Esperança Não É Esperar
- David Gertner
- há 3 minutos
- 2 min de leitura

Esperança vem de esperar.
E talvez seja aí que more o problema.
Esperar sugere pausa, suspensão, entrega ao tempo ou ao acaso. Esperamos que algo aconteça, que alguém faça, que o mundo mude. Esperamos por dias melhores, por justiça, por reconhecimento, por cura. Esperamos até que a espera se torne hábito — e, muitas vezes, desculpa.
Mas viver não é apenas esperar.
A etimologia é reveladora, mas não definitiva. A língua aponta caminhos; não impõe destinos. Se esperança fosse apenas esperar, ela seria uma forma elegante de imobilidade. Um verbo conjugado no futuro, enquanto o presente escorre pelos dedos.
Há uma diferença sutil — e essencial — entre esperar e agir com sentido.
Esperar é permanecer à margem do tempo.
Agir é entrar nele.
A alternativa à esperança passiva não é o cinismo, nem o desespero. É algo mais exigente: engajamento, responsabilidade, presença. Não a certeza de que tudo dará certo, mas a decisão de fazer o que precisa ser feito — mesmo sem garantias.
Há quem confunda esperança com otimismo. Não são a mesma coisa. O otimista acredita que as coisas vão melhorar. Quem age não depende dessa crença. Age porque considera que há valores que não podem esperar.
Esperar é confortável. A ação ética é desconfortável. Ela exige escolha. Exige risco. Exige, sobretudo, abrir mão da ilusão de controle.
Talvez a verdadeira esperança não esteja no verbo esperar, mas no verbo cuidar.
Cuidar do que está ao alcance.
Cuidar das relações.
Cuidar das palavras.
Cuidar do tempo que nos foi dado.
Não esperamos que o mundo seja melhor. Trabalhamos para que ele seja menos injusto. Não esperamos que a verdade prevaleça. Recusamos a mentira. Não esperamos que o silêncio seja ouvido. Aprendemos a escutar.
Há uma esperança que não olha para o horizonte, mas para o chão onde pisa. Uma esperança que não promete futuro, mas transforma o presente. Uma esperança que não se anuncia — se pratica.
Talvez seja isso:
a alternativa a esperar não é perder a esperança.
É retirá-la da espera e colocá-la em movimento.
David Gertner, Ph.D., pela Northwestern University, nasceu no Brasil e radicou-se nos EUA É
Professor aposentado e escritor.
Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David (Amazon) e dos livros O Silêncio e o Tempo e A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz, com lançamento previsto para 2026.
Reflete sobre ética, identidade, tecnologia e a condição humana.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
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