A CONCESSÃO DA LIGHT
- José Luiz Alquéres

- há 6 horas
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Com muita justiça e propriedade, o governo federal renovou no último dia 8 de maio, por mais 30 anos, a concessão de exploração dos serviços de distribuição de energia elétrica na cidade do Rio de Janeiro e em 31 municípios vizinhos.
É um fato inédito uma empresa com 120 anos de existência conseguir sobreviver e prestar um serviço essencial por tão longo espaço de tempo. Poucas outras a igualam nesse aspecto, como a Energisa, do grupo Ivan Botelho, e a Eletropaulo, hoje de propriedade da Enel, empresa que detém várias concessões pelo mundo, desenvolvidas a partir de seu núcleo original na Itália.
Ao longo desses 120 anos, a Light assistiu à inauguração da Avenida Central, à queda da República Velha, à implantação da ditadura getulista, ao explosivo crescimento urbano que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, ao incontrolável surto automobilístico e à perda da oportunidade de direcionar o crescimento urbano por meio de um sistema logístico de eletrificação sobre trilhos, com trens e metrôs implantados com 40 anos de atraso e, portanto, a custos muito elevados.
Se, do ponto de vista econômico e social, essas várias circunstâncias foram extremamente desafiadoras, do ponto de vista tecnológico as transformações foram transcendentais, especialmente quando aos progressos da eletricidade vieram somar-se os da eletrônica e da digitalização, alterando equipamentos e passando a exigir dos sistemas níveis cada vez mais elevados de qualidade e continuidade no fornecimento aos consumidores.
A empresa, entre 1905 e 1978, teve sede em Toronto, no Canadá, embora a maioria de seus acionistas tenha variado ao longo do tempo entre canadenses, ingleses, belgas e novamente ingleses e canadenses, até ser adquirida, em 31 de dezembro de 1978, pela Eletrobras, então pertencente ao governo federal brasileiro. Entre essa data e 1996, teve seus sistemas modernizados, estendeu seus serviços a todas as habitações, tanto em áreas convencionais quanto em favelas, ampliou a cobertura às áreas rurais de seus municípios e passou a ostentar elevados índices de qualidade e continuidade.
Em 1996, foi a segunda das grandes distribuidoras brasileiras a ser privatizada. A partir de então, vários grupos se sucederam em seu controle acionário, a maioria sem grande sucesso empresarial, embora jamais tenham deixado de cumprir suas obrigações com os consumidores — fato agora reconhecido pela renovação da concessão. Trata-se de um grande ato de coragem dos atuais acionistas, que enfrentam a necessidade de promover uma significativa modernização, digitalização e descarbonização de todas as atividades empresariais, além de contribuir com a Prefeitura e, especialmente, com o Governo do Estado, para uma mudança profunda na forma de encarar o fenômeno urbano.
Hoje, o grande problema da concessão não está ligado às tecnologias elétricas, que a empresa domina plenamente, mas à necessidade de renovação da abordagem da segurança pública nas áreas urbanas; à revalorização do bairro como unidade de vizinhança sociocultural, capaz de devolver a seus moradores um sentimento de responsabilidade em relação às ruas e praças; e, por que não dizer, ao aumento da eficiência dos serviços prestados pelos três níveis de governo no tocante à saúde, à educação, à gestão dos órgãos públicos, à segurança e ao respeito aos direitos essenciais da população.
Nesta nova etapa, a Light — que no passado já deteve as concessões dos serviços de eletricidade, iluminação pública, transporte, gás canalizado, telefonia e telecomunicações, além de compartilhar instalações responsáveis pelo suprimento de água potável do Rio de Janeiro e até mesmo administrar atrações turísticas como o Bondinho do Corcovado, o Hotel das Paineiras, a arborização urbana e a preservação de mais de 30 mil hectares no entorno de seus reservatórios — deverá liderar uma ação conjunta entre as diferentes concessionárias que hoje têm sob suas responsabilidades aqueles serviços, para que voltem a desenvolver-se de forma articulada, em benefício da população.
A cidade moderna é um ente extremamente complexo. Todos os agentes envolvidos, em vez de trocarem farpas, judicializarem disputas e eximirem-se de responsabilidades diante dos problemas, devem unir-se na grande tarefa de fazer da construção humana no Rio de Janeiro algo capaz de rivalizar com a beleza natural da paisagem que Deus lhe legou.
A Light estará profundamente empenhada nessa missão.
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