Maio 1968 - “Sob o calçamento, a praia” (grafiti em Paris)
- Sonali Maria

- há 9 horas
- 6 min de leitura

Ainda anteontem vi o céu azul sem nuvens como ele era na infância. Nessa época, literata já então, costumava pensar que o Céu assim era éter sem algodão: coisas da infância...
Meu corpo aquietou-se com a quenturinha do dia e por um longo momento fiquei entre acordada e dorminhoca sobre o cobertor que coloquei no quintal. Não havia insetos me atrapalhando o descanso (como nos desconcertam as moscas em nossos ouvidos, ou formigas em nossa pele!) e assim pude assistir ao balé que aqueles meninos em férias apresentavam naquele céu de julho.
As mãos sob a cabeça servindo de apoio, uma perna sobre a que estava semi erguida e assim me esqueci, enquanto olhava aquelas coisas coloridas que planavam no Céu e nele mergulhavam.
(Como escrever sobre isso? É-me difícil, percebo. Porque as pipas são por demais silenciosas.)
Tenho a ilusão que nada as liga à Terra. Estão no Céu como algo peculiar, pois não se assemelham a pássaros ou aviões. Sim, as andorinhas solitárias! Em alguns momentos se assemelham às pipas, mas essas andorinhas são tão raras que não devo ir longe nessa comparação, além do que, estas coisas que os meninos e alguns rapazes fazem são por demais humanas.
Os balões sim, posso comparar às pipas: quando sobem ao Céu o espetáculo enternece, trajetória que desejamos infinita. Os aviões e os pássaros costumeiramente pousam. As pipas e os balões costumeiramente caem.
O que dizer do z
i
g
u
e
z
a
g
u
e que as pipas fazem no espaço?
As rabiolas ondulam, dança de dragões. Será invenção de chineses trazidas pela atmosfera em nossas inspirações?
Duas pipas que se aproximam podem deslizar pelo Céu como um casal de namorados e a qualquer instante, serem dois esgrimistas: na luta os corpos não se tocam, um persegue o outro na esperança de ferir. Então, duas pipas que se aproximam pode significar o corte de uma pela outra ou, muito raramente, de ambas. O cerol fere.
Pipa caindo, Ícaro despencando pelo Céu. Tudo perde o sentido, menos a gravidade da Terra. O sonho agora é silenciosa desilusão. Imagino os meninos, pés descalços, correndo o mais que podem para pegar a pipa antes que outro a pegue. Se não estragou na queda, voltará ao Céu esse engenho que só consigo chamar de coisa, pois não o vejo como brinquedo. Representamos quando brincamos: pais, filhos, profissionais, bichos, estranhos seres. Nas pipas não somos. Somos em tal intensidade que largamos tudo, os olhos presos n´alguma, as pernas correndo para segurarmos sua queda.
Serão sonhos? Só os ingênuos têm a coragem de construir, a elas e a eles, com tanta certeza. Talvez por isso Benjamim Franklin tenha sido um inventor e por elas tantos meninos perdem a vida. Lembro-me de Dadinho, amigo de infância que foi atropelado enquanto corria atrás de uma delas com os olhos presos no Céu como estou agora. Ambos tínhamos sete anos naquele dia quente de janeiro e a mim, que assistia a todo o corre-corre da vizinhança, ficava a surpresa de saber que as crianças morriam. “Filhinha! Dadinho morreu!”, vovó chegara correndo ao portão dando a notícia que punha a vizinhança em alvoroço.
Pipas rabiolando no ar:
Os meninos só vêem o Céu
Pleno de azul.
A finura da seda, o bambu da armação, as fitinhas de papel, rabiola futura, presas uma a uma na ponta da coisa, uma a uma, de vários formatos, nomes vários: pandorga morcego arraia papagaio cafifa pitote estrela águia pipa. Que grande momento o de colocá-las no alto! O coração bate forte porque o engenho agora estará leve e solenemente, em um espaço sem muros e darei dibiques, mergulhos, farei círculos, puxarei a linha e vou tintiar esquecida que algum pião possa cortar o fio – apenas esse fio nos ligando, mas de tal forma que continuo nela e ela em mim e de tal forma inacreditável como se torna a realidade para quem medita.
Serão sonhos? Pois só vão ao ar quando o Céu está aberto e os meninos nas ruas.

(Crônica poética escrita por volta dos dezenove anos, certamente antes dos vinte anos. Por iniciativa própria, mandei imprimir 1.000 exemplares numa gráfica em Mesquita, num papel próximo ao papel de seda das pipas, em azul como o céu de maio do Estado Rio antes dessa crise climática.
O dono da gráfica sorriu meio enternecido da empreitada da jovem, mas me levou a sério, mostrando-me os tons de azul que tinha, não me cobrou caro, e logo ficaram prontos. Foi na Suze Artes Gráficas, Composição e Impressão, telefone: 796-3508.
Não fiz “noite de autógrafos”, não fiz propaganda dessa impressão, não a saí distribuindo, não registrei autoria, não a publiquei em coletâneas, não falei sobre ela a parentes, apenas mostrei o texto datilografado a um colega que era então grande amigo e gostava de literatura, estudante de Letras, quando eu fazia Ciências Sociais, tendo ele corrigido um erro gramatical. Disse-me ser muito bonito, literatura infantil. Guardei durante anos essas “pipas” e só as dava, gratuitamente, um presente, a quem me dissesse muito interiormente. Algumas dessas pessoas as guardam. Um chegou a me chamar de “pipa avoada” (haha!). Estavam em um belo pacote que eu guardei anos e anos, preciosidade pra mim, pois com o tempo, pensava encontrar mais pessoas que lhe dessem o devido significado ou então publicar esse texto que eu não entendia em que enquadrar pois o colega que leu o texto datilografado no original, dissera tratar-se de literatura infantil, do que eu desconfiei seriamente. E percebi que aquele estudante de Letras não havia visto que havia ali uma reflexão. Havia mais de etnografia e filosofia nessas palavras leves como pipas. Tempos depois o amigo que me chamara de “pipa avoada” veio feliz dar-me a notícia que havia encontrado um livro, um romance de Romain Gary, falando sobre a importância das pipas na II Guerra Mundial. Eu já sabia que Benjamim Franklin soltava pipas.
Muitos anos mais tarde, quando tive estafa e desisti do doutorado e via serem publicados livros infantis sobre pipas, o abandono e desapontamento que senti, achando que tudo que fizera fora uma tolice, sem a valorização de “parentes” próximos, fez com que eu me desfizesse do pacote de impressos com todo carinho pelo proprietário da Suze Artes Gráficas e jogasse fora todos aqueles inúmeros folhetos guardados anos a fio em um belo pacote, assim como dos inúmeros resumos de processos, guardados em uma grande caixa, de originais do Arquivo Morto do INCRA de desapropriação de terras, um trabalho importante e exaustivo de leitura de processos, alguns vinham de séculos anteriores, de áreas consideradas devolutas da Baixada, em disputa pelos movimentos de terra. Uma pessoa dita parente assistiu impassível a esse desmanchar deste acervo de pesquisa que fora feito por mim em um exaustivo trabalho. Infelizmente, não houve chefe de pesquisa que valorizasse a mim o que ali estava escrito, muito embora tenha sido bem aproveitado na publicação do Atlas Fundiário do Estado do Rio (publicação da Secretaria de Assuntos Fundiários/RJ), para o qual tinham sido feitos.
Provavelmente estes resumos não foram de frases curtas pragmáticas, como talvez quisessem. Embora saiba fazê-las, mas gosto de História e sou etnógrafa, atenta a detalhes. Sabia que o material que tinha ali à frente era precioso. O exemplar do Atlas não está comigo, sei muito bem onde o tinha guardado e que não o dispensei, pois trata-se, o artigo originado dos resumos que fiz, de uma publicação em meu curriculum, além de todo um belo trabalho em equipe. Sei onde estava guardado.
“Vaidades das vaidades, nada mais que vaidades” (Eclesiastes)
“O Espírito Santo faz-nos habitar em Deus e Deus em nós: mas é o amor que causa tudo isto. Portanto, o Espírito é Deus enquanto amor.” (atribuído a Santo Agostinho)
Essa crônica, só pude resgatá-la pelo carinho de uma prima próxima que guardou uma dessas “pipas” durante anos. Só fiz agora, e fica, acrescentar a chegada de minha avó ao nosso portão, chocada com o atropelamento fatal de Dadinho, o que assistira! Para seu espanto e atordoamento. Um amigo-vizinho que conhecia desde que nasci, tínhamos a mesma idade.

Rio de Janeiro, em 25 de Maio de 2026.
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