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Meditação sobre a Rosa

Atualizado: 5 de jan.

Eleonora Duvivier, cronista do portal CRIATIVOS!

 

  

Um dia, mamãe me perguntou se eu acharia uma rosa artificial tão bonita quanto a natural, se elas aparecessem idênticas e eu soubesse que só uma era verdadeira. Eu disse que não acharia. A rosa artificial é disponível a se empoeirar, se repetir, e a natural não. Só o que é vivo é irrepetível, cada ser feito pela natureza é único, começando por ocupar seu espaço exclusivo, no mundo. A natureza não cria em serie, como o artificio, pois o coração da vida é a unicidade, o particular puro.


   Hegel mostrou que o particular puro, o objeto não repetível, e o momento totalmente único, é indizível, pois assim que tentamos colocá-los em palavras, estamos usando conceitos universais. Mas Hegel só estava preocupado com o conhecimento, com o que se pode conceitualizar. Então não atribuiu inefabilidade ao particular puro ou `a unicidade. Ao contrário, havendo identificado a razão `a divindade e preocupado somente com o conhecimento racional e conceitualizável, ele considerou o indizível da particularidade como o vazio.


   Porém, o que conta diante de uma rosa não é o conhecimento racional, mas a poesia, a verdade irracional. O silencio, a prece, o irrepetível. O que Hegel tratou como vazio, como quase irreal, já que para ele a realidade morava no elemento racional, é na verdade o absoluto, o que reside na unicidade de cada ser. 


   Quando vemos uma rosa dando o máximo de si em cada fase do seu desabrochar, ela está

alcançando um extremo, que como extremo, é vizinho da morte na fase que lhe segue. Silenciosamente fazendo jus ao selo da vida sobre si, a entrega de uma rosa é extrema `a custa de sua própria mortalidade, daquilo que faz com que cada momento dessa entrega seja finito tanto quanto único.


   Por isso, cada rosa que vemos, sacralizada pela presença de sua própria morte, é sempre a mais linda de todas. Assim como a vida só está no individuo e não nas abstrações, a  morte o torna irrepetível, absoluto, e o sacraliza. A rosa, cuja infinitude de beleza, perfume, e oferta de si mesma, vive no limite entre o tudo e o nada, é símbolo do amor de Deus, de sua majestade, e da paixão de Cristo. Ela, que nunca se poupa e tudo dá de si, é a coragem e o infinito do amor. Ao contrário de muitos de nós, ela morre para viver, ao invés de viver para morrer.


   Espero que todos ganhem rosas no começo do ano, e que, trazendo a 2026 um tanto de sua pureza, generosidade e coragem, elas espantem todo medo.


Feliz Ano Novo!


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.

  

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