A Fé nas Promessas Que Sabemos Quebradas
- David Gertner

- há 2 dias
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Há promessas que não nascem para ser cumpridas.
Nascem para ser ouvidas.
Sabemos disso — e, ainda assim, acreditamos.
Ou fingimos acreditar, o que talvez seja ainda mais delicado. Porque acreditar, mesmo em algo frágil, oferece abrigo. O ceticismo, ao contrário, exige que caminhemos sem corrimão.
Continuamos a acreditar em promessas feitas por quem nunca as cumpre porque o ser humano não vive apenas de fatos. Vive de narrativas. A promessa é uma história antecipada: um futuro contado antes de existir. E todo futuro narrado tem o poder de aliviar o peso do presente.
Há algo profundamente humano nesse gesto. Quando alguém promete, não ouvimos apenas palavras; ouvimos a possibilidade de descanso. A promessa suspende, ainda que por instantes, a angústia do “e se nada mudar?”. Ela nos permite imaginar que o sofrimento atual não é definitivo, que o esforço não foi em vão, que alguém — finalmente — nos viu.
Por isso, pouco importa o histórico de fracassos. A promessa fala menos sobre quem promete e mais sobre quem escuta. Ela toca nossas faltas mais íntimas: segurança, reconhecimento, pertencimento, sentido. Não queremos apenas que algo mude; queremos que alguém assuma a responsabilidade por essa mudança.
A promessa também nos absolve. Enquanto acreditamos nela, não precisamos decidir, agir, sustentar a dúvida. Podemos delegar o futuro. A promessa cria uma pausa moral: “alguém cuidará disso por nós”. É confortável. E perigoso.
Quando a promessa se quebra — como tantas vezes acontece — sentimos frustração, mas raramente surpresa. A decepção é quase ritual. Ela machuca, mas também confirma algo que já sabíamos. Ainda assim, na próxima esquina, diante de um novo discurso, de uma nova voz, de um novo brilho retórico, abrimos novamente o espaço da escuta.
Talvez porque abandonar a promessa exija algo maior do que denunciar o mentiroso. Exija aceitar que não há atalhos, salvadores ou soluções mágicas. Exija reconhecer que o futuro não se promete — se constrói. Lentamente. Com erros. Com limites. Com responsabilidade.
Mas isso é menos poético.
E infinitamente mais trabalhoso.
Enquanto isso, seguimos colecionando promessas como quem guarda cartas nunca enviadas. Não porque acreditamos nelas integralmente, mas porque precisamos, de tempos em tempos, acreditar em alguma coisa.
Mesmo que, no fundo, saibamos que não será desta vez.
Bio
David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Seu livro mais recente, IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, reflete sobre diálogo, ética e a condição humana em tempos de tecnologia.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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