Há lugares que não nos deixam
- David Gertner

- há 9 horas
- 2 min de leitura

Quando a gente deixa um lugar, costuma acreditar que o gesto é recíproco. Que ao partir também será deixado. Que a mudança cria uma separação clara, quase justa: seguimos adiante, o que ficou para trás permanece onde estava. Como se a vida respeitasse essa simetria.
Mas nem sempre é assim.
Às vezes, saímos de um lugar — de uma casa, de uma cidade, de um país, de um papel, de uma identidade, de uma relação, de uma condição, de uma história — e ele não sai de nós. A mudança traz a promessa de um recomeço limpo, a ilusão de uma superfície em branco onde seria possível reconstruir a vida sem os ruídos anteriores. Acreditamos que aquilo que nos marcou pertence ao espaço que deixamos, não ao que somos.
A experiência corrige essa expectativa.
Com o tempo, descobrimos que muitas das coisas que julgávamos externas estavam, na verdade, incorporadas. Não pertenciam apenas ao lugar, mas às relações, aos afetos, aos conflitos que nos formaram. A distância física, por maior que seja, não garante distância emocional. Mudamos de cidade, de país, de hemisfério, e ainda assim certos sentimentos seguem ativos, como se não tivessem recebido o aviso da partida.
O corpo muda de lugar, mas a memória não obedece aos mapas.
Aquilo que nos atravessou — na família, nos vínculos mais próximos, nas experiências de cobrança, controle, tensão ou silêncio — não fica para trás como imaginávamos. O impacto viaja conosco. Reaparece no modo como confiamos, como reagimos, como ocupamos espaço, como aprendemos a nos proteger. Não é lembrança deliberada; é forma de estar.
A gente sai da situação, mas não sai do que ela nos ensinou sobre alerta e contenção. Sai da condição, mas leva consigo o modo aprendido de esperar, de medir riscos, de se antecipar ou de se calar. O que parecia circunstancial revela-se estrutural.
Por isso o recomeço nunca é um apagamento. É uma reorganização. Mudamos, ampliamos o mundo, adquirimos outras linguagens e possibilidades. Mas a ideia de uma vida construída do zero é uma ficção reconfortante. Aquilo que nos marcou profundamente não fica do outro lado da estrada ou do oceano.
Talvez amadurecer seja aceitar essa assimetria sem ressentimento: compreender que partir não garante esquecimento, e que a distância não dissolve o que nos formou. Não começamos do zero. Começamos de onde estamos, levando conosco aquilo que nos atravessou — inclusive o que ingenuamente acreditávamos ter deixado para trás.
Nem todo lugar nos acompanha como lembrança. Alguns nos acompanham como estrutura. E reconhecer isso não nos prende ao passado. Apenas nos lembra que somos feitos também dos lugares que deixamos — mesmo quando eles não nos deixaram.
David Gertner, Ph.D., nasceu no Brasil, é doutor pela Northwestern University e vive nos Estados Unidos há mais de três décadas. Escritor e professor aposentado, é autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e dedica-se a reflexões literárias e ensaísticas sobre identidade, memória, ética, silêncio, tempo e a condição humana.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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