Milagres do Amor
- Eleonora Duvivier

- há 5 dias
- 4 min de leitura

Há mais de 20 anos, eu já abraçava as árvores no nosso quintal. No nosso abraço, eu sentia uma intensidade calada, calma e profunda. Meu ex-marido, que é super convencional, tinha vergonha e dizia que os vizinhos iriam me achar louca. Mas na comunhão com uma arvore, o seu silencio me transmitia humildade ao mesmo tempo que majestade. Me transmitia acolhimento e amor, mistério que nunca vai ser explicado e nunca vai caber dentro de uma fórmula científica. Respondendo a um chamado de amor `as arvores, eu as abraçava, e pouco se me dava me acharem louca ou não.
Ontem, vi uma postagem no Instagram, querendo explicar por que é positivo abraçarmos uma árvore. Claro que nem se tocou no sentido de amor pela criação ou na comunhão com ela. Falou-se que o efeito positivo de abraçá-la é “justificado” pela ciência. Imbecilidade total. Explicava-se que os “fitoquímicos” liberados pela árvore aumenta a imunidade e diminui o estresse, chegando `a conclusão de que devíamos abraçar arvores quando nos sentimos tensos: “Isto não é uma moda espiritual, é ciência.”, a postagem dizia, como que subentendendo que a ciência está acima de tudo.
Querem se apoiar no explicável por não saberem conviver com o mistério, por não saberem se abandonar àquela voz tão distante quanto profunda dentro de nós, que nos acena do nosso coração para O Coração. Querem ter o controle sobre a realidade como todo, porque respondem ao medo e orgulho que os vitimiza, os imbecis.
Um dos maiores problemas da cultura ocidental, talvez “o problema”, por excelência, é o desejo de transformar espiritualidade em ciência. Pois o que é a ciência se não a distância da realidade “em si”; o pique da cisão entre o sujeito conhecedor que objetiva, de um lado, e o mundo, ou objeto a ser conhecido, do outro lado, prevalecendo sobre a espontaneidade da comunhão entre os dois, do que é tão simples quanto inexplicável e misterioso: O amor. Ainda bem que Kant, ainda no século XVI, soube botar cada macaco no seu galho ao exilar a epistemologia, do acesso `a realidade última, ao Noumenon, conforme a chamou.
Saí de um grupo online de que nem bem tentei fazer parte- um grupo se intitulando “espiritual” - porque vi que a “espiritualidade” do grupo só procurava apoio na ciência. Um dos autores que se quer inspiracional, e que o tal grupo se orgulha em ler de vez em quando e receber em podcasts- escreve sobre o que chama de “saúde holística, cura quântica”, tentando ligar mente, corpo e consciência, em função de cura, longevidade, autoajuda e “abundância”, claro.
Esta última deve ser a mais valorizada, pois que implica materialidade e dinheiro, esse controle ilusoriamente grotesco sobre a matéria. Ainda bem que os críticos do autor, como físicos e filósofos da ciência, podem ver que ele distorce a física quântica para apoiar suas reivindicações espirituais literalmente, tipo “você cria sua realidade”. Dizem que o cara usa termos técnicos, como “campo quântico não local”, imprecisamente, para apoiar suas afirmações excessivas
. Por isso alguns cientistas chamaram suas ideias de “misticismo quântico” ou “ciência falsa” ao invés da física legítima. Finalmente, o acusam de misturar espiritualidade, indústria, e comércio, observando que a “espiritualidade” dele é ligada a um grande ecossistema comercial através de livros, retiros, suplementos e cursos, transformando filosofia e ideias religiosas sérias em “slogans de autoajuda, facilmente comercializáveis.” Realmente, está na cara que atrás da motivação de uma mensagem fútil, está o interesse do autor por dinheiro e manipulação.
Tudo nos Estados Unidos tem que ser transformado em um refrão barato ou em uma fórmula de venda fácil. Foi essa mentalidade que deu origem ao que vivemos atualmente: O desprezo aberto pela moral em favor do dinheiro. Os cifrões nunca falaram tão alto como nesta época, filha do reino da mentira, da maldade e seu cinismo.
Depois de ler os místicos cristãos e muçulmanos, confirmei algo tão claro quanto auto evidente: ao invés de querer “abundância”, eles prezam o sofrimento, a humildade, a compaixão, e a aceitação do mistério. S. Joao da Cruz não se cansa de enfatizar a presença divina enquanto mistério do amor infinito. Não adianta querer compreender a divindade pois isso é querer ter o controle do conhecimento sobre ela, isto é, puxá-la para o nosso nível rasteiro!
O divino não cabe em uma fórmula científica: Acordem, pelo amor de Deus! Sim, Amor de Deus! Pois a cara de pau é tanta que até adaptação do misticismo de Teresa d’Avila já foi feita para esta sociedade do consumo, querendo garantir a experiencia do divino e justificar, para os tempos de hoje, a necessidade materialista de “abundância”!
Quando se vai ter um pingo de humildade e coragem, sim, CORAGEM, para se abandonar ao que está verdadeiramente além de nós e do nosso limitado entendimento? Quando se vão livrar da mania de controle, muleta ilusória do medo existencial que tanto ajuda o culto ao dinheiro? Quando vão perceber que é o amor, enquanto força inexplicável e irracional, que faz milagres e curas? Para resumir, quando vão se libertar do domínio do dinheiro e da contabilidade que assola este país e tudo que influenciou?
E, finalmente, quando vai se desmascarar, de uma vez por todas, os vendilhões do templo?
Saibam eles que Shakespeare disse uma verdade eterna na sua afirmação de que existe muito mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia!
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