A Infinitude do Corpo
- Eleonora Duvivier

- 6 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

Aquele e-mail me irritou. Anunciava os produtos de um site chamado “Deusa ‘sei la de que’”, dizendo que os seus produtos eram todos feitos a mão, embrulhados a mão, escolhidos a mão, abençoados particularmente e mais outras virtudes. Depois de apagá-lo, fiquei pensando no absurdo de querer promover o imediato (o toque pessoal) depois de tanta mediação, a começar pela que esta envolvida no processo digital eletrônico do próprio e-mail. E depois, quem vai acreditar numa coisa não verificável como o toque pessoal, nesta época em que mais e mais ele perde a significação.
Antes da invenção do e-mail, tudo era transmitido através do papel em que se tocava, escrevia, e era mandado em envelopes. Era cheio de toques pessoais, assim como a leitura através de um livro em que se pode pegar, sentir na pele, botar em cima da barriga, adormecer com ele, sublinhar passagens diretamente no papel etc.
O uso do computador ou do iphone abstraiu o contacto físico e direto com livros, textos, fotos, assim como a validez da identidade de quem posta online, já que qualquer um pode se esconder atras de um nome falso. Abstraiu essas raízes fundamentais da existência, e agora, com a IA, o próprio mecanismo da inteligência. Digo mecanismo porque me recuso a acreditar que a genuína inteligência se reduza a um processo maquinal sem alma. Acho que bem ao contrário, ela vem da alma. O que acho mais fantasmagórico sobre a IA é o que nos explica Yuval Harari: Não se trata de uma gigante entidade “malvada” que tenha vontade própria e decida nos dominar, como no filme 2001; A Space Odissey. De acordo com Harari, o que já nos domina são muitos sistemas interativos de IA no governo, nas empresas, e plataformas, com a burocracia de seus algoritmos tomando decisões sobre crédito, empregos, regras, saúde, informações na média, etc.
Não devíamos nos assustar, pois o princípio da tecnologia em geral sempre foi a abstração da concretude existencial; a abstração cada vez maior do tempo, do espaço, e da dimensão que neles vive; a dimensão física. Para dar apenas alguns exemplos, começando com o telefone, ele abstrai a distância e a presença de quem fala conosco.
A televisão e o cinema abstraem a realidade, o acontecer das imagens que reproduzem, aquele momento que foi único, assim como a sua presença e a localidade dos fatos que também reproduzem. A reprodução tecnológica de grande parte da arte abstrai o toque pessoal do artista e barateia a unicidade da sua obra. Pois a experiencia de se contemplar “cara a cara” uma grande obra é como uma prece, e é bastante diferente dos momentos em que se vê a mesma obra através de reproduções.
O descarte do contacto pessoal do artista com sua obra fez com que hoje o que se compra de muitos considerados grandes artistas seja somente a sua assinatura. Jeff Koons, por exemplo, dá as ideias de suas obras, usando colagens que faz com photoshop, mas nem as esculpe, nem as pinta, e nem faz a sua fabricação. Imagine que reação você teria se soubesse que o Cristo de Salvador Dali, aquele que olha o mundo abaixo de si não foi pintado por Dali, e dele só tinha a ideia de como devia ser e a assinatura.
A respeito do toque do artista, li uma comparação de um expert em animação, entre o desenho animado computadorizado e o que era feito `a mão- o qual eu muito prefiro- dizendo que nada substitui o contacto da mão do artista ao expressar no papel diretamente o que está rolando em sua mente. Muito amor rola nessa passagem da mente, pra mão, e pro papel. E a luz do amor sempre transparece e torna aquilo que mostra eternamente novo.
Antes que o dinheiro existisse, as coisas eram trocadas e palpáveis. Depois, viraram meras abstrações numéricas. Não é mera coincidência que o princípio do dinheiro seja também o da abstração da concretude, no caso, a do objeto e a do próprio desejo, pois a ganância pelo dinheiro em si não tem objeto definido. Se a tecnologia é uma viagem de poder sobre a matéria, o mesmo acontece com o dinheiro.
A abstração, isso que nos permite nos descolar do momento imediato, do toque imediato, da particularidade, e do corpo, é uma função racional da mente. Mas a razão não chega `a verdade última, muito ao contrário. Depois que Kant escreveu a Crítica da Razão Pura, que muitos consideram a obra prima da filosofia, mostrando justamente os limites da tão prezada razão e seus frutos, não sou eu que vou tentar explicar a sua insuficiência para com o ‘em si’.
O corpo fala pela alma; suas mensagens são irracionais. Até que venham a se transformar em dor, são em grande parte ignoradas. Por outro lado, a razão só fala pelo raciocínio igual em todos nós: o raciocínio universal, abstrato e desencarnado. Aquele que diz que dois mais dois são quatro não só para gregos, mas troianos, e todos nós. As verdades racionais podem ser reproduzidas indefinidamente, pois não tem sangue, não são de ninguém. As mensagens do corpo, por outro lado, são irrepetíveis pois que casadas com o momento em que acontecem, juntando mundos diversos e acrônicos no que evocam `a mente e em como se expressam.
Em geral, usamos o corpo como um simples meio de locomoção, ignorando sua riqueza com relativa impunidade. Me dei conta disso ao me submeter a umas das massagens de que minha filha Olivia é eximia praticante. São massagens em que cada pressão no nosso corpo, cada específico toque, tem um significado complexo, misturando medicinas alternativas, biologia, medicina chinesa e até mesmo misticismo. Antes de saber isso, eu já notava que cada coisa que Olivia fazia no meu corpo refletia um novo e inesperado pensamento na minha mente.
A um determinado ponto, me senti dentro da água do mar. Quando finalmente disse isso à Olivia, ela me explicou que estava me aplicando a massagem Lomi Lomi cujos movimentos imitam as ondas do mar. Foi inventada pelos havaianos nativos, os quais não queriam que se tornasse acessível ao homem branco e sua mente profana. O toque curativo de Olivia, delicado e firme ao mesmo tempo, já foi elogiado por muitos.
Acho que nesse departamento a IA e sua desumanidade nunca terá vez. A não ser que a triste espécie humana já não mais consiga sentir a diferença entre a pressão sem alma feita por uma máquina e aquela que transmite espírito e é feita por uma pessoa.
Até mesmo no que devia ser, como disse Vinicius, a “arte do encontro”, conforme ele definiu a vida, a mediação eletrônica passou a gerenciar, fazer acontecer, despojar de imprevisibilidade, e frequentemente cobrar, nos sites designados a promover encontros. Nesses sites, vemos muitas pessoas em seus pequenos espaços digitais uns sobre os outros na tela do computador, e comprimidos lado a lado sob legendas soletrando suas características, como se fossem mercadorias nas prateleiras de um supermercado. Acabaram com o inesperado da criação, e nesse caso, da criação da vida, transformando a “arte do encontro” na cerebração da escolha distanciada, calculada e, cobrando pelo seu serviço, no ganho de dinheiro. Nunca recorri a eles, mas meu filho mostrou-os a mim para repartir comigo a sua crítica.
Fechando o assunto, sempre fui optimista e procuro continuar a ser, o que atualmente me faz lembrar a atitude da avestruz. Por isso, quando vi aquele e-mail promovendo a particularidade do toque pessoal, do concreto por assim dizer, pensei que isso pode ser o germe de uma extrema reação a tudo que serializa e abstrai, na causa da volta da particularidade, da presença viva, e do contacto direto. Afinal, isso acontece com a moda, cujos estilos vão se tornando ridículos e acabam se transformando no extremo oposto do que eram, para, depois de tal exagero, reaparecerem do jeito conforme apareciam antes. E assim, pelo menos nesse departamento, vamos caminhando num constante vai e vem. Talvez, o valor da presença pessoal e do contacto direto ainda volte.
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