top of page
criativos 2022.png

RAIMUNDO



O diagnóstico era difícil e impreciso. Submetido, contra sua própria vontade, a diversos especialistas, era indiscutível a lesão ao juízo do Raimundo. Aparentemente, não havia nada que colocasse seus familiares ou amigos em risco iminente, considerando que sua vida social continuava mantendo padrões de razoabilidade. Cervejinha de vez em quando, samba, praia e, pra sustentar isso, o trabalho na agência de propaganda, onde era um dos mais queridos no departamento de criação. Mas a rotina do Raí, como era carinhosamente chamado por todos, parecia dar uma mostra ou outra de esquisitice.


Primeiro, deu de falar sozinho.


Nada que a maioria dos amigos, especialmente os colegas de trabalho, também não fizesse. O pessoal da criação vive buscando uma ideia nova, e elas não avisam quando chegam. Muitas vezes é preciso falar, seja pra comemorar a chegada ou pra fixar o conteúdo de uma ideia que vai render um bom anúncio. E nem sempre há alguém a postos para ouvir.


Depois começou a cantar sempre as mesmas músicas.


Ninguém se surpreendeu muito. Alguém da equipe se apressou em explicar que sucessos musicais são assim mesmo. Músicas se alojam na mente das pessoas. Em alguns casos, isso acontece pela efetiva qualidade musical da canção. Em outros, o que ocorre é que a música tem elementos que tornam a fixação fácil. Um refrão forte, palavras que se encaixam bem, um ritmo contagiante.


Sem que quase ninguém percebesse, o Raimundo foi aos poucos trocando o figurino. Usava roupas mais informais, sempre foi dado a camisetas esportivas. Mas, no decorrer dos últimos meses, foi alternando as camisetas com camisas de botão. Em determinado momento, abandonou as camisetas completamente, e as camisas sociais foram ficando menos coloridas: deixou as de mangas curtas pelas de mangas compridas e passou a abotoá-las até o pescoço.

Pareceu, a quem olhava, que fosse uma mudança religiosa. Estaria o Raí se ligando a alguma igreja pentecostal? Não. O vocabulário dele continuava semelhante, e não havia nenhuma tentativa de converter os amigos.


Mais recentemente, pela primeira vez, dirigiu um galanteio, meio fora de propósito, a uma das colegas de agência. Ele sabia que ela era casada e fazia tempo. O marido, inclusive, era o chefe da divisão internacional da agência. Estava em Tóquio negociando um contrato naqueles dias. A colega não se importou, levou na brincadeira, mas alertou colegas, homens e mulheres, sobre o que parecia ser uma “nova fase” do Raimundinho.


Na comemoração de aniversário de um colega, sem que houvesse motivo especial, Raimundo resolveu discursar. Não era conhecido por esta capacidade. Via de regra, era tímido pra falar em público e, na maior parte das vezes, analisava em silêncio e com um riso no canto da boca o que se dizia nesses discursos de aniversário.


Mas tomou a palavra do Celsinho, quase orador oficial da turma, e falou por 15 minutos sobre as qualidades do colega, o quanto era honroso trabalhar junto dele, o quanto tinha aprendido nesses anos, os prêmios que ganharam juntos, etc. A maioria dos presentes se comoveu, mas havia um ponto de atenção.


A equipe do criativo, que não era grande e, portanto, ocupava pouco espaço na festa (muito familiar, amigos de fora da agência, de outros empregos), sabia que o Raimundo e o Alex não se davam bem. Viviam uma relação de pequenas provocações, repetidas toda vez que um dos dois apresentava uma ideia.


Esse foi um marco importante. Naquele momento, todos entenderam que havia algo errado com o Raimundo e passaram, efetivamente, a acompanhar o seu comportamento em toda parte. Se ele sambasse, era observado. Se corresse ou caminhasse, também era. Se trabalhasse mais ou menos horas que o normal, tudo ia para as planilhas que os amigos faziam.


 O Raimundo tá estranho…– Muito estranho…– Nem trouxe marmita hoje…– Cantou a Cris do almoxarifado!– Fez gracinha pra Elena do financeiro;– Beijou a mão da Edwiges, do administrativo.– Foi visto andando às três da madrugada no Centro.– Opa!! Quem foi que viu? Outro doido?

Silêncio constrangido.

Continuam observando o Raimundo. Ainda não há diagnóstico. Mas, olhando em retrospectiva o tipo de maluquices que ele vem aprontando, há quem aposte que ele só quer mesmo é virar chefe.

Cada um com a sua loucura…

 

 

Rio de Janeiro, agosto de 2026.

Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.



 

 

CRIATIVOS, Pensar, Fazer!  atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.

Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.


Chamada

O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.


Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)

Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.

Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com (com o assunto: QUERO RADAR)


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



Comentários


+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page