MINUTOS
- Leo Viana

- há 6 dias
- 4 min de leitura

O arrependimento por chamar o carro por aplicativo foi instantâneo e tinha camadas de razões:
- o cartão de crédito já abarrotado de itens fúteis, que tornavam a fatura quase impagável;
- a existência e a disponibilidade de diversas linhas de ônibus que a deixariam na frente do prédio;
- o metrô, cuja estação mais próxima de casa fica a apenas um quarteirão;
- a distância, que ela mesma cobria corriqueiramente a pé naquele horário, sem maiores riscos.
Geralmente ainda passava em algum mercado ou hortifrutti, pegava umas verduras para a salada de todos os dias ou as frutas recomendadas pela nutricionista amiga.
Nos bares perto de casa encontrava sempre um ou outro vizinho bom de conversa.
O aplicativo avisou que a motorista chegaria em oito minutos. Talvez fosse tempo suficiente para desistir, usando alguma das justificativas que os próprios aplicativos oferecem. Mas pensava na motorista, que tinha desviado de alguma outra corrida para aceitar aquela, tão curta. Muitas vezes as suas próprias dificuldades eram ofuscadas ou minimizadas pelas eventuais dificuldades de outrem. Tinha uma sensação forte daquilo a que chamam alteridade: sentir-se na pele do outro.
A alteridade, ainda assim, convivia com aquele arrependimento. Nada justificava o uso do aplicativo. Ou talvez sim.
Talvez fosse resultado das cervejas que bebeu comemorando o aniversário da amiga. Tinha jurado não beber em dias úteis. Verdade que administrava, aos trancos, o próprio negócio, a pequena agência de publicidade. Corria sempre o risco de perder o respeito dos funcionários se não mantivesse uma postura minimamente confiável. Não podia se atrasar para as reuniões que ela mesma agendava. Alguns vinham de muito longe. Se eles não confiassem nela, provavelmente ela em breve não confiaria neles, e se estabeleceriaum clima insuportável.
Já tinha tido problemas com álcool e aprendera a se controlar. Não se embebedou na festa, mas aquelas cervejas podiam, sim, ser o fator que a levou a pedir o carro de aplicativo — um exagero provocado pela euforia que o álcool produz. Tinha a resposta.
Faltavam ainda seis minutos. E se não fosse o álcool? Todas as amigas tinham ido de carro. A maioria não bebia nada, e isso não era um problema. Ela, particularmente, além do trauma alcoólico relativamente recente, precisou vender o SUV de luxo que tinha comprado havia menos de dois anos. Teve que comprar uma sala maior. Motivo justo. Mas talvez fosse para não sair a pé ou de transporte público e virar alvo dos comentários das outras. Pediu até um carro top no aplicativo. Será que foi isso? A consciência não apontava. E também não dava qualquer pista.
O motivo não era evidente. Havia qualquer coisa a ser explicada que fugia ao óbvio. Quatro minutos. Teria chamado o carro por necessidade de conversa, de amparo? Vinha de uma reunião de amigas. Tinha sido um momento festivo e de troca de afetos. Mas teria mesmo sido assim? Eram as amigas de sua melhor amiga, o que impedia que as duas trocassem as confidências de sempre, os chamegos e afagos que sempre caracterizaram a relação desde o colégio. Agora, adultas independentes, não eram mais uma da outra. Eram de seus novos mundos, de suas colegas do mundo corporativo ou profissional. Seria isso? O Uber como um consultório de análise, um divã móvel que a ouviria em dez minutos de viagem a preço módico?
Dois minutos. Marciane, a motorista, tinha nota 5 e se aproximava rapidamente. A proximidade causava um mal-estar. Não queria o aplicativo. Não devia ter pedido. O bairro bem policiado não gerava insegurança, não estava com dinheiro sobrando, tinha o cartão de transporte público.
Marciane chegou. Bonita, simpática. O grande carro elétrico tinindo de novo, um orgulho estampado no rosto sorridente, que podia ser um mero componente do personagem “motorista de aplicativo” ou efetivamente o reflexo externo de uma mulher educada.
Em sua cabeça, mil possibilidades desfilavam. A pior, em sua hierarquização mental imediata, era que se tratasse de uma radical liberal, contra todas as formas de regulamentação do trabalho e ainda tentasse, com um discurso ativo, convencê-la de que era uma empreendedora, que dirigia o próprio carro sem ter que dar satisfações a ninguém. Uma coisa que abominava era essa falta de consciência de classe.
Entrou no carro suavemente. Nem conseguiria fazer diferente num carro alheio. Não conhecia a relação da dona com o veículo, mas podia imaginar, a partir das experiências anteriores. “Não tem geladeira em casa??”. Lembrava dessa pergunta, feita por motoristas quando alguém batia forte demais uma porta de carro.
Marciane respondeu bem ao “boa noite”. Elena não esperava tanto entusiasmo. Elena. De repente refletiu um pouco sobre seu próprio nome. O tanto de vezes que recebeu correspondências com um “H” no início. Ninguém era obrigado a saber mesmo. Os pensamentos viajaram por um instante. A música de bom gosto e o ar-condicionado suave desarmaram em parte o arrependimento por ter pedido o carro de aplicativo.
Os dez minutos passaram voando, mas continuaram sendo dez minutos. Na portaria, ao desembarcar, a lembrança veio com fúria. Precisava urgentemente ir ao banheiro. Vinha se contendo desde o momento em que as outras mulheres saíram do bar e o garçom avisou do encerramento do serviço e do início da limpeza, inclusive dos banheiros, para a retomada no dia seguinte. Achou que chegaria rapidinho em casa, mas foram longos oito minutos aguardando, mais os dez de viagem. Agora a bexiga quase explodia. Ex-síndica, conhecia bem o prédio. Correu a um banheiro de serviço no subsolo.
Por pouco não se molharia toda.
Havia uma razão objetiva!
E nenhum arrependimento!
Rio de Janeiro, março de 2026.
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