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CONSELHOS

 

“A mente humana sempre pode nos surpreender. Não só por sua capacidade de criar, sistematizar e tornar compreensíveis as coisas, os sentimentos, a arte, a ciência e tudo o mais que forma a fortuna do conhecimento humano — tudo aquilo que nem a mais completa das enciclopédias jamais conseguiu juntar e que, mais recentemente, a inteligência artificial almeja igualar —, mas também pelas surpresas que oferece quando altera seu modo previsível de funcionamento e deixa de se alinhar com a razão preestabelecida, passando a se guiar por uma lógica própria, desprovida de conexão com a realidade objetiva.”


Foi o que um escritor amigo escreveu, convidado a fazer o texto de apresentação do livro que tornava público o processo de acompanhamento do Levi no departamento de neurologia clínica de certa universidade renomada.


Levi de Tal, 40 anos, professor de história contemporânea e bacharel em física por diletantismo, tendo cursado as duas faculdades simultaneamente e concluído ambas aos 22 anos de idade, a certa altura da vida perdeu a capacidade de estabelecer sinapses lógicas e passou a entender que era, ele mesmo, parte fundamental nos acontecimentos mais significativos do seu tempo.


Os primeiros sintomas foram discretos. Quem testemunhou, ainda que estranhasse, pode mesmo ter levado na esportiva. Ao final de uma aula sobre as ditaduras latino-americanas, o Levi saiu apressado, dizendo que precisava conversar com o Milei. O estranho presidente argentino, cuja cognição também merecia um estudo específico, teria solicitado uma consulta ao professor a respeito do peronismo, e Levi precisava convencê-lo da legitimidade de Perón e Evita, ícones políticos populistas daquele país, mas que não podem ser confundidos com os militares golpistas posteriores. Passou quase despercebido.


Um atraso na semana seguinte foi justificado de um jeito um pouco mais radical. De acordo com a mensagem que enviou para um grupo de alunos, precisava muito mediar uma reunião entre os ministros de relações exteriores das duas Coreias, porque a situação ameaçava fugir ao controle. E a diferença de 12 horas de fuso horário o obrigara a perder a noite para as tratativas iniciais; por isso tinha perdido também a hora de acordar.


O jeito sempre leve e irônico de Levi fazia com que aquele tipo de afirmação soasse natural e arrancasse sorrisos discretos de seus alunos. A Norminha, aluna aplicada e que também fazia um segundo curso de graduação, muito interessada nas aulas do prof. Levi pela didática e pelo conteúdo sempre absolutamente relevante, foi quem desconfiou primeiro.


Sendo um pouco mais velha que a média da turma — já era graduada em relações internacionais e tinha sentido falta de um conteúdo de história mais aprofundado —, vez por outra encontrava o professor em eventos sociais, tendo mesmo tido com ele um affair um pouco antes de se matricular na turma de história contemporânea. O relacionamento não avançou, mas a amizade permaneceu. Tratavam-se muito bem, com um respeito que a própria Norminha às vezes achava exagerado.


Tinha um pouco mais que admiração acadêmica pelo Levi, mas mantinha isso para si, sem demonstrações públicas de afeto para além da relação de professor e aluna.

A evolução dos delírios de Levi, tratados como anedota pela maior parte da turma, começava a preocupar seriamente a Norminha.


Uma das aulas acabava de ser cancelada porque a situação na Ucrânia tinha se agravado e uma convocação emergencial do Parlamento Europeu obrigara Levi a viajar às pressas para Bruxelas, de acordo com a mensagem que ele enviou pelo aplicativo de mensagens ao grupo da turma.


E mandou cópia da passagem, o que acendeu um alerta confuso para todos.

Quatro dias depois, data da aula seguinte, Levi pedia desculpas pela ausência anterior, comentava fatos recentes de relevância histórica e os relacionava com o surgimento e a manutenção da OTAN durante a Guerra Fria, esclarecendo diversas dúvidas e levantando situações de bastidores que foram fundamentais para as adesões posteriores etc.

De repente, a aula foi interrompida por uma secretária da universidade, que trazia em mãos, para Levi, um telefone celular e informava tratar-se de uma urgência. Levi atendeu, sério e célere, ao telefonema e manteve uma conversa em inglês, que dominava perfeitamente e com sotaque britânico.


Quem ouviu diz que, entre diversas interjeições de espanto, foi possível entender que certo Charles, por vezes chamado de “My King” por Levi, estava em apuros e precisava de conselhos. O telefonema durou alguns minutos e a aula prosseguiu como se nada tivesse acontecido, além de uma breve interrupção do fluxo de pensamentos.


Norminha, presente à aula, fez anotações sobre o que ouviu durante a aula e a ligação. Preocupava-se verdadeiramente com Levi, e sua inquietação aumentava ao vê-lo agir daquela maneira.


Foi então que, após consultar informalmente um tio neurologista, Norminha decidiu conversar diretamente com Levi. Sugeriu um chope em algum bar discreto, disse que pretendia tirar dúvidas sobre um trabalho que outro professor havia demandado e que tinha evidente relação interdisciplinar com o que discutiam em sala com Levi. Foi fácil convencê-lo.


No bar, entre lembranças e discussões de caráter acadêmico, Norminha notou uma estranha inquietação no professor. Tentou acalmá-lo; imaginou mesmo contar a verdade sobre a intenção da reunião — que vinha estranhando seu comportamento, seus contatos imprevistos com personalidades mundiais, o risco de se tratar de uma espécie de delírio.


Não conseguiu completar as frases. Levi ligou imediatamente para um número desconhecido e, em inglês fluente, mas agora com um forte acento texano, disse a um interlocutor chamado Donald que não continuasse com as ações.


Desligou abruptamente e fez outra ligação, atendida rapidamente por alguém identificado por Levi como Neta ou Bibi, com certa intimidade, para quem também fez considerações em inglês sobre a necessidade de recuo ou redução na intensidade do que vinha sendo feito.


Norminha assistia assustada, sem conseguir elaborar uma reação adequada ao que via e ouvia.

Tomou o telefone das mãos de Levi. A reação dele foi violenta, falando impropérios e acusando Norminha de interferir negativamente nos rumos da humanidade ao impedir que ele trabalhasse pela paz. Agrediu fisicamente Norminha para recuperar seu aparelho.


Norminha sentiu muito o ocorrido, apesar de perceber, horas depois, pelo noticiário, algum efetivo recuo nas ações de guerra, tal como Levi defendia. Seria coincidência?


Por via das dúvidas, conseguiu, junto ao tio neurologista e com o apoio da polícia e da universidade, iniciar o tratamento de Levi.

E escreveu o livro.

 

Rio de Janeiro, março de 2026.

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