NOITE PASSADA

Era dezembro e o tempo fechado desde agosto, mesmo com o calor insuportável e a sensação de estufa, anunciava as já tradicionais chuvas ácidas e em grande intensidade.
O Sol era uma lembrança vaga desde maio, quando brilhou pela última vez, no final do outono. O inverno tinha sido gelado apenas durante o mês de julho. Em agosto se iniciou essa estranha estação contínua, que mescla calor, tempo fortemente encoberto e chuvas torrenciais.
O fornecimento de verduras tinha sido interrompido em setembro.
A chuva impediu a continuação do plantio em todos os cinturões verdes do país. As culturas de verão não tinham sido plantadas e, no Sul, era impossível sistematizar as terras para o plantio do arroz.
A Claudete acordou assustada no meio da madrugada com o pesadelo meteorológico. Foi até a janela para tentar adivinhar o horário, mas a escuridão densa na noite encoberta denunciava que era muito cedo ainda. Duas ou três da madrugada. Não acenderia o celular para ver a hora; podia perder de vez o sono.
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A doença avançava sem medicamentos que fossem uma barreira eficaz. Existiam alternativas, mas elas eram muito caras e indisponíveis na rede pública. A Justiça, quando acionada, já não atendia a demandas dessa natureza. A saúde era um ativo que tinha valor monetário e era preciso pagar por ela.
As sucessivas ondas de extrema-direita pelo mundo tinham conseguido um consenso para revogar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. No Brasil, na Inglaterra e em alguns outros países que tiveram, no passado, sistemas públicos universais de saúde, isso agora era uma lembrança distante. Pessoas estavam sendo expulsas de hospitais quando era constatada a sua impossibilidade de pagar pelo atendimento e por eventuais procedimentos mais ou menos complexos. Não havia mais campanhas de vacinação e o preço das vacinas era proibitivo. A mortalidade infantil voltou a subir entre os mais pobres.
Trancada em casa, a Valentina olhava pela janela um mundo em que não queria viver. Chegou a pensar em radicalizar, dar fim à sua própria existência. Morava num andar alto: um salto e estaria tudo resolvido. Acordou suada e com taquicardia. Jamais cometeria suicídio. O pesadelo acabou de repente, mas o mal-estar permaneceu por todo o dia.
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As florestas queimavam e a fumaça tomava todo o país. A poluição do ar atingia níveis nunca antes vistos no Brasil e em todos os países vizinhos, alterando ciclos naturais, aves migratórias, voos comerciais e militares, e a saúde da população.
Na contramão, graças ao garimpo liberado, o Brasil tinha se tornado o maior produtor de ouro do mundo — o que não acrescentava um centavo à economia formal, visto que o garimpo operava à margem do sistema tributário. Diversas etnias indígenas foram extintas com o ataque às suas aldeias e o assassinato seletivo de crianças e adultos em idade fértil. Os que fugiram para a mata foram caçados como animais ou desapareceram nas cinzas da floresta.
A destruição do Cerrado comprometeu a maioria das bacias hidrográficas e o consequente abastecimento de água para todas as regiões do Brasil. Cidades e agricultura estão na dependência de chuvas que provavelmente não virão tão cedo ou virão em volumes exagerados, causando mais destruição que alívio.
O Jonas, que era analista ambiental aposentado, acordou tremendo e chegou a dar um grito que assustou a Carla, mulher dele. Tinham se conhecido no antigo Ministério do Meio Ambiente: ele no Ibama e ela no ICMBio. Ele relatou o sonho, ela o acalmou e voltaram a dormir.
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O Dito acordou de ressaca. A sensação de esgotamento físico e mental remetia ao consumo de pelo menos duas garrafas de vinho suave, daquele mais barato. Há quem diga que é o tipo de ressaca que seria justificativa suficiente para a eutanásia. Mas não tinha bebido nada.
Fazia tempo que o Dito não bebia, depois de dois ou três episódios escandalosos, incluindo assédio e verborragia, que o fizeram passar muita vergonha. E não tinha tido sonho ruim. Na confortável cama king size em que dormia, tinha sonhado com uma situação que parecia capa de folheto de Testemunhas de Jeová: um mundo de paz radical em que as feras, como tigres e leões, comportavam-se como gatinhos domésticos, ronronando e enroscando-se nas pernas das pessoas.
O fato é que acordou como se tivesse apanhado. Talvez algo tivesse acontecido antes de dormir; não conseguia se lembrar direito.
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Os quatro vizinhos sairiam juntos para a eleição. Há tempos votavam na mesma seção e moravam no mesmo prédio. Como, historicamente, também dividiam o mesmo espectro político, tinham decidido sair, com vizinhos e companheiros, em comboio para o local de votação. Entendiam que seria a eleição mais importante de suas vidas — uma decisão que poderia levar a cenários razoáveis ou catastróficos, a depender de quem fosse eleito.
Não comentaram os sonhos que tiveram nem o quanto aquilo tinha impactado o seu despertar. O Dito chegou a esboçar um comentário: tinha estranhado muito aquele sonho com um mundo de paz artificial. Sabia que tinha relação com as promessas de uma das campanhas, curiosamente mais relacionada por seus opositores com a violência em formas diversas — do bullying infanto-juvenil ao feminicídio, passando por todas as formas de desrespeito ao ser humano e sua integridade física, até alcançar o desrespeito às demais formas de vida e à natureza.
A pregação de uma “terra sem males” guarnecida pelo direito individual de portar armas.
Não foi adiante. Pensou em falar daquilo, mas abortou a missão. Tinham posições definidas e não queriam trazer para a conversa os sonhos distópicos que tinham atrapalhado suas merecidas noites de sono.
Os outros, pensando na eleição e absortos em seus pensamentos, também guardaram para si as lembranças dos pesadelos da noite anterior.
Encontraram amigos e conhecidos na seção, falaram sobre esperança e utopia, meio ambiente e futuro para as gerações seguintes.
Votaram e foram para casa esperar a apuração.
Mas levaram consigo a cicatriz nas almas, causada por sonhos assustadores.
E a torcida para que eles nunca se tornem realidade.
Rio de Janeiro, outubro de 2026.
Estou ouvindo a playlist Luis Melodia, Monarco, Walter Alfaiate, Paulo Marquez e Teresa Cristina cantando Mário Lago.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
Chamada
Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro.
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada.




















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