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DE ISCAS E ANZÓIS...



A Bruna herdou do pai o gosto por pescaria. Nada fazia a menina mais contente que embarcar no já malhado barquinho de alumínio com um baldinho de iscas, outro para colocar o que conseguisse pescar, uma garrafa grande de água, eventualmente uma bolsa térmica com refrigerantes ou cervejas, a depender da disposição, do dia ou do tempo que passaria no mar. Ela era minimalista, mas nem tanto.


Também gostava de pescar em rio. Ficava tranquilamente num barranco ou barco, com a vara de pescar na mão e o anzol mergulhado, esperando o tempo necessário até que algum peixe menos esperto mordesse e iniciasse aquela batalha que todo pescador conhece para trazer para o barco o nadador enganado pela isca.


Era na pescaria que refletia sobre a vida. Foi no barquinho, que ficava cuidadosamente guardado numa marina próxima, que decidiu algumas das coisas mais importantes da vida. Foi lá que tomou decisões sobre namoros, casamentos e separações — as dela e as dos clientes do escritório de advocacia onde trabalhava desde que se formara. Aliás, foi lá também que decidiu trocar a veterinária pelo direito, ainda jovem, depois de perder um de seus cachorrinhos agonizando e de entender que não conseguiria ter a necessária frieza para cuidar de um animal doente.


Mesmo dos peixes tinha uma compaixão que parecia contraditória: sempre comia ou repartia com os amigos o que pescava e jamais pescava em excesso ou espécies que estivessem no defeso, aquele período em que a pesca é proibida para garantir a reprodução. Também não fazia pesca esportiva. Não gostava da ideia de machucar o peixe se não fosse para comer. Desse jeito, pescando duas ou três vezes por semana, praticamente só comia peixe e os vegetais orgânicos que a irmã cultivava num sítio na serra.


O André também era pescador. Profissional. Filho de um dos fundadores da colônia de pesca vizinha da Bruna. O pai dela frequentava a colônia, mas era um intelectual meio boêmio que gostava da proximidade dos pescadores “de verdade”, como ele dizia. Acabou pegando gosto pela vida do mar e passou até a acompanhar a turma que ia ao mar, comprou o barco que agora era o escritório informal da Bruna e exigiu, na velhice, que suas cinzas fossem lançadas no ponto em que mais gostava de pescar. Foi exatamente quando Bruna saiu para jogar as cinzas do velho Haroldo que André reapareceu.


Andrezinho tinha sido o melhor amigo de Bruna no início da vida. Criados juntos na beira do mar, aprenderam a nadar antes mesmo de terem segurança suficiente para andar. Conheciam desde cedo mais espécies de peixes do que as outras crianças conheciam brinquedos ou heróis infantis. Foram unha e carne até os dez anos dela e os nove dele. Aprenderam a ler juntos e, se não frequentavam a mesma escola, dividiam os conhecimentos depois das aulas. Andrezinho voltava sempre exausto para sua casa na colônia de pescadores, e Bruna sonhava com as aventuras conjuntas quase todas as noites, no conforto de seu quarto todo decorado de peixinhos no apartamento com vista para o mar.


A separação traumática dos amigos aconteceu quando o pai de André não voltou do mar num dia de tempestade.

A mãe de André não via motivos para continuar morando na colônia e levou o filho com ela, sob veementes protestos e choro de Bruna, para a cidadezinha do litoral norte onde tinha nascido. Os pais de Bruna também tentaram outras possibilidades, ofereceram a casa para que eles ficassem, mas não conseguiram dissuadir a mãe decidida. Foram anos de saudades e nenhum contato.


A vida se desenrolou do jeito que deu. Bruna se tornou uma advogada relativamente bem-sucedida. André seguiu os passos do pai e a vocação que dividia com Bruna na infância e virou pescador. Chegou a tentar a carreira de mergulhador profissional, mas não se adaptou à rotina e aos equipamentos, apesar do fôlego privilegiado. Gostava mesmo era de nadar livre para recuperar as redes. Ao contrário de Bruna, pescava para sobreviver, e não por diletantismo. A falta de educação formal e a necessidade do sustento fizeram dele um operário do mar. Tinha metas a atingir e família para sustentar, inclusive a mãe.


O reencontro foi acidental. Bruna tinha se preparado emocionalmente para levar as cinzas do pai. Passou dias com a pequena urna em casa, ensaiando uma despedida definitiva. André tinha voltado à cidade pela primeira vez em vinte anos. Já era adulto, casado, com dois filhos pequenos e grandes apertos financeiros, que o fizeram vir tentar alguma coisa na colônia para reforçar o orçamento. Ainda era lembrado como o filho do mestre.


Pegou uma das embarcações pequenas e resolveu “sentir” de novo o mar onde dera as primeiras braçadas e começara a aprender o que guiaria sua vida. A poucos metros mar adentro, deu com um barco de alumínio que parecia familiar. Tudo no mar era um pouco familiar para ele, mas aquele barquinho tinha qualquer coisa de especial. Aproximou-se e viu uma mulher abrindo o que parecia ser um frasco para despejar um pó na água. Estranhou a cena. Nunca tinha visto coisa parecida. Finalmente, algo que não era familiar. Chegou bem perto e reconheceu definitivamente o barco. Bruna se assustou com a aproximação e reconheceu na hora o amigo-irmão de infância.


A pele muito queimada revelava a exposição contínua ao sol, mas não parecia remeter a lazer ou surf. O rosto enrugado, apesar da juventude, trazia marcas gritantes de sofrimento. A vida de Bruna tinha sido muito menos dura. A pele bem tratada evidenciava as diferenças.

Cada um disse o nome do outro com surpresa. Ele mais entusiasmado; ela mais contida. Ela explicou a emoção que sentia e o que fazia ali, jogando as cinzas do pai no mar.

Abraçaram-se como se ainda fossem crianças. 


Diferenças, êxitos, fracassos, romances, trabalho. Passado, presente e futuro. Tinham vidas consolidadas e distantes agora. Só o mar ainda os aproximava.

As histórias de cada um seriam contadas depois, no bar da colônia.

Os barcos, emparelhados, sacudiam no mar calmo.


Rio de Janeiro, março de 2026

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