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FUGAS


A Lívia e o Pedro nasceram com uma proximidade cósmica. Ela veio ao mundo num hospital em Copacabana, o mesmo onde ele também viria a nascer, cinco dias depois. Coincidentemente, eram filhos de mães vizinhas e amigas. Ela saiu da enfermaria direto para o apartamento 403 de um edifício. O mesmo para onde ele foi, só que para o apartamento 502.


Começaram a frequentar os mesmos espaços muito cedo. O primeiro encontro foi certamente no playground, onde tomavam banho de sol durante a licença-maternidade. Talvez não prestassem muita atenção um ao outro. Não há como obter deles essa informação agora. Mas os primeiros meses foram principalmente dedicados ao leite das mães e às manifestações de descontentamento com algum eventual contratempo, fosse fome, fraldas sujas, sono ou o muito improvável afastamento das mães.


Bem alimentados, mães zelosas, cresceram rápido. Aos 10 meses, estavam na mesma creche construtivista, onde se tornaram melhores amigos e trocaram as primeiras palavras, ainda incipientes. O vocabulário limitado, no entanto, não impedia grandes conversas, repletas de vogais longas, nasalizações e gritos, geralmente desenvolvidas na van que os levava, com as mães, de volta ao condomínio. Com direito a choro na despedida, claro.


Foi ainda na fase da infância inocente que fugiram juntos pela primeira vez. A fuga, apesar do risco de atropelamento envolvido, não passou de uma saída do portão da creche na direção de uma banquinha que vendia doces. Não tinham dinheiro nem vocabulário para comprar doces, mas era fácil saber seus interesses. A dona da banca deu uma bala para cada um, o que também envolvia riscos, e chamou uma das professorinhas da creche, que ainda não tinham dado pela falta dos dois pequenos, no momento em que todos os outros dormiam.


O incidente foi comunicado às mães, que ficaram mais revoltadas com a creche do que com os filhos, por razões óbvias. Mas riram secretamente da cumplicidade dos dois.

Só no final do ciclo básico da educação trocaram o primeiro beijo.


Época de descobertas. Foi mais um teste consentido do que um beijo apaixonado, mas funcionou como catalisador daquela proximidade radical. Gostavam demais um do outro.

A partir dali, passaram a guardar conjuntamente os poucos segredos que tinham.


Mas a cumplicidade máxima pareceu chegar a um estranho limite no ensino médio. Apesar de terem sido matriculados pelas mães na mesma escola, a alocação em turmas diferentes abriu horizontes e possibilidades de contatos. Novas meninas e meninos desviaram o foco antes tão direcionado. A Lívia, diante de tanta oferta, se apaixonou por Tércio, um garoto bom de bola e de violão. O Pedro, após uma pequena fase de sofrimento inicial, além de começar a beber e fumar escondido, caiu de amores por Patrícia, atriz já com algum destaque no cenário teatral da cidade, umas pontas na TV e até no cinema.


A segunda fuga foi um do outro. As mães estranhavam a falta de contato e sofriam juntas pelo afastamento da dupla.


A entrada no ensino superior teve um pouco de drama e de humor involuntário. A Lívia tinha, desde muito cedo, revelado um viés de praticidade, de resolução de problemas, um tipo de pensamento cartesiano-matemático que era uma das garantias de segurança do Pedro na infância. As possibilidades de quedas ou quebra de aparelhos, vidros ou coisas do gênero eram normalmente minimizadas pelo cuidado e pela atenção dela.


Quando o dano era inevitável e rendia lesões ou ferimentos, era o Pedro quem resolvia o problema com uma habilidade inata. Foram óbvios e foram cursar engenharia e medicina, mas com as habilidades invertidas. A intenção era uma reaproximação silenciosa, mas deu errado. Viram-se em cursos diferentes de sua aptidão natural, mas jamais admitiram a vontade oculta. Um engenheiro que gostava de resolver problemas de saúde e uma médica com forte raciocínio lógico e numérico.


Esbarraram-se ocasionalmente, sem trocar palavra, durante os cursos, em grandes assembleias universitárias. Os namoros da adolescência ficaram para trás e agora focavam em projetos de carreira, concursos públicos, namoros mais sérios, ainda que voláteis, nos dois casos. As mães, ainda amigas, mas sem possibilidade de intervir de modo decisivo nas escolhas dos filhos, assistiam ao desenrolar da história alimentando a esperança de que aquilo não poderia terminar daquele jeito.


Foi o falecimento súbito de uma das mães, num acidente trágico, que fez a história mudar. Pedro soube da morte da mãe quando participava das medições para a implantação de uma ferrovia num remoto local do Centro-Oeste, a muitos quilômetros de distância do aeroporto mais próximo. Ao chegar ao Rio, mais de 24 horas depois do ocorrido, a primeira pessoa que o abraçou foi a Lívia, que tinha providenciado tudo juntamente com a mãe. Havia coisas a dizer, mas as palavras represadas por tanto tempo continuaram sem sair. A tristeza que se seguiu não se sabe ao certo se tinha origem na brutalidade da morte inesperada ou no silêncio do reencontro.


Os relacionamentos que Lívia e Pedro mantinham naquele momento sentiram o baque do reencontro.

Ele morava com uma médica e ela com um engenheiro, ambos colegas de trabalho e projeções óbvias de um projeto pessoal não concluído.


A morte da mãe de Lívia, após a descoberta de um câncer muito agressivo, antecipou o reencontro seguinte. Lívia veio de São Paulo às pressas e encontrou Pedro na entrada do hospital. Ela vinha acompanhando o estado da mãe, mas uma reunião de emergência com a cúpula do Ministério da Saúde, onde trabalhava, a fez se ausentar por um dia — e aconteceu o pior.


O novo encontro também foi silencioso. Era o fim de uma era.

A terceira fuga ocorreu poucos meses depois. Pedro vendeu o apartamento da mãe. Lívia fez o mesmo.


Após um único telefonema, de poucas frases, encontraram-se no aeroporto.

Voltaram a falar quase compulsivamente no desembarque, em Roma. Frequentaram os locais preferidos pelos italianos, que também têm fama de falar muito. Estratégia.

Um mês de conversas antecedeu a volta para a Copacabana do passado e da vida toda.

Estão envelhecendo juntos.


E moram no prédio do outro lado da rua.

Rio de Janeiro, maio de 2026.

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