top of page
criativos 2022.png

Flores Que Queriam Mudar o Mundo

Atualizado: há 4 dias

Por David Gertner, Ph.D.
Por David Gertner, Ph.D.

Houve um tempo em que acreditar parecia suficiente.


Um tempo em que jovens descalços caminhavam pelas ruas com guitarras nas costas, flores no cabelo e uma convicção quase infantil — mas não menos profunda — de que a ternura poderia desarmar exércitos.


Chamaram-nos de hippies, como se um nome pudesse conter aquele turbilhão de esperança. Eram filhos de uma década turbulenta, de guerras transmitidas pela televisão, de presidentes assassinados, de um planeta que ainda se acostumava a ter voz, cor e simultaneidade. Eram, sobretudo, filhos de uma utopia: a crença de que a paz não precisava vencer a guerra, apenas desinteressá-la.


O sonho começou nas ruas, nos festivais, nos campos de Woodstock transformados em santuário improvisado de um mundo possível. Começou quando alguém acreditou que, se todos dissessem “não” ao mesmo tempo, o barulho dessa recusa seria mais forte que o som das bombas. E, por um instante quase sagrado, pareceu que funcionaria.


Mas o sonho acabou — não como um trovão, e sim como um pôr do sol.

Foi se apagando aos poucos, consumido pelo pragmatismo, pelo cansaço, pela voracidade de um mundo que aprendeu a transformar até a rebeldia em produto. A contracultura virou cultura pop. A utopia virou lembrança.


Ainda assim, algo ficou. A pergunta permaneceu:

como se muda o mundo?


Os jovens de hoje não carregam flores, mas telas.

Não sonham em Woodstock, mas em upload. Vivem num planeta onde cada gesto pode ser filmado, cada opinião amplificada, e cada causa globalizada em minutos. Mas sua utopia é diferente: menos cantada, menos coreografada, mais silenciosa, mais desconfiada. Uma esperança que só aparece quando não há risco de decepcionar-se de novo.


E então virá a próxima geração — aquela que habitará um mundo onde a tecnologia dispensará o trabalho humano em tantas áreas que talvez precisemos reinventar o próprio sentido de utilidade, de pertencimento, de futuro. O que será progresso quando não houver mais profissões? O que será sonho quando tudo puder ser automatizado?


Talvez essa geração redescubra algo que esquecemos.

Talvez descubra que a verdadeira revolução não está na produtividade, mas na delicadeza. Que o valor do inútil — da arte, do silêncio, do devaneio — pode ser a única forma de reencontro com aquilo que nos torna humanos.


As flores dos anos 60 murcharam, mas a pergunta floresce de novo:

o que significa transformar o mundo?


Cada geração reescreve sua utopia.

E talvez toda utopia seja isso: a teimosia luminosa de acreditar que o mundo ainda pode ser um pouco menos duro do que o encontramos.



David Gertner, Ph.D., é professor, ensaísta e autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.


Leia Mais, Saiba Mais no portal CRIATIVOS!

"Cultura, Sociedade e Outras Teses"

 



Roda de Samba de Mulheres, escute essas artistas Cedro Rosa.



Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade

Comentários


+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page