos; as portas da banca

despencam. Mas assim mesmo, na noite,

as manchetes escreveram a si mesmas,

veja só, nas ruas

e calçadas por toda parte; um sedimento esparramado

até nos primeiros andares dos edifícios.


Este é um dia que é bonito também,

e quente e claro. Às sete da manhã eu vi

os cães levados a passear na praia famosa,

como sempre, num brilhante amanhecer cinza-esverdeado,

deixando as pegadas a secar no chão molhado.


A linha das ondas estava firme e o rosado,

repartido arco-íris pairava sobre elas.

Às oito dois garotinhos soltavam pipas.


Elizabeth Bishop. Tradução: Jorge Pontual


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


Leia mais sobre Literatura.

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