Geopolítica Imaginária
- José Luiz Alquéres

- há 2 horas
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Em seu livro O Futuro da Liberdade, publicado em 2001, o cientista político e comentarista internacional Fareed Zakaria — antigo editor da revista Newsweek — chama atenção para um problema recorrente da história política: a dificuldade de conciliar religião e poder estatal.
Segundo Zakaria, o avanço da democracia moderna no Ocidente ocorreu justamente quando se iniciou um processo gradual de separação entre essas duas esferas. Na Europa, esse movimento ganhou força com o enfraquecimento da associação entre as monarquias e o papado, intensificando-se após a Reforma Protestante e com a formação dos Estados nacionais.
Em outras regiões do mundo, entretanto, a relação entre religião e política seguiu trajetórias distintas. No Oriente Médio contemporâneo, por exemplo, observamos conflitos em que esses dois elementos permanecem profundamente entrelaçados.
De um lado está o Irã, cuja estrutura institucional combina elementos republicanos com uma autoridade religiosa suprema exercida por clérigos xiitas — os aiatolás — que detêm a palavra final sobre as decisões do Estado. Embora exista um presidente da república eleito, ele atua sob a supervisão da liderança religiosa suprema.
Do outro lado encontra-se Israel, um Estado singular. Embora possua instituições democráticas consolidadas, atravessa períodos de intensa mobilização identitária e concentração política de poder. Em contextos de conflito, o discurso público frequentemente assume contornos de mobilização existencial, convocando tanto cidadãos israelenses quanto comunidades judaicas espalhadas pelo mundo para a defesa do Estado diante de ameaças regionais — entre elas, sobretudo, o Irã.
Historicamente, Israel já enfrentou conflitos militares com diversos países árabes, como Egito, Jordânia, Síria e Iraque, além de confrontos recorrentes envolvendo a questão palestina.
Esse cenário ilustra uma característica particularmente difícil desses conflitos: a sobreposição entre rivalidade geopolítica, divergência ideológica e antagonismo religioso.
A oposição entre Ocidente e Oriente possui raízes históricas profundas. Desde as campanhas de Alexandre, o Grande, que levaram exércitos macedônios até o Egito e o norte da Índia, passando pelos conflitos entre o Império Romano e o Império Parta — antecessor histórico da antiga Pérsia — até as Cruzadas, quando forças europeias chegaram a conquistar Jerusalém.
Mais tarde, durante os séculos XIX e XX, potências como França e Reino Unido exerceram domínio colonial sobre vastas áreas do norte da África e do Oriente Médio.
Até mesmo as narrativas fundadoras da cultura europeia contêm ecos desse antagonismo. A Guerra de Troia — imortalizada pela tradição grega — representa simbolicamente um confronto entre o mundo helênico e uma cidade localizada na atual Turquia, próxima ao estreito do Bósforo.
Em todos esses episódios históricos aparecem combinadas três dimensões: disputa econômica, rivalidade religiosa e competição ideológica.
A história, entretanto, oferece também exemplos de soluções institucionais capazes de reduzir tensões entre religião e poder político. Um caso emblemático ocorreu na Itália no início do século XX. O regime de Benito Mussolini resolveu um conflito milenar entre o Estado italiano e a Igreja Católica ao firmar, em 1929, o Tratado de Latrão.
Por esse acordo foi reconhecida a soberania do Vaticano como Estado independente dentro da cidade de Roma. O Vaticano passou a possuir bandeira, hino, passaporte e governo próprios, tendo o Papa simultaneamente como líder espiritual da Igreja Católica e chefe de Estado.
Em contrapartida, a Igreja renunciou às antigas reivindicações territoriais dos Estados Papais, que durante séculos haviam exercido influência política na península Itálica. Com isso diminuíram drasticamente as tensões entre a administração secular da Igreja Católica e o Estado italiano.
Esse precedente histórico permite imaginar um exercício de natureza mais ampla — uma espécie de geopolítica imaginária.
Suponhamos que, em escala mundial, fossem reconhecidos pequenos Estados autônomos em torno das cidades sagradas das principais religiões, à semelhança do modelo do Vaticano.
Poderíamos imaginar, por exemplo:
uma região autônoma em torno de Meca para o islamismo;
outra em torno de Jerusalém para o judaísmo;
uma área sagrada próxima ao Mosteiro da Trindade-São Sérgio, nos arredores de Moscou, como centro espiritual da Igreja Ortodoxa;
uma cidade religiosa na região do Monte Wudang, tradicional centro do taoismo na China;
na Índia, a cidade de Varanasi, às margens do Rio Ganges, onde se encontra um dos maiores santuários do hinduísmo e para onde milhões de peregrinos acorrem. Todo hindu devoto gostaria de ser cremado ali e ter suas cinzas lançadas ao Ganges, acreditando assegurar assim o descanso da alma e a libertação do ciclo de reencarnações;
no Japão, a antiga capital Kyoto, grande centro de templos ligados ao Xintoísmo;
e, no Tibete, a cidade de Lhasa, tradicional sede espiritual do Dalai Lama, cuja autonomia religiosa foi profundamente afetada pela incorporação do Tibete à China.
Se tais territórios fossem reconhecidos internacionalmente como núcleos espirituais autônomos, governados por suas próprias autoridades religiosas, talvez surgisse um novo princípio de convivência internacional.
Dentro desses núcleos não se discutiria soberania política convencional. Ali se reconheceria um território sagrado — a morada simbólica dos deuses ou do transcendente para cada tradição religiosa. Seriam centros de peregrinação, devoção e referência espiritual.
Nas áreas circundantes, cada país poderia organizar o seu regime político como desejasse — laico, democrático, autoritário ou híbrido — respeitando apenas a autonomia desses centros sagrados.
Nesse contexto, talvez se pudesse reconhecer também que a democracia não é necessariamente o único modelo institucional possível para todas as sociedades. A tradição democrática nasceu em circunstâncias históricas muito específicas, particularmente na Grécia Antiga, cuja cultura valorizava a autonomia individual, a competição política e a iniciativa cidadã.
Outras civilizações seguiram caminhos distintos.
Talvez um sistema internacional que reconhecesse essa diversidade histórica e cultural — preservando simultaneamente os grandes centros espirituais da humanidade — pudesse reduzir algumas das tensões que atravessam a política mundial há milênios.
Trata-se, naturalmente, de uma hipótese imaginária. Mas a própria história mostra que soluções que um dia pareceram improváveis — como a criação do moderno Estado do Vaticano — acabaram se revelando instrumentos eficazes para resolver conflitos aparentemente insolúveis.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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