As Árvores Que Não Veremos Crescer
- David Gertner

- há 12 horas
- 5 min de leitura

Sobre gratidão, legado e a estranha capacidade humana de amar um futuro que jamais habitará.
Existem histórias que atravessam os séculos como sementes carregadas pelo vento.
Elas surgem em lugares separados por oceanos, aparecem em culturas que jamais se encontraram, vestem-se de idiomas diferentes e assumem formas variadas, mas continuam transportando a mesma verdade essencial. Como rios subterrâneos, desaparecem por algum tempo e depois voltam à superfície em terras distantes, como se estivessem respondendo a uma pergunta que acompanha a humanidade desde o início.
Uma dessas histórias costuma vir disfarçada de árvore.
Os gregos admiravam aqueles que plantavam oliveiras sabendo que os frutos amadureceriam para os filhos e netos. Na tradição judaica, uma antiga narrativa conta que Honi encontrou um homem plantando uma alfarrobeira. Ao saber que a árvore levaria muitas décadas para produzir, perguntou por que alguém dedicaria tanto esforço a algo cujo benefício provavelmente nunca desfrutaria. O homem respondeu que encontrara o mundo repleto de árvores plantadas por seus antepassados e que agora fazia o mesmo por aqueles que viriam depois dele.
A beleza dessa história não está na árvore. Está na maneira como ela nos convida a olhar para o tempo.
Ao longo dos séculos, povos diferentes encontraram formas distintas de expressar a mesma intuição. Em algumas culturas ela aparece como um dever para com as gerações futuras. Em outras, como uma responsabilidade para com os ancestrais. Mas talvez nenhuma dessas formulações alcance inteiramente o que torna essa ideia tão duradoura. A linguagem da obrigação explica apenas uma parte do fenômeno. O dever pode levar alguém a cumprir uma tarefa. Raramente explica por que alguém a realiza com generosidade.
Talvez a história da alfarrobeira tenha sobrevivido por tanto tempo porque fala menos de responsabilidade do que de gratidão.
O velho não está apenas pensando no futuro. Está respondendo ao passado.
Quando olha ao redor, percebe que quase tudo aquilo que tornou sua vida possível chegou até ele pelas mãos de pessoas que jamais conheceu. As árvores que oferecem sombra, os caminhos que ligam cidades, os conhecimentos preservados em livros, as histórias transmitidas de geração em geração, as instituições que organizam a vida coletiva — tudo isso nasceu do trabalho, da imaginação e do cuidado de pessoas que viveram antes dele e que jamais poderiam imaginar quem se beneficiaria de seus esforços.
Essa percepção costuma passar despercebida porque nos acostumamos às heranças que recebemos. Caminhamos por ruas que não construímos, habitamos casas erguidas por desconhecidos, falamos uma língua que não inventamos, utilizamos conhecimentos que não descobrimos e participamos de tradições cuja origem frequentemente ignoramos. A familiaridade torna invisível aquilo que deveria nos espantar.
Quase tudo o que sustenta nossa existência chegou até nós vindo de longe.
Talvez a civilização seja precisamente isso: uma longa corrente de presentes anônimos atravessando o tempo.
Cada geração recebe muito mais do que produziu sozinha. Recebe uma herança de conhecimento, memória, arte, instituições, valores, descobertas e sonhos acumulados ao longo de séculos. Recebe um mundo inacabado e imperfeito, mas infinitamente mais rico do que aquele que seria capaz de criar por conta própria.
E então surge uma pergunta silenciosa.
O que faremos com aquilo que recebemos?
A resposta ajuda a explicar não apenas o destino de indivíduos, mas também o destino de sociedades inteiras. Existem épocas em que uma comunidade parece comportar-se como proprietária de sua herança, consumindo-a como se fosse inesgotável. Existem outras em que ela se vê como guardiã temporária de algo que não lhe pertence inteiramente, algo que deverá ser transmitido adiante.
As grandes catedrais da Europa oferecem uma imagem particularmente bela dessa disposição. Muitas levaram séculos para ser concluídas. Aqueles que assentaram as primeiras pedras sabiam que jamais veriam as torres prontas, os vitrais concluídos ou os sinos ecoando sobre a cidade. Ainda assim trabalharam. Não porque esperassem contemplar o resultado final, mas porque compreendiam que algumas obras pertencem a uma escala de tempo maior do que uma vida humana.
Uma floresta pertence a essa escala.
Uma universidade pertence a essa escala.
Uma família pertence a essa escala.
Uma cultura, uma língua e uma civilização também pertencem a essa escala.
Vivemos, porém, em uma época que frequentemente nos incentiva a medir o valor das coisas pela rapidez com que produzem resultados. Esperamos retornos imediatos, recompensas instantâneas e soluções rápidas. Nesse contexto, a figura do homem plantando uma árvore cujos frutos jamais colherá parece quase incompreensível.
Mas talvez seja justamente por isso que ela continua retornando.
Ela nos recorda algo que sabemos e esquecemos repetidamente. Não somos seres isolados movendo-se entre o nascimento e a morte. Pertencemos a uma corrente muito mais longa. Recebemos um mundo que começou antes de nós e deixaremos um mundo que continuará depois de nós.
Poucas ideias são tão simples e, ao mesmo tempo, tão difíceis de absorver.
Não somos nem ponto de partida nem ponto de chegada.
Chegamos a um mundo que outros prepararam para nós. Encontramos estradas abertas, conhecimentos acumulados, histórias preservadas, instituições imperfeitas, mas funcionais, e árvores cuja sombra raramente nos perguntamos quem plantou.
E partiremos antes que a obra esteja concluída.
Por um breve intervalo de tempo, ocupamos o lugar onde passado e futuro se encontram. Recebemos algo daqueles que vieram antes e, conscientemente ou não, preparamos o terreno para aqueles que virão depois. A maior parte desse processo acontece sem que percebamos. Quando ensinamos uma criança, preservamos uma tradição, escrevemos um livro, protegemos uma instituição ou simplesmente cuidamos de alguém, estamos participando de uma história cujo desfecho jamais conheceremos por completo.
Talvez essa seja a verdadeira sabedoria escondida na velha história da alfarrobeira.
A vida não consiste apenas em receber nem apenas em realizar. Consiste em participar.
Entre os mortos que nos legaram o mundo e os ainda não nascidos que um dia o habitarão existe uma ponte invisível construída através das gerações. Durante algum tempo, somos chamados a ocupar esse lugar.
E talvez a civilização exista porque, apesar de conhecermos a brevidade de nossa própria existência, continuamos capazes de cuidar de coisas que durarão mais do que nós.
Plantamos. Outros colherão.
Assim como colhemos, todos os dias, aquilo que jamais plantamos.
David Gertner, Ph.D., é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, prepara o lançamento de A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e mantém o website www.davidgertner.com�.
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