Três tipos inesquecíveis
- José Luiz Alquéres

- 5 de mar.
- 4 min de leitura

A construção de uma sociedade se ampara, dentre múltiplos fatores, na lembrança de alguns de seus membros que se destacaram por suas ideias, por suas ações e pela presença que tiveram em determinados momentos históricos.
Ela se apoia também na definição de um estilo de vida. E o estilo de vida do brasileiro é muito peculiar. Tem sido objeto de estudos sociais e de reflexões de grandes sociólogos, pois as características difusas de um povo acabam encontrando, em alguns de seus membros, exemplos importantes daquilo que se percebe no conjunto.
O primeiro tipo inesquecível que apresento é Ana Maria Ramalho. Jornalista, começou trabalhando ainda bem jovem com Ibrahim Sued, na crônica social. Continuou por décadas em O Globo, trabalhou com Ricardo Boechat e, já mais tarde, seguiu carreira de forma autônoma, assinando colunas.
Eu a conheci socialmente e, desde então, tornei-me um admirador absoluto. Isso se intensificou quando descobrimos — eu e minha mulher — vários amigos comuns de infância, o que nos aproximou ainda mais e nos fez acompanhar a vida de Ana e as suas inúmeras façanhas.
Bisneta de Capistrano de Abreu, cultivava com entusiasmo uma famosa proposta atribuída ao historiador para a Constituição brasileira: um texto com apenas um artigo. “Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.” Parágrafo único: “Revogam-se as disposições em contrário.”
Munida desse grande arcabouço cultural e familiar, Ana transitou pela vida social com desenvoltura rara. Alguns de seus podcasts — já entre as últimas manifestações de sua vida profissional — são memoráveis, como a entrevista com o embaixador Marcos de Azambuja.
Quando ela faleceu, desenvolvíamos juntos os projetos de dois livros: A Sociedade Brasileira nos anos 50 e 60 e A Sociedade Brasileira nos anos 70 e 80. Chegamos a preparar o sumário dos capítulos que retratariam aquele grande momento de transição que ela viveu e cobriu como jornalista, sob os mais variados aspectos.
O segundo tipo inesquecível é justamente Marcos de Azambuja, seguramente um dos maiores diplomatas da história do Itamaraty.
Representou o Brasil na França e na Argentina. Foi chefe do Departamento de África e Oriente Médio do Itamaraty. Conviveu com grandes líderes mundiais. Foi também secretário-executivo da instituição — na prática, ministro interino das Relações Exteriores.
Naquela geração de extraordinários embaixadores — como Luiz Felipe Lampreia, Nelson Fonseca, mais moço, Sebastião do Rego Barros, entre outros — Marcos era talvez o nosso maior frasista. Suas tiradas espirituosas lembravam as máximas de antigos diplomatas ou surgiam de sua própria imaginação.
Dizia, por exemplo: na França, as pessoas saem à francesa sem se despedir; no Brasil, as pessoas se despedem e não saem! Era uma observação feita a propósito dos intermináveis coquetéis brasileiros, convocados para as cinco da tarde nos quais os convivas não largam a boca livre até a meia-noite! E haja protocolo para administrar tais situações.
Mas havia também momentos de franqueza cáustica. Em entrevista concedida a Ana Maria Ramalho em seu podcast sobre o Itamaraty, lamentava que a diplomacia brasileira estivesse sendo levada a uma posição menor no cenário internacional, submetida a padrões governamentais que considerava inaceitáveis.
O terceiro personagem que quero lembrar é o recém-falecido Marcelo Cerqueira.
Homem de notáveis contribuições ao Brasil, foi autor de vasta bibliografia jurídica, incluindo um alentado volume sobre a história das Constituições brasileiras e sua análise crítica. Foi também um homem corajoso: advogado de presos políticos durante o regime militar.
Participou das negociações com o então general João Baptista Figueiredo — antes de assumir a Presidência — em torno da chamada Lei da Anistia, concebida como ampla, geral e irrestrita. Entendia que, sem um gesto dessa natureza, o impasse continuaria a dividir o Brasil por muitas décadas.
Apesar de esforços posteriores de alguns para reabrir esse fosso, naquele momento a negociação generosa permitiu que o país retomasse o caminho da democracia que ainda hoje buscamos construir, não sem dificuldades.
Mas lembro também Marcelo Cerqueira como escritor. Autor de contos, ensaios e relatos de não-ficção. Tive o privilégio de editar, pela Edições de Janeiro, um livro seu que mistura contos e memórias, intitulado “Fragmentos”. Trata-se de uma obra excepcional, da qual destaco o conto “O Sapato de Humphrey Bogart”, baseado inteiramente em fatos reais. Nele se demonstra como um mesmo episódio pode conter drama, comédia e tragédia, dependendo do olhar de quem o narra.
Descanse em paz, meu querido Marcelo Cerqueira. E vocês três podem estar certos de que, cada qual a seu modo e em seu estilo, ajudaram a caracterizar talvez não aquilo que o brasileiro é, mas aquilo que o brasileiro deveria ser: alegre, sociável, culto, inteligente, generoso e corajoso. Enfim, o cidadão de que o século XXI precisa.
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