DE TARDES E FONTES
- Leo Viana

- há 1 hora
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O menor dos problemas do Ascânio era esse nome esquisito. Repórter investigativo bem formado, é hoje conhecido pela qualidade e assertividade das fontes, pela capacidade de chegar antes em temas que grande parte dos colegas evitava e de transformar os assuntos em grandes pautas, discutidas dos bares das favelas aos escritórios da Faria Lima.
Mas não foi fácil chegar onde ele chegou. Conviveu com a desconfiança desde pequeno. As outras crianças riam do nome dele. Só no curso superior, quando todos parecem superar, ao menos temporariamente, o chamado “complexo da 5ª série”, alguém lembrou que ele era homônimo de um grande artista plástico construtivista, que tem obras expostas em alguns dos grandes museus do Brasil e do mundo. Mas foi uma suspensão efêmera. Em pouco tempo, já nos primeiros trabalhos, o bullying voltou com força, especialmente entre os jornalistas das corporações concorrentes, sempre derrotados na busca pelas primeiras informações sobre os assuntos mais escabrosos da República, passando por política, economia ou crimes comuns ruidosos.
Não raro, alguma notícia falsa era plantada, atribuída ao Ascânio e posteriormente desmentida por seus mesmos detratores, com algum comentário maldoso sobre seu nome ou sobre o fato de que ele deveria seguir o artista xará famoso e fazer esculturas. Foi preciso muita força de vontade para resistir. O início da carreira foi aos trancos e barrancos. Cobriu turismo, restaurantes, moda — menos o que achava importante. O texto enxuto, direto e ainda assim criativo foi seu cartão de visitas. Percebia, no entanto, que ainda não estava onde queria chegar.
E foi quase por acaso que se tornou um dos grandes.
Nosso herói perambulava pelo Centro do Rio de Janeiro, preparando, contra a vontade profissional, mas em nome da garantia do aluguel, uma matéria sobre os botequins que resistiram ao esvaziamento da região após a pandemia de Covid-19.
Já tinha entrevistado, de caderninho na mão, como um repórter de meados do século passado, frequentadores de mais de dez estabelecimentos, conversado com os donos, “sentido” o clima de relativo desânimo. Quando chegou ao último que tinha listado a partir de observações e da indicação de gente mais frequente que ele naqueles balcões e mesas, decidiu terminar a maratona com uma cerveja. O calor e o tema o obrigavam. Já tinha resistido demais. Era o meio da tarde, tinha comido vários salgadinhos e a sede era bem maior que a fome, apesar das águas com gás e de um ou outro refrigerante.
A cerveja veio no ponto, a garrafa nevada, do jeito que os cariocas gostam. Pediu antes de interpelar o dono do boteco ou de abordar algum cliente. Não tinha mais como resistir, apesar da restrição médica.
As poucas mesas do botequim estavam todas parcialmente ocupadas. Inclusive a do Ascânio, sozinho entre os quatro lugares. E foi ali que o improvável aconteceu.
A mulher bonita, bem vestida e aparentemente perdida naquele ambiente predominantemente masculino chegou com inesperada desenvoltura e abordou o Ascânio como se já o conhecesse, pedindo licença para sentar a seu lado.
Entre surpreso e incrédulo, deu licença à moça e aceitou de bom grado a companhia.
Ela começou a conversa dizendo que admirava o seu trabalho nas colunas de amenidades, mas que tinha com ela material que poderia transformar a sua vida de jornalista.
Ascânio não entendia direito o que estava acontecendo ali. Do nada aparece uma mulher desconhecida, simulando intimidade e com informações bombásticas sobre alguma coisa? Roteiro de comédia pastelão!
O silêncio de Ascânio diante da bela fonte inesperada era exatamente o que ela esperava. Disse que imaginava aquela reação desde que começara a acompanhar seus textos: um ouvinte ainda melhor que o redator minimalista de assuntos quase fúteis.
Pediu uma cerveja diferente da que estava na mesa, alegando que aquela normalmente lhe dava dor de cabeça. E, enquanto bebiam, disse a Ascânio que o escândalo que ela testemunhara envolvia gente muito importante e que a vida dela podia correr riscos.
Verdade que parecia a oportunidade de ouro para um repórter que desejava mais do que a carreira até ali lhe oferecia, mas a desconfiança, desenvolvida desde sempre, o impedia de cantar vitória antes do tempo. O que, afinal, podia ser tão impactante a ponto de justificar aquela abordagem?
Ela tirou um pendrive da bolsa de grife. Ascânio teve que conter o riso ao lembrar imediatamente de um personagem da política recente que teria levado um pendrive para fazer uma “denúncia internacional” absolutamente ridícula durante uma Copa do Mundo de futebol.
A moça notou a ironia do Ascânio, mas manteve a postura firme. Disse que não iria comentar o assunto ali, porque o risco era grande. Ela trabalhava no Centro e conhecia figuras que frequentavam os botequins das redondezas. Assumiu ainda que tinha seguido discretamente o Ascânio em sua peregrinação pelos botecos desde cedo, para espanto dele.
Sem ter o que responder, o que tornava perigosamente longo o tempo de silêncio, o jornalista resolveu falar. Fez perguntas sobre o que ela fazia, como tinha descoberto que ele faria a pesquisa naquele dia e o que a tinha feito escolher exatamente ele, até então sem experiência em investigação, para levar à frente um escândalo.
A interlocutora foi superficial nas respostas, mas reiterou o que já havia dito e que mais explicações estariam no pendrive.
Almoçaram quase silenciosamente a feijoada das sextas-feiras. Depois, o calor da tarde pedia um cochilo. Ela pagou o almoço numa ida ao banheiro, antes que ele pudesse fazer alguma coisa a respeito, e se despediu sem deixar nem o telefone.
Ascânio pegou o metrô na Presidente Vargas e subiu Santa Teresa de bonde, em meio aos turistas, dividido entre o trabalho que tinha feito e o pequeno pendrive que trazia consigo, sem saber o conteúdo e sem ter como reclamar ou obter informações novas, caso precisasse delas.
Entrou em casa e correu para o laptop.
O pendrive tinha uma enorme árvore de pastas de arquivos que levavam a apenas um documento de Word e uma planilha de Excel. Na planilha não havia nada. Um arquivo vazio.
O documento tinha um texto confuso, que juntava nomes de parlamentares e políticos diversos, empresários e receitas culinárias como moquecas, pratos de bacalhau e feijoadas. Não entendeu nada! Nada daquilo fazia qualquer sentido. Não havia sequer uma sequência lógica a seguir.
Pensou em desistir, mas aquele aparente monte de baboseiras poderia ter algum significado. A mulher tinha sido convincente, toda a situação parecia efetivamente que se desdobraria em algo sério. Matutou por muitos minutos até que lesse uma pequena parte do texto, posta entre parênteses numa estranha nota de rodapé na última linha daquela miscelânea de absurdos sem sentido. Ali estava a informação verdadeiramente relevante.
O dono do jornal fazia aquele teste com todos os repórteres que contratava. O desempenho do Ascânio nas atividades que ele já desenvolvia tinha impressionado a direção, e eles ainda não tinham aplicado o método. Agora, quando decidiram abrir uma editoria de jornalismo investigativo, era a hora de testar o moço. Tudo explicadinho. Era necessário persistir, ler tudo, atentar para cada detalhe.
O teste foi um sucesso.
O resto ele fez sozinho, montou sua própria rede de fontes e tornou-se um jornalista admirado.
A moça? Reencontraram-se depois de alguns anos, ele já consagrado. Ela era correspondente do jornal em outra capital e agora tinha vindo morar no Rio. Na época, foi chamada para ajudar no teste.
Almoçaram juntos, como da primeira vez. Saladas. Não era caso de feijoada.
Saíram juntos do botequim.
Tinham ambos a tarde livre.
E mais não se sabe.
Rio de Janeiro, março de 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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