As Fortalezas Que Construímos
- David Gertner

- há 20 horas
- 4 min de leitura

Construímos muralhas para nos proteger do que nos ameaça. O problema começa quando o perigo desaparece, mas o medo permanece.
Por David Gertner, Ph.D.
Às margens do Danúbio, na Sérvia, a Fortaleza de Golubac ocupa há séculos um ponto estratégico na entrada das Portas de Ferro, passagem entre a Europa Central e os Bálcãs. Controlar suas torres significava proteger um território, mas também controlar a circulação de pessoas, mercadorias e exércitos.
Por isso, foi atacada, conquistada, perdida e reconquistada. Sérvios, húngaros, otomanos e austríacos estiveram, em diferentes momentos, dentro e fora de suas muralhas. Mudaram os ocupantes, os inimigos, os impérios e as fronteiras. A fortaleza permaneceu.
Diante de suas torres, surge uma pergunta que vai muito além de Golubac: por que construímos fortalezas?
A resposta mais simples é que as construímos para nos proteger. Às vezes porque fomos atacados. Outras vezes porque tememos ser atacados. Em ambos os casos existe algo que reconhecemos, ainda que nem sempre admitamos: somos vulneráveis.
Talvez toda fortaleza seja, por isso, uma curiosa combinação de força e fragilidade. Erguemos muralhas porque temos alguma coisa a defender. Quanto mais preciosa ela nos parece, maior pode ser o medo de perdê-la. A pedra demonstra poder, mas também revela que existe algo dentro dela que pode ser ferido.
Não construímos fortalezas apenas com pedras. Uma traição pode nos ensinar a desconfiar. Uma rejeição pode nos tornar mais cuidadosos. Uma humilhação pode fazer com que escondamos nossas fragilidades. Depois de uma perda, aprendemos maneiras de não voltar a sofrer da mesma forma. Construímos limites, selecionamos quem pode se aproximar, fechamos alguns portões.
Muitas dessas muralhas são necessárias. Talvez tenham nos permitido atravessar momentos em que permanecer expostos teria sido insuportável.
Construir uma fortaleza pode ser um ato de sobrevivência. Continuar vivendo dentro dela, quando já não existe um exército do lado de fora, pode ser outra coisa.
Os perigos nem sempre permanecem tanto quanto as defesas que criamos contra eles. A pessoa que nos feriu pode ter partido. A circunstância que nos ameaçava pode ter desaparecido. Podemos estar em outro lugar, cercados por outras pessoas, vivendo outra etapa da vida. Ainda assim, alguma sentinela dentro de nós continua sobre a muralha, esperando o retorno de um inimigo que talvez nunca volte.
O perigo passou, mas o medo aprendeu a ficar.
Com o tempo, nossas fortalezas podem se tornar quase invisíveis. Deixamos de chamá-las de medo. Chamamos de prudência, experiência, independência ou realismo. Muitas vezes são exatamente isso. O difícil é perceber quando uma defesa necessária deixou de nos proteger e passou apenas a nos limitar.
Porque existe um preço para permanecer protegido.
Toda fortaleza tem dois lados. De um deles, vemos aquilo de que queremos nos proteger. Do outro, talvez esteja aquilo de que abrimos mão para permanecer protegidos.

Uma muralha capaz de impedir a entrada daquilo que tememos também pode impedir a entrada daquilo que desejamos. Quem nunca confia reduz a possibilidade de ser traído, mas também a possibilidade de experimentar plenamente a confiança. Quem evita qualquer exposição diminui o risco de ser rejeitado, mas talvez também a possibilidade de ser acolhido. Segurança e isolamento podem, às vezes, compartilhar as mesmas paredes.
Isso não acontece apenas com indivíduos. Famílias, comunidades, povos e nações também constroem fortalezas. Carregam memórias de guerras, perseguições, invasões e humilhações muito depois do desaparecimento daqueles que as provocaram. Algumas dessas memórias são essenciais para compreender o presente e impedir que tragédias se repitam. Outras fazem com que antigas ameaças continuem determinando novas relações.
O passado nem sempre termina na memória quando termina no calendário.
Talvez por isso Golubac seja uma metáfora tão poderosa. Durante séculos, homens vigiaram aquelas torres procurando inimigos no horizonte. Os inimigos eram reais. Havia razões para levantar muralhas e fechar portões. Hoje, aqueles soldados desapareceram. Os impérios que disputaram a fortaleza pertencem à história. Pessoas de muitos lugares atravessam seus antigos portões, enquanto o Danúbio continua correndo diante das muralhas que um dia procuraram controlar sua passagem.
A fortaleza permanece, mas sua função mudou.
Talvez nossas próprias fortalezas também possam mudar de função. Não precisamos necessariamente derrubá-las. Vulnerabilidade não exige ingenuidade. Existem limites que devem permanecer, experiências que não devemos esquecer e perigos que continuam reais. Abrir um portão não significa destruir a muralha. Significa reconhecer que podemos decidir quando ele precisa permanecer fechado e quando pode novamente ser aberto.
Talvez amadurecer seja também percorrer, de tempos em tempos, as fortificações que construímos ao longo da vida e perguntar por que ainda estão ali. Algumas continuarão necessárias. Outras estarão protegendo antigas feridas. E algumas talvez estejam nos separando justamente daquilo que gostaríamos de encontrar.
Golubac continua às margens do Danúbio. Suas torres permanecem de pé, mas seus portões hoje estão abertos.
Talvez devêssemos olhar, de vez em quando, para as nossas próprias muralhas e perguntar:
Quantas das fortalezas que ainda defendemos continuam nos protegendo — e quantas apenas continuam de pé porque nunca tivemos coragem de abrir seus portões?
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, e prepara o lançamento de seu novo livro, A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim). Mais em davidgertner.com
Estou ouvindo a playlist Meio ambiente e sustentabilidade através da música. Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras, downloads e licenciamento na Cedro Rosa Digital.
CRIATIVOS, Pensar, Fazer! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
Chamada
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.
Conheça as playlists semânticas da Cedro Rosa.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.
Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)
Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.
Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com (com o assunto: QUERO RADAR)
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade















Comentários