ESCREVENDO…
- Léo Viana

- há 2 dias
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Precisava conhecer o mundo das palavras e das histórias para garantir que as suas fossem sempre originais. Foi uma criança normal, um adolescente que não deu muito trabalho aos pais, fora uma ou outra escapada com as filhas dos vizinhos, mas nada que não fosse previsível e solúvel sem maiores complicações.
O Emílio falava pouco, mas tinha argumentação de bom nível para quase tudo. Ninguém acumula literatura e capacidade de escrever impunemente, dizia ele mesmo aos pais, depois de alguma bronca de praxe.
O que escrevia evoluiu com ele. Das historinhas de criança, passou para contos de herói na adolescência, poemas para as namoradinhas e, ao terminar a quase óbvia faculdade de Letras, tinha uma história em mente. Acreditava mais que todo mundo em seu próprio potencial de escritor. Tinha uma bolsa de mestrado garantida, mas queria ser um best-seller. Queria mostrar aos colegas que desistiram de sua vocação. Muitos dos colegas próximos fizeram as opções mais rentáveis e mergulharam na Medicina, no Direito, na Engenharia, na Tecnologia. Ele não criticava os demais. Mas sabia o quanto alguns lhe deviam, especialmente no que se refere ao domínio da língua escrita, das regras, da literatura brasileira. Precisaram muito disso para alcançar as notas que os levaram às universidades. E isso ele dominava com folga. Agora, sentia que precisava provar que fizera a escolha certa. Era um homem das letras, ainda que tudo se resumisse a essa aptidão para contar histórias nunca publicadas e só conhecidas dos parentes e amigos próximos.
No período que antecedeu ao início do curso de mestrado, Emílio enfurnou-se na casa que a família tinha num bairro distante de uma cidade serrana, com seu laptop barato, cúmplice dos textos que escrevia. Ali estava grande parte de seu tesouro literário: pequenos contos de situação, escritos pessoais, poeminhas de amor, textos acadêmicos, cartas e e-mails para os amigos e amigas.
Olhando em volta da casinha, imaginou o cenário perfeito para sua obra-prima. A história em que pensava acontecia numa terra sem males. Lembrava do nome de uma missa que os pais ouviam em casa, numa antiga gravação. À época, não prestara a atenção devida, mas agora o nome ecoava bonito em sua mente literária. A missa celebrava os povos indígenas e sua boa relação com a terra em que viviam, apesar dos males impostos pelos colonizadores, fazendeiros, autoridades.
Rápida digressão explicativa: Dom Pedro Casaldaliga e seus parceiros Pedro Tierra e Martin Coplas escreveram a missa nos anos 70 e ela foi celebrada e encenada a partir de 1980. Os pais tinham o disco e o livro.
O Emílio, no entanto, queria mais. Queria uma terra que fosse absolutamente sem males, fossem naturais ou provocados.
O caráter espiritual e simbólico da missa se afastava da intenção do Emílio. A terra era a mesma, mas bem tratada e querida só por seus habitantes, na missa. Emílio queria um lugar em que o mal não acontecesse em nenhuma hipótese. Sem animais peçonhentos ou agressivos, sem mosquitos, sem microrganismos patogênicos, sem doenças, sem venenos. Por óbvio, não caberiam ali enchentes, desmoronamentos, frio ou calor excessivo — estes seriam “males” naturais. Também as pessoas deveriam ser essencialmente boas. Não haveria segundas intenções maldosas. Sem guerras ou disputas ferrenhas. Sem armas, sem cobiça material. Sem excessos, exceto aqueles que dão prazer, mas sem riscos.
Emílio se deixou envolver pela ideia e imaginou fábricas não poluentes, com trabalhadores felizes e bem remunerados, em horários e escalas justas. Agricultores com suas lavouras produtivas e limpas de pragas e agroquímicos, em terras naturalmente férteis. Justiça social absoluta.
A certa altura, na mente criativa do Emílio, acendeu-se uma luz de alerta. Era difícil construir uma história que prendesse o leitor sem um conflito. Mas ele não queria conflito em sua terra do mal ausente, onde não haveria personagens maus e a felicidade seria genuína e infinita.
Se não havia conflito na história, uma guerra silenciosa se instalava na cabeça do escritor. Ele mesmo, leitor voraz, começava a entender que a narrativa não lhe parecia interessante. Faltavam adversidades, complicações, elementos que dessem sentido às conquistas que pareciam, como numa perspectiva religiosa, ter caído do céu.
Releu tudo e começou a incluir outros elementos, ainda sem inserir conflitos. Situou a história numa ilha distante, o que limitava seu contato com as terras normais, cheias de conflitos e idiossincrasias. Incluiu o elemento ecológico: florestas preservadas, rios limpos e piscosos, aves coloridas por toda parte.
Imaginou possibilidades de conflito envolvendo quem tivesse saído da ilha para estudar em grandes universidades dos países ricos e voltasse com ideias que ameaçassem a paz, ou trouxesse doenças inexistentes ali. Não. Melhor ficar apenas com a parte boa da formação, aquela que ajudava na sustentabilidade da terra boa.
Matutou muito. Pensou, pensou, pensou.
A ilha tinha um porto a leste e outro a oeste. Bingo.
Simultaneamente, e sem que um soubesse do outro, um navio militar estadunidense ancorou a oeste e um russo, a leste.
Chegou a rascunhar que um navio israelense e outro europeu estariam a caminho de lá. Ainda não escreveu isso, mas não desistiu da ideia.
Nunca mais a ilha seria a mesma.
Fim.
Vai tentar outra história. Aquela não teria futuro.
Rio de Janeiro, janeiro de 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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