DUAS GOTAS
- Leo Viana

- há 2 minutos
- 4 min de leitura

Primeira viagem a trabalho do Euclides. O escritório, pequeno, fez um acordo com os profissionais sobre as viagens: até 200 km, ônibus comum ou carro alugado; entre 200 e 500 km, ônibus leito ou equivalente, ou carro alugado em caso de preferência; a partir de 500 km, avião.
O eventual acúmulo de milhas ou quaisquer bônus ficariam para o usuário, sem intervenção do escritório.
O Euclides era o mais novo da equipe e foi contratado principalmente para atender clientes em São Paulo e Belo Horizonte, o que faria dele um frequentador contumaz das estradas que saem do Rio.
Não gostava de dirigir, apesar de atender ao requisito para contratação, que exigia CNH. Na verdade, vivia até uma certa expectativa, já que não costumava viajar para esses destinos em sua vida privada. Embarcou num leito-cama por volta da meia-noite e começou, com uns 15 minutos de atraso, sua primeira viagem profissional.
A ansiedade, inicialmente controlada, aumentou sensivelmente com o início da viagem. Cada pequeno detalhe — o ar-condicionado, o som do motor, aquele “quarto coletivo”, que criava uma estranha sensação de “albergue sobre rodas” — tudo fez com que o Euclides sentisse um forte desconforto que o obrigou a tomar duas gotas do ansiolítico que tinha no bolso. Precisava estar descansado no dia seguinte.
Entregou-se rapidamente a um sono profundo. A maciez da cama, a temperatura amena e o ronco contínuo do motor minimizaram o efeito dos solavancos da pista, logo abaixo do piso. E sonhou!
Era soldado americano (tinha inglês fluente...) numa invasão ao Irã. Mesmo em sonho, foi a contragosto que embarcou num porta-aviões gigantesco, na companhia de outros mais de quatro mil homens. A maioria deles, no entanto, estava feliz com o projeto estadunidense de conquista do país persa. Só ele, aparentemente, discordava com veemência da empreitada.
Recebera um fuzil, munição, instruções de combate, um kit de primeiros socorros, alguns mantimentos desidratados e uma mochila, além das roupas e de um coturno desconfortável e levemente largo no pé. Devia atirar antes de perguntar. Afinal, sabia que normalmente quem fala árabe ou persa não responderia mesmo em inglês.
Era contrário a tudo aquilo. Era um cara de paz. No sonho também. Só queria seguir a sua banda de rock preferida e detestava essa lógica dos Estados nacionais. Achava que o mundo deveria ser um lugar sem fronteiras, onde todos pudessem circular livremente. Passava os dias, no cubículo onde dormia no porta-aviões, pensando num mundo livre, sem guerras ou disputas econômicas ou territoriais. Políticas, sim, mas baseadas na diplomacia e no diálogo, jamais no poder de fogo.
O soldado deslocado entrava na fila da comida imaginando que todos aqueles caras ali embarcados poderiam estar fazendo coisa melhor. Ajudando populações pobres, por exemplo.
Estavam prestes a desembarcar na terra estrangeira a ser conquistada, mas Euclides, omariner, queria mesmo era estar sentado na beira d’água, caniço na mão e samburá, esperando um peixe bom morder a isca. No sonho, se via muito mais Dorival Caymmi do que Gen. Montgomery ou qualquer outro militar envolvido em guerra. Se estava ali, era por imposição de alguém. E, como não comandava, não tinha qualquer poder sobre seu destino naquele conflito. Era para atirar nos outros e, óbvio, levar tiro até que chegasse sua hora de ir para casa, se sobrevivesse.
Ali, no sonho, começava a se manifestar uma ansiedade parecida com a que tinha sentido antes de tudo. E a solução agora não era um ansiolítico escondido em um dos bolsos do uniforme, mas a resolução objetiva daquilo que originava o problema.
Na véspera do desembarque, aconteceu uma visita surpresa dos líderes de Estados Unidos e Israel, patrocinadores do conflito. Verdade que, naquela altura, outros países já tinham tomado partido; especialmente porque o Irã já tinha bombardeado bases militares americanas em diversos países do entorno, Israel atacava qualquer coisa que se movesse em seu entorno e o fechamento do Estreito de Ormuz já vinha levando o preço do petróleo a patamares só conhecidos na crise de 73.
Os dois desceram do mesmo helicóptero e foram recebidos pelo comandante da embarcação, em traje de gala e ladeado pela elite dos soldados.
O Euclides tinha sido chamado às pressas para compor o batalhão de recepção. Andava sempre com o uniforme impecável, era extremamente educado e era, para todos os efeitos, um imigrante que tinha se adaptado perfeitamente ao american way of life.Falava inglês melhor que a maior parte deles.
Empunhando o fuzil, ficou posicionado na terceira fila do pelotão principal. Em sonho, nem tudo é tão definido. Lembra que via, vez por outra, alguns soldados a mais em sua frente, mas eles podiam ser só uma projeção do subconsciente. No entanto, lembra perfeitamente quando marchava em passo de ganso à frente de Trump e Netanyahu e viu que, por um momento, os dois estiveram um à frente do outro. Trump, mais alto, ocultava toda a figura de Netanyahu atrás de si. Nesse momento, lapso curtíssimo de tempo, sacou o fuzil e, com um único disparo, atingiu fatalmente os dois senhores da guerra.
Acordou suando, antes que, no sonho, fosse abatido pelos agentes da segurança da CIA e do Mossad.
O ônibus entrava no Terminal do Tietê.
A reunião foi ótima. Um tipo de alívio dominava o Euclides. O cliente da consultoria financeira elogiou muito o técnico.
Não continuaria tomando ansiolíticos. Talvez trocasse as viagens de ônibus por carros alugados, apesar da necessidade de adquirir mais experiência.
Ou talvez nada disso. Se seguisse com as viagens de ônibus e com os remédios, podia, vez por outra, salvar o mundo.
Só uma gota. Talvez duas.
São Paulo, abril de 2026
Leia outros artigos de Leo Viana no portal CRIATIVOS!
CRIATIVOS! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think Tank Do – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.o eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade














Comentários