Aleluia, Páscoa e Eucaristia
- Eleonora Duvivier

- há 4 horas
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Diz-se que o cristianismo se sustenta na fé sobre a Ressurreição de Cristo. Mas eu concordo com Simone Weil a respeito de que a fé em Cristo não precisa nem das histórias de seus milagres e nem da sua literal Ressurreição.
Em poucas palavras, acho que a beleza da alma de Cristo é o próprio milagre do cristianismo. E é essa beleza que Oscar Wilde, como grande poeta, tão bem expressou: “Para Cristo, não havia regras, somente exceções.”
Esta frase tão simples transmite a nudez de uma alma cuja coragem lhe permitia ver o único na pluralidade; a alma que podia dispensar as muletas das abstrações e da coletividade, na sua condição de um desarme tão íntegro a ponto de ser capaz de ver a própria nudez em cada um, quer dizer, o indivíduo singular, e irrepetível.
Historicamente, é certo que os discípulos, e também São Paulo, tiveram visões de Cristo, 3 dias depois da crucificação, no caso dos primeiros. Mas o que fala melhor pela Ressurreição é a eterna presença da mensagem do amor incondicional e, portanto, indiscriminador, que Jesus transmitiu. O amor que só acontece quando se recebe a vida acima das abstrações, o indivíduo acima das classificações de raça, cor, classe social, posição financeira e contextual; acima de tudo que abstrai a sua concretude; paradoxalmente, o indivíduo enquanto alma. Para mim, essa nudez e coragem constituem o primeiro grande milagre do cristianismo.
Acho que é este milagre que coincide, em Cristo, com a sua visão de Deus Pai enquanto Amor, compreensão absoluta e disposição a tudo perdoar. O Pai que individualiza, pois somente quando se vê o caso de cada um, que é sempre único, pode compreendê-lo e perdoá-lo.
Tal milagre também coincide com a graça, a visão do amor de Deus por todos nós, criaturas, independente de mérito; a generosidade divina que se distingue do conceito de karma, de registros morais, e de tudo que é baseado em conquistas espirituais diante da divindade. C.S. Lewis apontou que a graça só existe no cristianismo, e faz deste uma religião não transacional, ao contrário de tantas outras, nas quais se deve merecer, seja o Nirvana (depois de várias encarnações e esforço próprio) ou seja “favores” da(s) divindade(s).
Cristo, no meu entender, era capaz desse amor incondicional porque vivia em reverência; em contato arrebatador com o além. Nesse sentido, recomendo o livro de Rudolph Otto, “The Idea of the Holy”. Neste livro, Otto investiga a experiência mística desde os tempos mais primitivos, e a expressa como o encontro com o Mysterium Tremendum et Fascinans. Com esta expressão, ele transmite a estrutura paradoxal da presença de uma absoluta alteridade, o Sagrado Outro.
Mysterium corresponde a esta alteridade que é fora das categorias ordinárias e irremediavelmente estranha. Tremendum se refere ao que provoca um temor avassalador, até mesmo terror, na sensação de absoluta pequenez diante de algo infinitamente maior. Fascinans remete ao que simultaneamente atrai, seduz, evoca anseio e amor.
O Sagrado não é só assustador e nem simplesmente belo, mas ambos de uma só vez, e de uma maneira que nenhuma experiência humana espelha por inteiro. É sui generis. A sensação da criatura diante da presença divina é descrita por Otto como um sentimento avassalador de pequenez, contingência e dependência absoluta.
Ao invés de mera humildade intelectual, acontece antes mesmo de ser pensado, ou desejado. Chega sem convite e sem solicitação, como consciência visceral e súbita de que se é mantido na existência, respondendo à humildade dos místicos no reconhecimento imposto à consciência da pura e infinita realidade do que ela encontra.
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