top of page
criativos 2022.png

Discurso de candidato à Presidência

há 11 minutos
4 min de leitura

José Luiz Alquéres - Conselho Estratégico CRIATIVOS - Pensar, Fazer
José Luiz Alquéres - Conselho Estratégico CRIATIVOS - Pensar, Fazer

 

Meus caros eleitores, já os chamo assim, antecipando a decisão que espero que tomem ao final destas palavras. Venho lhes apresentar uma proposta que muitos brasileiros talvez esperem há décadas ouvir de um candidato à Presidência: simples de compreender, difícil de executar, mas possível de realizar.


Muitos querem a Presidência pelo poder, prestígio ou vaidade. Poucos se perguntam o que cada brasileiro deseja para a própria vida. Essa é a pergunta que me trouxe até aqui.

 

Minha resposta começa com uma imagem. Imaginem um número de trapézio num circo. Os artistas se lançam no vazio, giram no ar e encontram a mão firme do companheiro. É um espetáculo porque existe risco. Mas, lá embaixo, há uma rede. Se uma mão escapar ou um movimento falhar, ela não substitui o talento ou a coragem; apenas impede que um erro ou acidente destrua uma vida.

 

Essa é a sociedade que proponho: uma sociedade em que cada pessoa tenha liberdade para trabalhar, empreender, criar, prosperar e realizar seus projetos, mas saiba que, se cair, não encontrará o vazio. Encontrará uma rede. Uma rede de proteção social não é convite à acomodação. Pode ser uma condição da verdadeira liberdade, porque é mais livre quem pode tentar sabendo que um infortúnio não condenará sua família à ruína.

 

Essa proteção começa por um sistema de saúde decente para quem adoece ou sofre um acidente, mas vai além. Deve existir diante de desastres, crises econômicas e mudanças tecnológicas que eliminem empregos ou transformem profissões. Num século marcado pela digitalização, automação e inteligência artificial, não é razoável imaginar que alguém possa abandonar uma atividade exercida durante décadas e se reinventar sem tempo, formação ou apoio. Uma sociedade civilizada deve permitir que reaprenda, se qualifique e volte ao trabalho.

 

O trabalho não é apenas salário. Pode representar dignidade, pertencimento e sentido para a vida. Por isso preocupa a precarização de formas de trabalho que transferem quase todos os riscos ao indivíduo. O filme Você Não Estava Aqui (Sorry We MissedYou), de Ken Loach, retrata admiravelmente esse problema. Seu personagem principal torna-se entregador autônomo acreditando conquistar independência, mas descobre uma realidade em que, se não trabalha, não recebe; se adoece, sua família sofre; se algo acontece com o veículo, o risco é seu. O filme nos deixa uma pergunta incômoda: que espécie de liberdade é aquela em que o indivíduo é formalmente livre, mas não pode adoecer?

 

A história da humanidade é também a história da cooperação. Há uma conhecida narrativa atribuída à antropóloga Margaret Mead segundo a qual um importante sinal de humanidade teria sido encontrado no esqueleto de uma pessoa idosa cujo fêmur fraturado se apresentava consolidado. Uma pessoa nessas condições dificilmente sobreviveria sozinha. Alguém precisou alimentá-la, protegê-la e, possivelmente, carregá-la, mesmo quando pouco podia oferecer em troca. Essa precária rede de proteção de um clã ancestral expressa uma ideia essencial: civilização começa quando aquele que pode caminhar ajuda aquele que, naquele momento, não pode.

 

Corremos hoje o risco de construir uma sociedade tecnologicamente sofisticada e humanamente empobrecida, submetida à supremacia do ter sobre o ser. O que proponho é refundar algumas bases de nosso pacto nacional. Não proponho igualdade absoluta de resultados. Pessoas têm talentos diferentes, fazem escolhas diferentes e produzirão resultados diferentes. Uma sociedade saudável deve reconhecer o mérito, premiar a criatividade, estimular o empreendedorismo e permitir que os frutos legítimos do trabalho sejam desfrutados por quem os produziu.

 

Mas existe enorme diferença entre aceitar diferenças decorrentes das trajetórias humanas e aceitar que milhões vivam sem condições mínimas de saúde, educação, segurança, moradia e oportunidade. É legítimo que alguns prosperem mais do que outros, desde que exista uma base civilizatória capaz de assegurar a todos condições dignas de vida. O Brasil dispõe de riquezas naturais, energia, conhecimento, universidades e empresas. Tudo isso importa, mas uma grande nação também exige que seus cidadãos assumam algum grau de responsabilidade uns pelos outros.

 

Esse compromisso não aparece automaticamente nas estatísticas do PIB. Riqueza é indispensável e precisa ser produzida, mas a finalidade última da economia não pode ser apenas gerar números maiores. Deve ser permitir que pessoas reais vivam vidas melhores. Esse é o pacto que proponho: proteger quem caiu sem impedir que os demais continuem subindo; oferecer oportunidades em vez de dependência; reconhecer o mérito sem abandonar a solidariedade.

 

Por isso, a educação deve estar no centro deste projeto, não apenas como instrumento para aumentar salários, mas para ampliar a liberdade humana. Educar é ensinar a pensar, compreender, escolher e participar. É formar pessoas capazes não apenas de ganhar mais, mas de saber mais; não apenas de ter mais, mas de ser mais.

 

Quero uma sociedade que não condene o sucesso, mas que lhe dê significado. Que quem prospera possa desfrutar legitimamente do resultado de seu esforço e deixar às gerações seguintes não apenas patrimônio, mas exemplos e disposição para realizar novos projetos e contribuir para a sociedade.

 

A escolha diante de nós é simples. Podemos construir um país em que cada indivíduo luta sozinho para não cair ou um país em que todos sejam estimulados a subir mais alto, sabendo que existe uma rede lá embaixo. A rede não substitui o trapézio; a solidariedade não substitui o mérito; a proteção não substitui a responsabilidade.


Meu projeto pode ser resumido numa ideia: dar a cada brasileiro condições para realizar o máximo de suas possibilidades, sem permitir que um acidente da vida lhe retire o mínimo necessário à dignidade. Não prometo eliminar o risco da existência. Proponho impedir que o risco se transforme em abandono.

  

Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.




Chamada


Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro.


O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada.


Leia outros artigos de José Luiz Alquéres no portal CRIATIVOS!



Comentários


+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page