Miopia Política: O Custo Invisível das Escolhas de Curto Prazo no Brasil
- José Luiz Alquéres

- há 7 horas
- 5 min de leitura

Miopia é a deficiência de visão que provoca a falta de nitidez do que está mais distante do observador. Há algumas décadas, Theodore Levitt publicou na Harvard Business Review um artigo que se tornaria um clássico da administração: “Marketing Myopia”. Nele, chamava a atenção para um erro recorrente das empresas: definir sua razão de ser a partir de sua produção atual, e não da finalidade do que efetuam.
Levitt utilizava, entre outros, o exemplo das ferrovias norte-americanas. Muitas delas se consideravam empresas de trens, quando deveriam se enxergar como empresas de transporte. Com o desenvolvimento de novas soluções, como oleodutos e gasodutos, não perceberam que sua experiência em logística poderia ser utilizada para participar dessas novas modalidades. As companhias de dutos, oferecendo uma maneira mais econômica de transportar determinados produtos a granel, acabaram por lhes retirar parcela importante do mercado.
A mesma ideia pode ser transposta para a política. Estamos assistindo, nas últimas décadas, a um grande quadro de miopia política no Brasil. O eleitor tende a se fixar naquilo que, no curtíssimo prazo, lhe traz algum benefício, sem avaliar adequadamente as consequências futuras das decisões que toma.
É comum, especialmente às vésperas das eleições, que governos interessados em sua continuidade ampliem gastos, ofereçam benefícios e façam promessas cuja sustentabilidade futura nem sempre está assegurada. O objetivo é produzir uma percepção imediata de prosperidade e conquistar o eleitor naquele momento.
Passada a eleição, porém, chega a conta. Benefícios concedidos sem correspondência com a capacidade financeira do Estado acabam exigindo maior endividamento, aumento de receitas ou redução de outras despesas. Quando um governo posterior procura corrigir os desequilíbrios acumulados, cabe a ele o ônus do ajuste: restringir gastos, rever programas e adotar medidas quase sempre impopulares.
Ao chegar a eleição seguinte, esse governo pode estar desgastado. E a lembrança daquele que anteriormente distribuiu benefícios volta a funcionar como argumento para trazê-lo ao poder. Cria-se, assim, um círculo vicioso alimentado pela incapacidade de enxergar além do que está imediatamente diante dos olhos.
Essa é uma das formas mais perigosas de miopia política: ver apenas o que está debaixo do nariz e ignorar as consequências do dia de amanhã.
Um Estado, assim como uma empresa ou uma família, se constrói olhando para o futuro, acreditando nele e organizando os meios necessários para assegurar um progresso continuado. Isso exige responsabilidade, planejamento e investimentos de médio e longo prazo, cujos frutos muitas vezes somente serão colhidos pelas gerações posteriores.
Esse comportamento exige algum sacrifício no presente. O benefício imediato pode ser menor, mas as gerações atuais têm enormes responsabilidades em relação às gerações que ainda chegarão ao mundo — nossos filhos e netos. Essa é a base sobre a qual foram construídas as grandes sociedades, as grandes famílias e os grandes empreendimentos. Todos eles demandaram alguma forma de renúncia ou contenção no presente em benefício de um desfrute continuado no médio e no longo prazo.
Quando observamos o panorama atual do Brasil, encontramos motivos de sobra para preocupação. Déficits públicos persistentes elevam a dívida e fazem com que parcelas expressivas dos recursos nacionais sejam destinadas ao seu financiamento. É uma transferência para o futuro de parte dos custos das escolhas feitas no presente.
O mesmo raciocínio vale para o meio ambiente. Não podemos explorá-lo como se tivesse capacidade infinita de autorregeneração. Preservá-lo exige políticas sustentáveis, capazes de compatibilizar as necessidades atuais com o direito das gerações futuras de encontrar condições adequadas de vida.
Na educação talvez esteja o exemplo mais evidente. Uma escola de baixa qualidade não produz todos os seus efeitos imediatamente. Eles aparecerão muitos anos depois, quando crianças e jovens chegarem ao mercado de trabalho sem a formação necessária para progredir profissionalmente e para contribuir para o aumento da produtividade e da prosperidade do país. O mesmo vale para a educação profissionalizante, indispensável para oferecer oportunidades concretas de ascensão econômica e social.
Na saúde pública, apesar dos importantes progressos obtidos com o Sistema Único de Saúde e com políticas que permitiram enfrentar diversas doenças e epidemias, persistem graves desafios de organização e prevenção. Saúde, aliás, não se produz apenas dentro dos hospitais. Depende também de abastecimento e tratamento de água, saneamento, qualidade do ar, gestão ambiental, alimentação, educação e condições adequadas de habitação. Mais uma vez, trata-se de enxergar além do problema que está imediatamente diante de nós.
Temos pela frente uma eleição na qual o risco da miopia se torna particularmente relevante. Medidas de efeito imediato e promessas formuladas segundo as conveniências do calendário eleitoral podem construir uma imagem do país muito diferente daquela que uma análise de longo prazo recomendaria.
Por isso, precisamos exigir dos candidatos mais do que benefícios imediatos. Precisamos conhecer programas que não se limitem aos quatro anos de um eventual mandato, mas contemplem o horizonte necessário para produzir mudanças estruturais.
A verdadeira pergunta a ser feita a um trabalhador não é apenas qual benefício receberá no próximo mês. É que país encontrará seu filho, hoje com cinco ou seis anos, quando chegar à vida adulta. Terá uma boa escola? Terá acesso à saúde? Encontrará um bom emprego? Terá condições de progredir profissionalmente? Encontrará possibilidades reais de ascensão econômica e social?
Essas respostas são muito mais importantes do que qualquer promessa ou benefício de curto prazo.
É preciso, enfim, abrir os olhos para que o ato de votar seja compreendido em toda a sua dimensão. Uma eleição não decide apenas o que acontecerá nos próximos meses. Suas consequências podem alcançar décadas.
Combater a miopia política significa justamente isso: deixar de olhar apenas para o presente e votar também pensando no horizonte de nossas próprias vidas e na qualidade de vida daqueles que virão depois de nós.
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