Entre a Leica e a Inteligência Artificial: Claudio Bergstein Lança o Livro "Street Photo Graphy" no Rio
- Redação

- há 4 horas
- 6 min de leitura

Cláudio Bergstein, que já publicou prestigiosa coluna de fotos no Portal CRIATIVOS!, fala e seu novo livro Street PHOTO GRAPHY, que será lançado em 8 de Junho, na Livraria Argumento, no Rio de Janeiro.
O início...
Minha relação com a imagem veio de casa, e muito cedo. Me recordo de minha mãe com álbuns de fotografias de avós e bisavós, e meu pai às voltas com imagens de crâneos ou pernas quebradas. Era radiologista.
Aos 13 anos, ganhei uma Leica como presente de BarMitzvah. Um pouco mais tarde, com a câmera envolvida numa caixa de plexiglas, tentei ser fotógrafo submarino, sem muito sucesso. E daí nunca mais parei. Passei a encarar a fotografia como um meio de interpretar o mundo quando trabalhei no meu primeiro livro, ordenando minhas experiências de forma a transmitir de maneira coerente o que, e como, via o mundo em volta.
Em 2021, você publicou durante 16 semanas uma coluna no Portal CRIATIVOS!, reunindo imagens de diferentes países, cidades e culturas. Agora surge o novo livro Street Photo Graphy. Como nasceu este projeto e o que diferencia este livro de seus trabalhos anteriores?
A ideia não foi minha. Um amigo, grande fotógrafo nos anos 80/90, em New York e depois cá no Rio, Paulo Sabugosa, comentou comigo certa vez a respeito de minhas fotografias que eu seria na realidade um "streetphotographer". Daí a ideia de fazer um livro abordando esse nicho, foi um passo. O caminho foi bastante trabalhoso. Dentre mais de 1500 fotografias espaçadas entre si ao longo de mais de 50 anos , selecionei perto de 150. Passo seguida, eu as tematizei em 17 capítulos ( com as respectivas informações de quando e de onde ) e seus respectivos títulos, carregados de uma certa pitada de ironia. Em várias me rendi :"sem título". Finalmente, quis sublinhar cada capítulo com uma epígrafe ligada à fotografia e/ou à rua, ou se possível a ambas. Participaram, entre outros, Atget, Sebastião Salgado, Machado de Assis, Cecilia Meireles e mesmo Homero.
Você viveu intensamente a fotografia analógica e acompanha agora a fotografia digital e a inteligência artificial generativa. Como vê o papel do fotógrafo numa época em que máquinas conseguem criar imagens a partir de comandos de texto?
A inteligência artificial pode ampliar possibilidades criativas ou existe o risco de uma perda do olhar humano e da experiência real por trás das imagens?
Falando da IA, ainda não cheguei a entendê-la, ou ao que ela realmente pretende oferecer. Mas agora, às voltas com Street Photography, precisei experimentá-la para obter material para a escolha das epígrafes dos capítulos. Escolhia um autor, fotógrafo ou poeta e solicitava 10 ou 15 frases suas ligadas ao meu tema; em segundos vinham sugestões, para minha escolha. Ao final, com o livro já "fechado ", o remeti por completo para sua "avaliação". Inacreditável ! Em questão de segundos, a IA "leu" um livro de 170 páginas e 137 fotografias e retornou uma apreciação com elogios e algumas sugestões. E mais, propôs-se a traduzi-lo para apresentá-lo a duas ou mais editoras americanas ligadas à fotografia....Eu disse que iria pensar.
Além disso, o que pensar do futuro da fotografia, do livro, e do que mais? Vão sobreviver. O Kindle é o novo livro; o celular está sendo a nova Leica. E nós vamos seguindo.
Os fotógrafos seguirão fotografando, como eu , à procura dos seus fleeting moments.
Ao longo de décadas, você fotografou lugares muito distintos, culturas diversas e experiências humanas muito particulares. Quando chega a um novo lugar, o que primeiro chama seu olhar: as pessoas, a arquitetura, a luz, os detalhes invisíveis ou algo impossível de explicar racionalmente?
Eu diria novamente que estou sempre atento ao "fleeting moment" , aquele momento que ou se agarra...ou nunca mais. E aí a palheta é muito ampla: pode ser na Índia, um grupo de crianças na rua brincando no meio de macacos, vacas e elefante, ou o garoto fascinado com seu próprio reflexo no The bean de Chicago, ou o felah encarando a pirâmide , no Egito.
Você costuma dizer que os rostos são “o retrato de um país”. O que um rosto humano revela que nenhuma paisagem consegue revelar? Em sua trajetória aparecem temas muito particulares, como desertos, cemitérios, cidades antigas e espaços de silêncio. Existe uma relação simbólica entre esses lugares e sua maneira de fotografar? Seu olhar parece muito atento aos detalhes culturais que normalmente escapam do turismo convencional. Como funciona seu processo de observação? Existe planejamento ou a fotografia nasce principalmente do acaso e da intuição?
Vamos lá à sua primeira indagação. Minha intenção teria sido dizer que reajo a um conjunto de circunstâncias ( o dente de ouro ou o bigode, a roupa, naturalmente, o próprio olhar, alguns preconceitos inevitáveis...) , tudo isso pode me levar ao acerto - e também ao erro. Agora, falando de desertos, cemitérios e silêncios afins. É uma atração inexplicável, mas porque no Uzbequistão, no Egito, na Lituânia, nos altos do Chile e da Bolívia...me vi nesses loci, fascinado ? Fico sem uma boa resposta para essa sua pergunta.
Sobre o livro físico : claramente subsiste, basta ver tanto aqui no Rio como em SP a pujança das grandes livrarias, ou o interesse que o livro desperta , testemunhado pelas seções literárias, nos meios de divulgação. Mas aí sou um simples observador interessado.
Você já participou de diversas exposições e publicou outros livros anteriormente. Quando organiza um livro ou uma exposição, parte de um conceito previamente definido ou o sentido das imagens vai surgindo no próprio processo de edição? Sua formação e atuação profissional na engenharia influenciaram sua fotografia de alguma maneira? Existe um “engenheiro observador” dentro do fotógrafo?
Tenho na verdade quatro livros publicados, sendo o primeiro numa edição muito reduzida ( Egypto), quase um primeiro ensaio. Veio da descoberta pela Heloisa de uma obra póstuma de Eça, Egypto, decorrente da viagem dele como jornalista, para assistir à inauguração do canal de Suez, em 1879. Pouco mais de um século mais tarde , foi a minha vez. O livro foi uma colagem dos textos de Eça com minhas fotografias. Esse, mais 20 estações e Street Photography são claramente temáticos. CB/fotografias, com a curadoria de Giovanna Nucci, ao contrário, foi um apanhado crítico de minha obra até então.
Com respeito à engenharia no meu trabalho, tenho dificuldade em responder. Certamente me levou a lugares onde não teria ido, mas nada mais fora disso.
Em um mundo dominado por telas, excesso de imagens e consumo rápido nas redes sociais, o livro físico ganha um novo significado? O que um livro de fotografia ainda oferece que o ambiente digital não consegue substituir? Depois de tantas viagens, imagens, exposições e experiências acumuladas ao longo da vida, o que ainda emociona Cláudio Bergstein ao apertar o disparador de uma câmera? Existe alguma fotografia que você nunca conseguiu fazer — uma imagem que ainda continua perseguindo?
Nesse início do século XXI, tudo sucede com tal velocidade que nos perdemos ao tentarmos nos situar. Os celulares presentes para fotografar tudo que ocorre a cada minuto, e cujas imagens podem circular ao infinito , mas que acabam tendo como destino o lixo; os Instagram da vida distribuindo inutilidades, viagens de desconhecidos , fake News... gostaria que sobrasse um pouco mais de tempo para os livros, quaisquer livros!
O que me emociona ainda, nessa altura da vida? Minha próxima fotografia...Minhas netas fotografando... Faz vários anos , visitava o museu Picasso em Paris, quando deparei com uma menina de seus 3/4 anos, ainda dentro do carrinho com a mãe, fascinada por uma estatueta de Picasso - dialogando mesmo com ela. Tirei algumas fotografias desse encontro ( ainda na era analógica) , certo de ganhar uma premiação da revista Photo. Mais tarde, quando abri a Canon para retirar o filme...não havia filme.
Escute o excelente disco de Chiquinho Neto, com músicas certificadas com selo @CertCon, na Spotify/Cedro Rosa.
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