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Melancolia


Os 50 anos foram o divisor de águas na vida do Vado. Tinha nascido Osvaldo quando ainda nasciam Osvaldos e até Oswaldos, variante tornada mais nobre pelo uso do “w”, como na versão inglesa e também pela associação com o nobre sanitarista brasileiro Oswaldo Cruz.


O Vado tinha vivido muitas experiências, dois casamentos, uns seis ou sete empregos razoavelmente bem remunerados. Ainda faltava muito até que se aposentasse e não era dado a reservar economias para o futuro. Com os trabalhos freelancer que a arquitetura permitia que fizesse, juntou algum patrimônio. Um apartamento aqui, outro acolá, um terreno num loteamento interessante, um sítio no interior. Na conta bancária, normalmente, tinha quase nada, mas as propriedades tinham liquidez, caso algum aperto maior se anunciasse.


“A vida sempre foi relativamente cuidadosa comigo”, repetia nas rodas de amigos.

Mas, aos 50, uma idade em que não se é exatamente jovem, mas também não se é idoso, algumas perdas importantes e pelo menos uma grande frustração mexeram com a cabeça do Vado. Ele se sentia frustrado por não ter feito mais cedo uma opção radical pela cultura como meio de vida. Gostava de música, desenhava bem, era engraçado e fez diversas peças com os grupos de teatro do colégio e da faculdade de arquitetura, mas a criatividade e a habilidade com lápis e canetas acabaram levando o Vado definitivamente para as pranchetas e telas de computador, onde aprendeu tardiamente a usar as ferramentas de projeto.


Naquela altura da vida, achava que precisava rever algumas coisas. Precisava trabalhar menos, dedicar-se de uma vez às coisas que verdadeiramente amava, mas não via jeito. O que sobreveio mesmo foi uma tristeza inexplicável. Ou explicável, sim, porque baseada exatamente na frustração de não conseguir fazer da vida o que mais queria.


A dificuldade em lidar com a tristeza não o levou a um divã, mas fez com que tomasse a decisão de iniciar um tipo estranho de contagem regressiva, após considerar que sua vida começava a terminar, minada pela falta de sentido. Não sabia quando morreria, mas sentia que os 50 simbolizavam o início de uma curva descendente irreversível.


Nenhum amigo aceitou aquela resignação, mas o Vado sempre foi meio diferente. Temiam uma mudança radical, mas estavam lá para apoiar as decisões dele, desde que isso não antecipasse o fim da vida. Era um tipo de “doença da alma”, disseram alguns.


O Vado elaborou quase um tratado para explicar. Disse que contaria seus dias a partir dali, subtraindo tempos cada vez que alguma coisa, pessoa, lugar, hábito, enfim, alguma marca do seu tempo desaparecesse. Não seria retroativo. Ele não choraria a máquina de escrever, a carreira do Zico ou o Frank Sinatra, desaparecidos antes da data-chave, mas iniciou a contagem num momento muito difícil: a pandemia de Covid, iniciada na passagem de 2019 para 2020.

Viu a desigualdade aumentar. Viu a fome assolar regiões inteiras do mundo. Viu a população de rua crescer num Brasil estranhamente infeliz. Ajudava no que podia, mas parecia não poder muito.


Viu desaparecerem, sob a sombra do vírus, diversos bares e restaurantes onde foi feliz, apesar de tudo. Livrarias fecharam as portas. A contagem começou aos saltos. Por um instante, o Vado pareceu sentir a morte perigosamente próxima. Era na cultura, nos pequenos prazeres da vida, no entretenimento, que encontrava razões para seguir existindo.


A Catedral de Notre-Dame tinha incendiado em 2019. O Vado somatizou, ficou num desalento imenso, mas isso também ocorreu antes de sua decisão. Sofrimento mesmo, sensação de partida iminente, ele sentiu com a morte do Aldir Blanc, em maio de 2020. E ainda por complicações da Covid, a amaldiçoada enfermidade que assolava o mundo e que foi recebida no Brasil pelos recepcionistas da época como se fosse uma chefe de Estado, tratada a pão de ló. Isso só agravou o momento de morbidez do Vado.


Quem escreveria outro “Dois pra lá, dois pra cá”? E “Siri recheado e o cacete”? E “Resposta ao tempo”?

Vado tentava, por si, aparentemente, dar uma resposta mal-educada ao tempo, culpando-o por não ter feito o que deveria quando deveria. Mas sabia que não era o tempo. Era ele.

A pandemia quase o levou de fato, porque se contaminou. Mas se tratou, vacinou-se e sobreviveu. Não sem antes acompanhar os milhões de mortes no mundo, na iminência da própria. Um ano depois do Aldir, o Paulo Gustavo, humorista novo, talentoso e impactante, também foi ceifado pela Covid. Vado esmoreceu mais. Quase se foi novamente.


Sua decisão de contabilizar o tempo até o fim de seus dias em perdas marcantes incluía quantificar cada perda em dias, horas, meses. Mas percebeu que isso não seria possível. Além de muitas perdas, cada uma era forte demais. Nem em seus momentos de maior pessimismo imaginaria morrer tão rápido quanto o quadro geral parecia anunciar. Assim, sentia e contava cada perda, mas não se dava o direito de quantificar o peso de cada uma.

Última turnê do Milton Nascimento.Morte da Gal Costa.Morte da Rita Lee.Fechamento do Cosmopolita, na Lapa.


O anúncio da última turnê de Gilberto Gil caiu como uma bomba. O alívio só veio com a certeza de que Gil é imparável e, ainda que não faça grandes turnês, haverá apresentações por aí, ao vivo ou gravadas, a serem vistas.


“Um mundo sem Gil talvez seja insuportável”, refletiu.

O tempo avançou inclemente e vieram as guerras da Rússia e de Israel, a certeza de que o mundo estava mais doente que ele, Vado. A constatação definitiva de que o aquecimento global é praticamente irreversível, a retirada do carré defumado do cardápio do Nova Capela, a volta do Trump ao poder. Um carrossel de emoções melancólicas, uma derrota simbólica atrás da outra.

O Vado não morreu. Segue um pouco triste, mas resignado.


Ter estado — e ainda estar — num mundo que produziu tanta coisa boa; ter testemunhado o melhor do cinema e do teatro, da música brasileira e da música internacional; ter nas estantes de casa — ou no celular — o melhor da literatura mundial e ainda conseguir, vez ou outra, olhar de perto alguns marcos da humanidade mundo afora justificava a existência.


Largou a contagem para lá. Encontrou até uma antiga namorada com histórias boas para reviver.

Quando lembra, sofre um pouco. Mas não é nada que uma boa música não resolva.


Rio de Janeiro, maio de 2026.

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