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ANÚNCIO


 

Do lado de fora da porta, Armando ouvia alguém destravar trancas e cadeados. Tinha a impressão de estar entrando numa sala de segurança máxima, como a tesouraria de um banco ou o corredor dos presos mais perigosos do sistema prisional.


Aguardou intermináveis minutos.


Ao final da sessão de destrancamento, alguém abriu a porta. Ainda havia uma pequena corrente, daquelas que impedem a abertura total. Pelo pequeno espaço, o homem do outro lado, sem mostrar o rosto, perguntou se Armando tinha vindo pelo anúncio.

A preocupação aparente com a segurança era tanta que ele chegou a gaguejar na hora de responder.


Mas sim, tinha vindo pelo anúncio.


Provavelmente, não fosse por isso, jamais teria se enfiado naquele sobrado mal iluminado, cuja escada não inspirava a menor confiança.


Entrou. Não havia nada à mostra que justificasse todo aquele sigilo. Numa sala bem iluminada, com poucas cadeiras, um bebedouro e mais nada, estavam outras três pessoas que, a julgar pela reação, também tinham atendido ao anúncio. Além delas, o homem que abrira a porta, ocupado em recolocar cadeados e trancas, incluindo uma com combinação mecânica de números, como um antigo cofre.


Os presentes não guardavam semelhanças entre si. Dois homens e uma mulher discretamente vestidos, sem indicação clara de origem social, escolaridade ou outra marca. As idades variavam entre o jovem de 20 anos e os cerca de 40 dos demais, incluindo Armando, que tinha 39. E que só foi por curiosidade. Tinha emprego. Estava descontente, mas não ganhava mal. O arrependimento vinha em ondas.


Quinze minutos se passaram em silêncio. Ninguém se sentia à vontade para iniciar uma conversa. A desconfiança era geral, e a sensação era a de que havia algum sistema de vigilância em alerta permanente, apesar de nenhuma câmera aparecer ostensivamente.


A ansiedade foi quebrada de forma esquisita. Na parede oposta à porta, abriu-se de repente uma passagem camuflada pela tinta bege. Dela saiu um homem alto, bem vestido, acompanhado de um rottweiler  enorme e nervoso, rosnando para os presentes. O cão estava contido com focinheira e enforcador, mas sua aparência seguiria amedrontando aquelas pessoas — talvez pelo resto da vida.


O homem tinha uma lista visivelmente maior que a quantidade de pessoas na sala. Não disse nada. Sentou-se numa das cadeiras vazias, com o cachorro ao lado. Armando se apavorou com a possibilidade de uma chamada por ordem alfabética. Sentia desde o início um pavor por estar ali. Acumulava desde criança medo de cachorro, claustrofobia e ansiedade.

O recrutador começou a leitura pelo nome de Zacarias, um dos homens. Desapareceu com ele pela passagem secreta, que se fechou atrás dos dois e do cão. Dez minutos depois, o rottweiler  reapareceu, acompanhado pelo tutor, ambos com cara de poucos amigos.


O recrutador voltou à cadeira, levantou-se para ir ao bebedouro e trouxe um copo de água. Tirou a focinheira do cão e pôs o copo diante dele. O cachorro bebeu sofregamente cerca de 20% da água antes de derramar tudo e destroçar o copo plástico como se fosse um desafiante.

Focinheira recolocada, sentou-se novamente ao pé do dono.

A próxima a ser chamada foi a mulher: Nanci. Sumiram porta adentro. A demora dessa vez foi bem maior. Inquietante.


O cachorro levou mais de meia hora para apontar o nariz na porta, seguido pelo dono, agora com aparência plácida, como quem vivera uma experiência interessante.

A claustrofobia de Armando chegava ao limite. Precisava sair dali. Bexiga e intestino se associavam à perturbação psíquica e o levavam à pior sensação que já tivera. Foi quando ouviu seu nome.


Levantou-se, mas o recrutador não levantou a cabeça e disse o nome seguinte: Alfredo.

— Vocês estão dispensados. Preenchemos as duas vagas! — disse o RH.


Armando ainda tentou argumentar, mas o cachorro, mesmo contido, deu sinais de reprovação.

A saída foi pela passagem quase secreta. Lá dentro, fotos de personalidades conhecidas, diversos terminais de computador exibindo notícias falsas sobre o governo, gráficos nas paredes, bandeiras do Brasil e camisas da seleção brasileira de futebol. Uma grande foto do presidente dos Estados Unidos dominava a parede principal. Uma outra, menor, trazia o primeiro ministro de Israel.


O anúncio — “gente sem experiência, ambiciosa, sem exigência de escolaridade e disposta a fazer grandes esforços para alcançar seus objetivos” — passou a fazer sentido imediatamente e estava colado numa parede em letras garrafais.


Armando teve ímpetos de quebrar tudo, mas trocou olhares com o rottweiler  e mudou de ideia.

Já estava na rua, numa saída alternativa espremida entre um botequim e um sebo que, aliás, fazia jus ao nome como poucos, quando acordou e correu para o banheiro.


Amanda, a namorada, tinha razão.

Estava lendo demais o noticiário político.

Precisava se distrair mais, beber menos.

E comer melhor.

 

Rio de Janeiro, junho de 2Lanca026.


Lançamento do Samba SOU MAIS BRASIL, com Junior, pela torcida brasileira na Copa do Mundo.

Música de Franco e Alceu Maia (Cedro Rosa)

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