O Corpo em Si versus o Corpo Útil
- Eleonora Duvivier

- há 1 dia
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Um dos santos decretos de Kant estabelece que toda pessoa deve ser tratada como um fim em si mesma, ao invés de usada como um meio para qualquer finalidade. Certamente. Kant considerou o que veio a chamar “Reino dos Fins” como uma ideia regulativa, um ideal moral, e não uma realidade empírica. Ademais, justificou a dignidade de cada pessoa- o que lhe dá o mérito de ser um fim em si mesma, por sua racionalidade, no caso, sua capacidade de se auto legislar de acordo com o imperativo categórico, princípio puramente formal, racional e universalizante.
Onde estaria a dignidade de seres irracionais como os bebês, os animais, e tantos outros?
No campo da moral, o dualismo Kantiano entre a superioridade da razão e a irrelevância do elemento irracional- que o filósofo chamou de “inclinações” - como os sentimentos e motivos pessoais, é tão desumano quanto, no campo da epistemologia, o dualismo cartesiano entre a mente e a matéria, res cogitans e res extensa, pensamento e corpo físico. Tanto um quanto o outro inferiorizam a concretude da existência, como a dimensão circunstancial dos fatos, e a própria individualidade. Mas de tal forma marcaram a civilização ocidental que, mesmo depois do existencialismo, que visou recuperar a significação do individuo e validar a sua dor existencial, a cisão que criaram se enraizou em nosso ser e o corpo de cada um de nós virou um meio de transporte da cabeça (morada da mente), do rosto (meio de comunicação) e das mãos (meios de produção).
Em poucas palavras, nós mesmos nos usamos, nós mesmos nos tratamos como meios, ao invés de fins em si mesmos. Por outro lado, a mentalidade oriental é holista, por isso se diz, ou se dizia, que enquanto o Ocidente é científico, o Oriente é místico. A ciência classifica: divide. O misticismo une.
Na prática do Tai Chi, por exemplo, o corpo, a respiração, e a mente, visam alternar o Ying (suavidade e aceitação) e o Yang (ação e firmeza) com harmonia. Tudo em nosso ser contribui para o Chi (a energia vital) se manifestar através dos nossos movimentos. Um outro exemplo é a massagem ayurvédica facial a que me submeti outro dia. Me fez perceber que o simples fato do meu rosto ser manuseado e valorizado independentemente de fins estéticos, ou seja, de ser um meio para uma imagem mais bonita de si, foi para mim uma redescoberta de todo o meu ser.
Sem entrar em muitos detalhes técnicos, essa massagem estimula os pontos “marma”, que se comparam aos pontos reguladores das emoções na medicina tradicional chinesa. Que diferença de como nós mesmos tratamos o nosso rosto, usando-o em função da aparência, e que contraste com a maneira com que a ciência cosmética atua neste, com os seus lasers, make-overs, Botox, etc., ignorando totalmente a sua ligação com o resto do corpo.
Os toques ayurvédicos no meu rosto se refletiam para outras partes do corpo e despertavam pensamentos esquecidos, alguns deles até mesmo ligados a conflitos ou motivos de tristeza que deveriam se tornar conscientes, e vieram à tona me trazendo alívio.
Outra coisa foi a sensação de regredir para um estado intrauterino, quando os dois lados do meu rosto, incluindo as orelhas, foram cobertos pelas mãos da massagista com pressões e movimentos suaves, como se fossem uma envolvente água morna. Senti o meu ser em si, tendo o meu corpo finalmente sendo liberto da condição de ser meio de transporte e me comunicando o universo que constitui, unido à minha mente. No fim da sessão, renasci.
O ideal Kantiano da dignidade de cada ser em si é um belo ideal. Mas essa dignidade deveria ser justificada através do amor, ao invés da racionalidade. Quando amamos alguém, esse ser não desperta somente desejo, mas fascínio; contemplação infinita. Ele é ele, ponto. Logo, ele é tudo. Essa é a magica do ser em si. Na verdadeira amizade, também rola o prazer de se estar com o amigo/a, por ser ele/ela, quem são. O Reino dos Fins, ao contrário de ser uma sistemática comunidade governada pela lei racional desencarnada, seria o paraíso onde todos se amam, todos são sujeitos e objetos de contemplação ao mesmo tempo, ao invés de meios utilitários de produtividade ou de qualquer outro fim.
Mas em louvor a Kant, quero chamar atenção para o sublime tom reverencial com que ele se refere à racionalidade como fonte da lei moral. Diante disso, devemos esquecer o imperativo categórico e nos focar na reverência religiosa de tão grande filósofo. Nela, a humanidade de Kant se denuncia e seu amor a Deus transborda. Nela, Kant se permite transmitir a espécie de êxtase poético que deve ter sentido ao fazer o paralelo entre a grandeza da criação divina e a interioridade do homem: Duas coisas preenchem a mente com uma admiração e maravilhamento sempre novo e crescente, tanto mais refletimos constantemente sobre elas: O céu estrelado acima de mim, e a lei moral dentro de mim.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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