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CARNAVAL



 

O posto de saúde do bairro atendia as favelas rivais que ocupavam as duas encostas do Morro Alto. Ao lado havia - e ainda há - o Morro Baixo, coberto pelo capim alto que se incendiava todos os anos e por uma pequena mata em sua parte mais alta. Eventualmente, servia de refúgio para rivais de ambas as facções, mas não havia sinais de ocupação humana permanente. É uma lembrança permanente das transformações que a região sofreu ao longo do tempo.


A rotina do posto de saúde, no carnaval, era dominada pelo atendimento a bêbados e outros usuários de drogas. Algumas agressões e até baleados eram também registrados, mas, de maneira geral, reinava certa calma. Uma tranquilidade que até destoava do dia a dia corrido da periferia dos complexos de favelas. A própria equipe estava relativamente reduzida no atendimento. A calmaria, no entanto, foi quebrada pela chegada de uma ambulância com as sirenes no volume máximo. Toda a pequena equipe se mobilizou. Uma grávida adolescente corria risco. Foi imediatamente atendida e levada à modesta maternidade do posto, onde deu à luz uma menina saudável e linda. 


Poucos minutos depois, um carro de polícia, também com as sirenes no último volume, encostou na frente do posto com uma grávida de mais de 50 anos, igualmente em risco. A mesma equipe, agora ainda menor e desfalcada de alguns intensivistas que ficaram cuidando da primeira grávida, atendeu com a presteza de sempre e garantiu a vinda de mais uma criança. Agora, um menino, também saudável e ativo, apenas um pouco abaixo do peso previsto.


Cada uma das duas grávidas vinha de uma das favelas, o que não criava nenhum desconforto no posto, considerado território neutro e respeitado pelas facções.

As crianças cresceram separadas pela geografia, ao menos até o início da vida escolar regular, por volta dos sete anos, quando foram estudar na mesma escolinha municipal. Inicialmente em turmas separadas, foi só aos dez anos que se descobriram, já na mesma turma, nascidos praticamente ao mesmo tempo, e se aproximaram. Tatiane, a menina, crescia linda, capaz de desviar a atenção de meninos de dez anos, que naquela fase da vida em geralpreferem a companhia de outros meninos.


O menino se chamava Isaque. Teve o nome inspirado na Bíblia por ser filho de pais idosos, tal qual Isaque, filho de Abraão. Era o xodó das professoras, preferido das meninas e dos meninos, porque gostava de aprontar na escola, apesar do desempenho mediano. Não era, definitivamente, bem-comportado.


O convívio dos dois na escola era o melhor possível. Mesmo nos momentos em que Isaque reunia sua horda de pequenos malfeitores para incomodar as meninas, fazendo um bullying infantil que as incomodava muito, tudo cessava diante da primeira reclamação de Tati, única pessoa, além das professoras, a desafiar sua liderança.


Aos 13 anos, eram namoradinhos. Já sabiam, a essa altura da vida, que a convivência se restringiria à escola. Na favela, isso se aprende cedo.


Isaque iniciou o ensino médio em outra escola, um pouco mais distante. Isso complicou a rotina de encontros diários com Tati, matriculada em um colégio ainda mais longe, em outro bairro. Conseguiam se falar pelo celular, mas os encontros começaram a rarear muito.

Isaque, desde cedo, mostrava alguma facilidade com instrumentos de percussão. Não demorou até que recebesse um convite para tocar tamborim na bateria da grande escola de samba próxima.


Em paralelo, dada a popularidade do garoto e sua notória intimidade com pequenas transgressões, não custou a ser recrutado para o tráfico, para desespero da mãe, do pai e da irmã - bem mais velha - que já não morava na favela. Ele não resistiu às ofertas de boa vida, alguma autoridade e uma arma na mão. E ainda viriam o assédio das meninas, o respeito dos outros moleques e alguma marra na bateria, onde era um bom tamborinista.


A notícia da adesão ao tráfico não chegou à direção da escola de samba, mas chegou ao diretor de bateria, que chamou Isaque para uma conversa. Ponderado, disse que aquilo não era bom para ele nem para ninguém, que tinha vivido a mesma coisa, que também fora avião do tráfico, mas deixara aquela vida, etc. Ao invés de ouvir, Isaque disse que, se não continuasse na bateria, colocaria o tráfico atrás do diretor, que já tinha dívida antiga com o “movimento”, desde que largara tudo. Tinha aprendido o pior jeito de lidar com as coisas.


Tati também tinha aprendido coisas. Sempre fora inteligente. Aos 15 anos, tomara consciência de que sua beleza era capaz de impressionar as pessoas, muito mais que seus coleguinhas de escola, dos quais já conseguia favores diversos apenas em troca de beijinhos ou falsas promessas. Aos 16, hipnotizara um velho bicheiro que viria mais tarde a ser o patrono da escola de samba que ela frequentava para encontrar secretamente com o Isaque e onde também se destacava como passista. O namoro nunca terminara de fato, apesar dos encontros menos frequentes. O comportamento de Isaque, agora muito mais senhor de si, por vezes até armado, não agradava muito a Tati. Mas ela gostava dele e não se sentia mais capaz de dar ordens, visto que ela mesma considerava ter transgredido um pouco mais, inclusive deixando de ser exclusivamente dele.


O velho bicheiro lhe fazia todas as vontades. E o que Tati dava em troca não era particularmente doloroso para ela. Aprendia muita coisa, e o velho não a cansava muito. O bicheiro, senhor de si, mas casado e sem querer conflito com os chefes do morro, em poucos anos conseguiu a liderança da escola e, como única exigência, pediu o posto de rainha da bateria para Tati. Em poucos anos, ao completar vinte, era uma mulher de atributos de beleza impactantes — talvez mais ainda por serem naturais.


Por seu lado, consolidado na bateria da escola de samba e também como homem de confiança da chefia do tráfico no morro, Isaque ia sobrevivendo sem se arriscar na linha de frente, sem participar de tiroteios e, principalmente, ainda com ficha limpa na polícia, o que garantia certa tranquilidade para si, para os pais e até para Tati, que pensava em deixar aquela paixão juvenil, mas dava sempre um jeito de voltar.


O patrono começou a se incomodar com o namoro de Tati e Isaque. Sabia, desde o início, que dividia a pequena com um garoto muito mais novo, namoradinho de infância, marrentinho, etc. Era casado havia muitos anos e não abriria mão do casamento. Podia até não ir bem, mas custaria caro demais uma separação naquela altura da vida. Observava com atenção os movimentos de Tati e os encontros na quadra. Forçava-se a não parecer contrariado quando a protegida voltava descabelada dos amassos com o garoto do tamborim. Até que decidiu colocar alguns de seus homens de confiança no encalço do garoto, sem que ele percebesse. Talvez fosse bom que ele levasse um susto. Nada grave, mas alguma coisa que o tornasse menos senhor de si, que o fizesse entender que a vida não é aquela festa toda.


Os homens não entenderam direito, mas não fizeram mal a Isaque. Ao contrário, voltaram para o chefe com a informação de que ele era um dos homens de confiança da chefia do tráfico no morro. Sucupira — esse era o nome do bicheiro — sorriu satisfeito. Agora, sim, poderia inclusive dar cabo do garoto e colocar a culpa em alguma facção rival ou na milícia, por exemplo.


A descoberta era um trunfo grande demais para ser desperdiçado. Teria Tati em definitivo, poderia dar a ela uma viagem de volta ao mundo como consolo pela perda do casinho juvenil. Esqueceria rápido. “Essas mocinhas preferem uma bela conta bancária a um amantezinho…”, pensava. E sua crença na moral e nos bons costumes não podia admitir que sua menina andasse com um traficante!


Começou a maquinar o projeto. O carnaval se aproximava a passos largos, e a escola se preparava para fazer um desfile inesquecível. O enredo baseava-se na antiga lenda romana de Píramo e Tisbe, na qual dois jovens apaixonados cometem suicídio. A lenda, dizem os especialistas, foi uma das inspirações de Romeu e Julieta, de Shakespeare.


Isaque fora promovido, pouco antes do carnaval, a diretor de bateria, um dos auxiliares do mestre. Tatiana vinha como rainha de bateria, logo à frente dos ritmistas.

Sucupira não sabia se seria um bom momento para a ação. A escola era uma das favoritas, e uma morte poderia abalar o ânimo da agremiação. Sempre havia o risco de alguém desconfiar dele, mas havia muitos álibis. Isaque era do tráfico, era da favela, era marrento.

Chegou o carnaval sem que tomasse a decisão de mandar um jagunço puxar o gatilho, jogar um carro em cima dele ou coisa que o valha.


Os ensaios técnicos foram especialmente dolorosos para Sucupira. Os pombinhos, como se soubessem o ódio que provocavam, beijavam-se a cada paradinha da bateria, faziam poses sensuais toda vez que se encontravam em algum ponto do desfile. Eram ovacionados pelos demais componentes. A verdade é que Tati já não aguentava mais aquele velho pegajoso. Ele tinha decidido que a convenceria com base em suas posses e seu poder, mas Tati também decidira que investiria seu poder de fogo na recuperação de Isaque. Queria que ele saísse do tráfico e fosse com ela para outro lugar. Talvez pudessem até continuar no samba, paixão comum, mas não ali, com tanto risco. Aproveitaria para se afastar em definitivo de Sucupira.

O dia do desfile chegou. Para evitar que as cenas constrangedoras continuassem, Sucupira conseguiu, junto à direção de carnaval, que uma atriz famosa e reconhecidamente sambista fosse convocada para o lugar de Tati à frente da bateria. Tati, por sua vez, foi deslocada para o carro abre-alas, numa função de destaque absoluto.


O mal-estar dominou parte da escola, mas a presidência, exercida por um laranja de Sucupira, apressou-se em dizer que a escola precisava daquela visibilidade para garantir mais apelo público e mais chances de vitória.


A montagem da escola, no sambódromo, foi tensa. Tati tinha medo de altura, e o carro era enorme. Pediu socorro a Isaque para subir. Foi prontamente atendida. Sucupira viu a cena e espumou de ódio. Chamou um de seus homens, atirador de elite, posicionado do lado de fora da avenida dos desfiles. Se uma bala perdida atingisse Isaque, seria o melhor dos mundos. Cano longo, tiro preciso a 200 metros. Em caso de erro ou de outra vítima fatal, outro homem abateria o primeiro atirador — informação que o primeiro não tinha, obviamente.


Tati não conseguia se manter calma no alto do carro após ter sido posicionada pelo guindaste, junto com Isaque. Ele, por sua vez, viu que havia escadas de escape e decidiu ficar junto a ela até que se acalmasse. Então desceria e tomaria seu lugar na bateria. Sucupira observava, frio. O “esquenta” da bateria começou. O som alto e o impacto que causa nos espectadores seriam o fundo para a queda do corpo inerte de Isaque, que já estava na alça de mira de um atirador competente.


Os dois ou três minutos que Isaque permaneceu com Tati no alto do carro pareceram durar uma eternidade para o Sucupira. Tinha o controle da situação, observava tudo e mantinha seu atirador atento por mensagens codificadas no celular. A tensão do momento, no entanto, foi demais para o velho bicheiro. Seu histórico de exageros e negligência com a doença coronariana cobrou o preço. Antes de enviar a mensagem que poderia decretar a morte de Isaque, o coração entrou em colapso. O infarto fulminante o atingiu quando se preparava para tomar a decisão, no primeiro setor dos desfiles, próximo ao carro abre-alas.


A ambulância teve de passar entre as alas já formadas na concentração. Um de seus homens, pelo rádio, desmobilizou o esquema preparado para atirar em Isaque.

A escola atrasou. Uma comoção geral tomou conta dos componentes. Sucupira era querido – e em certa medida, temido - na comunidade. As redes de informação, oficiais e paralelas, passaram a divulgar a morte súbita do patrono da escola, deixando o próprio desfile em segundo plano.


No alto do carro, sem entender o que acontecia, Isaque e Tati aguardavam o alinhamento para que ele descesse. Em meio à confusão e ao esforço de Isaque para acalmar a Tati, tinham feito juramentos mútuos. Ela deixaria o bicheiro e ele deixaria o tráfico.


A promessa dela, descobriria logo, seria mais simples de cumprir.

 

O desfile foi lindo.

 

Rio de Janeiro, fevereiro de 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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