TRÊS METROS DE TECIDO

Fechou a loja mais cedo que de costume. O movimento até tinha sido bom. A temporada de festas de outubro surpreendeu. Dia das Crianças, pouco depois do Cosme e Damião de setembro, eleições, Nossa Senhora Aparecida, Halloween.
Trabalhava com tecidos desde que se entendia por gente. Ainda criança, começou a acompanhar o pai à loja herdada do bisavô. De tempos em tempos, as novidades ameaçavam a sustentabilidade do negócio. “Quase ninguém manda fazer roupa hoje em dia”, ouviu muitas vezes. Esse mesmo “hoje em dia” ecoou nos anos 50, 60, 80, 90… Mas o negócio se manteve. E, neste outubro, “bombou”, na língua do Rio de Janeiro contemporâneo, mas como nos velhos tempos.
Saiu mais cedo porque tinha um compromisso inadiável com a namorada, passada dos 60, como ele, mas já aposentada. Professora da rede pública de ensino fundamental, tinha o merecido benefício da aposentadoria especial. Não ganhava bem, mas ao menos pôde se aposentar cedo. Iriam ao teatro. Fazia tempo que não se dava a esse desfrute. A vida atrás do balcão exigia sacrifícios. “O olho do dono é que engorda o boi”, ouviu muito.
O namoro, aliás, surgiu no balcão da loja. Cleide, a então cliente, queria comprar três metros de um tricoline estampado para fazer um vestido parecido com aquele que usara para dançar a valsa de seus 15 anos. Completava 60 e queria comemorar. Na época, filha de pais de comportamento avançado para as circunstâncias, usou um vestido vermelho florido. Não conseguiu reencontrar a estampa, mas viu alguns tecidos parecidos na loja. Lembra que foi criticada pelas amigas e que seus pais foram duramente censurados pelos vizinhos por conta do figurino da filha.
O fato é que havia anos não entrava numa loja de tecidos. Era prática e adepta do prêt-à-porterdesde menina. Nunca fez questão de exclusividade e, sempre que podia, encarava uma liquidação, mesmo correndo o risco de encontrar multidões com roupas semelhantes pelas ruas da cidade. Naquele dia, às vésperas dos 60, daria a si mesma o presente de encomendar um vestido que lhe trouxesse boas memórias.
O Samuel não viu nada diferente quando a cliente entrou na loja. Era um dia comum, de movimento baixo. Além de observar os clientes em potencial, também precisava ficar de olho vivo quanto ao risco de furtos. Loja pequena, muitos produtos e poucos funcionários.
A Cleide se fixou em três rolos de tecido semelhantes. O Samuel se aproximou educadamente e ia começar a abordagem falando sobre o bom gosto da escolha, a qualidade dos tecidos e os bons preços da loja. Mas não precisou. A Cleide já tinha feito a opção dela e pediu a medida que desejava. Quando cruzaram o olhar, alguma coisa diferente aconteceu.
O nome do Samuel era revelador. Ele vinha de uma família judia tradicional no ramo de tecidos. A Cleide, por sua vez, sempre ia com a mãe às lojas de tecidos, apesar de sua preferência pelas roupas prontas. Um estalo de memória fez com que ambos se lembrassem de que já tinham se conhecido, muito tempo atrás, entre as araras de tecidos. A conversa rendeu. Relembraram, ambos, de quando corriam pelos corredores da loja multicolorida, escondendo-se entre as bancas, escolhendo tecidos das mesmas cores numa gincana infinita ou enfeitando-se com os retalhos expostos numa banca na frente da loja.
Os dois ou três anos em que isso aconteceu, talvez entre os 8 e 11 anos de cada um, tinham deixado boas lembranças. Ela ia à loja três ou quatro vezes por ano, o suficiente para que a alegria fosse completa. Era uma identificação natural e mútua.
O afastamento também foi natural. Ela cresceu e foi estudar. Ele ficou e estudou sem deixar o balcão da loja.
Nunca mais tinham visto um ao outro. A vida traçou caminhos muito diferentes.
Samuel se casou com uma vizinha, Sarah, que frequentava a mesma sinagoga dos pais dele. Ele tinha dificuldades com a religião, e sua renúncia aos preceitos judaicos acabou por levar à separação, mesmo depois de terem dois filhos.
Cleide começou a dar aulas aos 17 anos, assim que terminou o ensino médio. Depois cursou pedagogia, também se casou, também teve dois filhos e se separou depois de um incidente de violência doméstica.
Conversaram tanto que outros funcionários da loja tiveram que atender aos clientes que entraram depois no estabelecimento. Samuel chegou a cogitar não cobrar o pano da Cleide, mas o negócio não ia tão bem assim naquele momento. Trocaram telefones.
Saíram algumas vezes. Ela adorava teatro. Ele também adorava, mas não sabia disso ainda. Só após muita insistência da Cleide ele topou uma sessão. Depois outra e outra. Na terceira, já estavam namorando, para surpresa dos filhos das duas partes. Foi exatamente o dia em que ela usou pela primeira vez o vestido feito para o aniversário de 60 anos. O beijo que trocaram quando se encontraram fez passar o filme das brincadeiras entre as amostras de tecido nas mentes dos dois.
Agora, pela primeira vez, ele fechava a loja mais cedo, inclusive dispensando os funcionários, para ir a uma sessão de teatro no meio da semana, classificada como compromisso inadiável.
Saíram juntos da loja. Tinham marcado encontro na porta.
Pelas ruas tomadas de gente, um pouco antes da hora do rush de fim de tarde, caminharam como dois adolescentes até o metrô que os levaria para a Zona Sul. Um táxi ou aplicativo fatalmente ficaria preso em algum congestionamento. Falavam da expectativa com a peça, que tinha no elenco alguns medalhões da TV.
A TV tinha sido a grande companheira de Samuel em sua vida pacata e doméstica, no tempo que restava da rotina da loja. A dedicação da antiga esposa à religião, as idas frequentes à sinagoga, a observação de rituais domésticos e outras obrigações eram motivo de conflito permanente. Ao final, apesar de sua origem e de sua transição para o ceticismo, era simpático às religiões de matriz africana, ao cristianismo, ao budismo, ao Santo Daime. Era, reconhecia, mais uma espécie de vingança impensada do que uma efetiva conversão.
Via televisão o tempo todo que estava em casa. Os filhos cresciam e tinham suas próprias vidas, celulares, computadores, namoradas.
Cleide ouviu atentamente e, quando falou, disse que por pouco não repetia o mesmo. O marido era esportista e professor de educação física. Conheceram-se na primeira escola em que ela trabalhara, ele ainda estagiário. Com o tempo, nasceu a afinidade e a paixão. O problema veio muitos anos depois, já casados e com os filhos crescidos. O marido entrou numa espécie de “crise de meia-idade” e resolveu passar todo o tempo disponível em academias ou competindo, sem nenhuma dedicação a ela ou aos meninos.
A primeira reclamação de Cleide, após muito tempo de desconforto, resultou numa agressão e no consequente fim do relacionamento.
Mas aquilo finalmente ficou para trás. O reencontro com Samuel, também ele à beira dos 60 anos, fez renascer esperanças que já não estavam na ordem do dia. Os filhos já se sustentavam. A aposentadoria não era grande coisa, mas garantia a sobrevivência e até algum conforto. Ela nunca foi muito exigente. E os filhos até ajudavam. Levou tempo até andar de avião.
Agora fazia duas ou três viagens por ano custeadas pelos filhos. Viajava com as amigas em pacotes turísticos populares e adorava aquilo. Também ia com as mesmas amigas a espetáculos de música ou teatro com frequência. Agora, com Samuel, podia variar a companhia. E ele se revelou ótima companhia. Entusiasmado, vibrante, interessado. No íntimo, parecia querer recuperar o tempo dispensado ao trabalho. Não era infeliz atrás do balcão, mas a descoberta dessa nova vida o fez compreender que a vida não era só aquilo, não podia ser só aquilo.
Ambos dedicaram olhos e ouvidos atentos à peça. Interpretações magníficas. A história, fictícia, de gente cuja vida tinha mudado de sentido a partir de escolhas e acasos ocorridos já depois dos 60 anos. Choraram discretamente, tentando esconder um do outro. Mas abraçaram-se com força e carinho nas cenas mais sensíveis. Foram cinco minutos de aplausos de pé, em cena aberta, ao final do espetáculo. A certeza de que o caminho da vida passava por ali, pela satisfação de pequenos desejos, pela realização de pequenos sonhos.
Chovia na saída do teatro. Nenhum dos dois tinha trazido um guarda-chuva. Moravam distantes um do outro, mas viviam sozinhos. A casa do Samuel era mais perto.
Foi só a primeira vez que o Samuel fechou a loja mais cedo. Cinco anos depois do reencontro.
Hoje, eles têm 65 anos. Samuel fez algumas modificações na gestão da empresa e não precisa estar lá o tempo todo. Um dos filhos passou a se interessar pela gestão, após concluir um MBA. Parece ser a deixa para ele se aposentar. A Cleide prefere não opinar, mas adora a ideia. Sabe que o Samuel gosta da loja.
O que ela não sabe é que ele já comprou passagens, hospedagens e ingressos para um festival de Shakespeare em Londres, em meados do ano que vem. Presente pra ela. E fez reservas em Brasília para o início de janeiro de 2027. Não quer perder a posse do novo presidente com a Cleide. Sempre quis viver uma experiência como essa. Antes, influenciado pela antiga esposa, votava na direita. Agora, um novo mundo se abriu.
Mas isso é outra história.
Rio de Janeiro, novembro de 2026.
Estou ouvindo a playlist Luis Melodia, Monarco, Walter Alfaiate, Paulo Marquez e Teresa Cristina cantando Mário Lago.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
Chamada
Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro.
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada.




















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